quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Crônicas do Dia - Trump para presidente 2.0

Neste primeiro mês, Trump não conseguiu sair da trincheira que cavou para si e seu núcleo duro de assessore

19/02/2017 
Dorrit Harazim, O Globo


Menos de um mês após ser empossado na Casa Branca, Donald Trump dá sinal de asfixia na Presidência e vai buscar oxigênio junto à massa que o elegeu.

Deixando para trás uma Washington coalhada de intrigas e conspirações, agendou para ontem à tarde um comício destinado a turbinar os bons e velhos tempos da vitoriosa campanha eleitoral de 2016. E para lançar oficiosamente sua candidatura para 2020, caso aguente a real dimensão e pressões do cargo pelos próximos 1.354 dias.

Em setembro passado, para um comício de campanha, ele desembarcara no mesmo aeroporto de Orlando- Melbourne da Flórida do Boeing azul, vermelho e branco, com o seu nome escancarado na fuselagem. Ontem, ele pousaria a bordo do Air Force One, atestado inquestionável de sua legitimidade na Presidência.

Ainda assim, é o próprio Trump que tem necessidade de relembrar, dia sim dia não, sua vitória sobre Hillary Clinton. De forma compulsiva, ele incha a seu favor o número de votos eleitorais obtidos e chegou a mandar investigar o órgão que divulgou a foto de um público menor no dia da posse.

É como se continuasse em campanha para convencer o mundo, e a si mesmo, de que ele é, de fato, o 45º presidente dos Estados Unidos.

Neste primeiro mês, Trump não conseguiu sair da trincheira que cavou para si e seu núcleo duro de assessores.

Errática e claudicante, a estreia ultrapassou qualquer expectativa pela soma de fatores: o tamanho do despreparo do titular para o cargo, o seu estilo confrontador, a combativa resistência da sociedade civil à sua agenda, crises em cascata, o perigoso antagonismo anti-Trump do pantagruélico emaranhado de agências de inteligência — o chamado “deep state”, ou “Estado subterrâneo” — que atua com interesses e poderes igualmente pantagruélicos.

O democrata Leon Panetta foi chefe de gabinete de Bill Clinton e serviu como secretário de Defesa e diretor da CIA no governo Barack Obama. Em 50 anos de carreira na política, pôde observar o estilo de nove presidentes ocupantes da Casa Branca, mas como explicou ao “New York Times”, nunca se sentiu tão nervoso com o que pode ou pode não acontecer em Washington.

“Durante certo tempo você pode acertar e errar. A partir de determinado ponto, não importa qual seja a sua agenda particular de mudança, você simplesmente não pode deixar que mudança vire caos”, resumiu Panetta.

Um dos atributos que ajudaram a catapultar Trump junto ao eleitorado foi seu perfil de empresário bem-sucedido, eficiente transformador de um bom negócio em império dourado. Era visto, portanto, como mais capaz do que os políticos e burocratas para impor ordem, progresso e disciplina a Washington.

Mas o que se viu até agora tem sido uma cacofonia de poder e funções na Casa Branca — apesar de o presidente definir sua gestão do caos como “máquina perfeitamente azeitada”. Reger um conglomerado familiar e ser CEO
de uma corporação pública exigem proficiências bastante distintas, como já escreveu o americano Bert Spector, embora adaptações sejam viáveis e de certo frequentes.

Já os atributos necessários para assumir a liderança de uma nação, no caso a maior potência do mundo rachada por uma guerra intestina na sociedade, são de outra esfera.

Dificilmente alguém começa a amadurecer aos 70 anos, idade de Donald Trump. Mesmo assim, ele deveria levar em conta uma reflexão feita pelo antecessor paranoico e vingativo par excellence a ocupar a Casa Branca na década de 1970.

“Até você chegar no topo é fácil”, escreveu Richard Nixon após ter sido enxotado do poder por impeachment, referindo- se a seus lances de audácia, vingança e imprevisibilidade que desnorteavam meio mundo. “[Uma vez no poder] você não consegue mais parar porque esse jogo se torna parte de você. Você continua a andar à beira do precipício fascinado com o fato de não perder o equilíbrio”.

Trump assumiu a Presidência com uma agenda de mudanças radicais e um estilo “a golpe de marreta” — prioridade para o impacto, o nexo vem depois. Ele também parece disposto a andar à beira de precipícios para moldar o país e o mundo à sua feição.

Tem em comum com Nixon, que era bem mais introspectivo, reflexivo e preparado, o fato de desembarcar na Casa Branca já com uma lista de quem considera inimigos. Inimigos, não adversários.

Em artigo para a revista “New Republic”, o historiador Rick Perlstein elencou esse paralelo. Relembrou que Nixon, obcecado com o vazamento de informações em seu governo, ordenou o primeiro grampo de telefone de um funcionário seu no quarto mês de mandato. No segundo ano, uma unidade inteira da Receita Federal submetia um grupo de militantes antiguerra a um duro interrogatório numa sala vedada, à prova de som.

A escalada de abuso de poder para espionar suspeitos de ameaçar sua autoridade terminou, como se sabe, no célebre caso Watergate, que o derrubaria.

Com o governo ainda em formação, o presidente atual, bem mais extrovertido e fanfarrão do que o soturno Richard Nixon, não faz segredo de seus desafetos. No topo da lista de inimigos reais ou imaginários costuma citar a imprensa que não lhe é dócil. “Vou falar diretamente ao povo americano com a mídia presente”, proclamou na entrevista coletiva de improviso desta semana. “Ninguém acredita em vocês”, disse, dirigindo-se aos repórteres. “Acreditam em mim”.

É a mídia que abriga e enriquece seu noticiário investigando informações provenientes em cascata da burocracia federal hostil a Trump.

Foi a mídia que expôs os controversos contatos do assessor para Segurança Nacional, general Michael Flynn, demissionário, e outros componentes da campanha de Trump, com interlocutores russos sob vigilância dos serviços de inteligência americanos.

São esses vazamentos por parte do “Estado subterrâneo”— a burocracia, as agências de segurança, os círculos do poder permanente de Washington — que Donald Trump precisará conquistar ou derrotar se quiser deixar de ser candidato e pensar em 2020.

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