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domingo, 2 de agosto de 2020

Você sabia disso? - A temática do Adultério feminino no Realismo


O Realismo Europeu enfatizou um tema bastante instigante na literatura: o adultério feminino. Desde A Ilíada, de Homero, a traição feminina é referida como causa de grande conflitos.

No poema épico Ilíada, 800 anos a.C, é narrada a história da guerra de troia, provocada pelos amores da esposa de Menelau, Rei de Esparta, pelo jovem troiano Páris, O rapto de Helena por Páris teria sido a causa da guerra de troia, segundo os registros de Homero.


Shakespeare também tematizou as conseqüências de traição feminina, ou pretensa traição, como é o caso da famosa pela Otelo, composta no século XVII e encenada muitas vezes desde então. Nessa peça, Shakespeare mostra o avanço dos ciúmes de Otelo, desconfiado de qe sua esposa Desdêmona o está traindo com um de seus soldados. Otelo enlouquece de ciúmes, e instigado por Iago, acaba por assassinar a esposa inocente em um acesso de fúria.


No romantismo alemão, temos também um famoso caso de amor, temperado com a possibilidade do adultério. Trata-se do romance Werther, de Goethe, publicado em 1774, e que conta, por meio das cartas que Werther escreve a um amigo, as desventuras de seus amores por uma mulher casada. Embora a traição não se consume, a tensão narrativa está toda concentrada no fato de haver um triângulo amoroso entre Weather, Charlotte e seu esposo Albert.


Na frança do século XIX, já no Realismo, Gustave Flaubert publicou o famoso romance Madame Bovary, em que uma mulher casada trai o marido em busca de uma satisfação existencial que o casamento e a família não lhe ofereciam.


Eça de Queirós, no realismo português, também tematizou o adultério feminino em vários de seus romances, como O Primo Basílio e Alves & Cia, entre outros.


No Brasil, o grande mestre do tema é Machado de Assis. O casamento e seus melindres aparecem nos vários romances e contos de Machado, de modo a revelar o olhar aguçado do autor para essa instituição tão problemática quanto detentora das esperanças de homens e mulheres.


Vejamos alguns momentos em que o adultério feminino é sugerido em alguns dos contos e romances de Machados de Assis.


Em memórias Póstumas de Brás Cubas
A mulher quando ama o outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e portanto tem de dissimular como arte maior, tem que refinar a aleivosia(MACHADO DE ASSIS, 1978,p.56)


No conto “Primas de Sapucala”, de História sem Data
Adriana é casada; o marido conta 52 anos, ela 30 imperfeitos. Não amou nunca, não amou nunca mesmo o marido, com quem casou por obedecer à família.
Eu ensinei-lhe ao mesmo o mesmo tempo o amor e a traição; é o que ela me diz nessa casinha que aluguei fora da cidade, de propósito para nós (MACHADO DE ASSIS, 2001,p39)


No conto “A causa secreta”, em várias histórias
A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo, para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada (MACHADO DE ASSIS, 1999, p.45)


Esses são alguns exemplos dessa temática tão recorrente na obra do autor.
No entanto, foi com o romance Dom Casmurro (1899) que Machado de Assis sedimentou o tema do adultério feminino em um tratamento original que vem desafiando a crítica desde então.


http://2dportugues.blogspot.com/2011/09/tematica-do-adulterio-feminino-no.html


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Você sabia disso? - Machado de Assis era negro?!!!!!!!!!!!!


Máscara mortuária de Machado de Assis, no Instituto Histórico e Geografico Brasileiro / Crédito: Wikimedia Commons

No ano passado, a Faro editorial surpreendeu brasileiros diante da publicação da obra O homem que odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior, que já venceu o prêmio Sesc de literatura. O livro se destacou entre as outras obras já lançada sobre o gênio brasileiro. Além de misturar história e ficção em torno de um dos maiores nomes da literatura, o exemplar apresentou a primeira imagem de Machado de Assis negro em sua capa.

“Quando tomei conhecimento da campanha Machado de Assis real, promovida pela faculdade Zumbi dos Palmares, a capa de meu livro já estava na gráfica. Machado de Assis era mestiço, bisneto de escravos, mas sofreu um processo de embranquecimento ao longo do tempo”, revelou Almeida.

“Retratar o mais importante escritor brasileiro como negro é uma correção histórica, que garante às novas gerações conhecer o Machado de Assis real. Devido à importância da campanha, a editora interrompeu o processo de produção do livro e alterou a foto de Machado de Assis na capa.”

Acontece que, por mais que muita gente lembre Machado como branco, e tenha se convencionado representá-lo assim, muito se debate sobre o tema e a maioria das falas conceituadas afirmam que o escritor era preto, inclusive de pele retinta.
Embranquecimento
A primeira vez em que o Bruxo do Cosme Velho foi tratado como branco foi em sua morte. O obituário do escritor, que faleceu em 1908, o classifica como “branco”, enquanto sua máscara mortuária possui claros traços que se associam a características de afro-brasileiros. Depois, com a fama do autor e disseminação de obras durante a República Velha, sua imagem foi reproduzida de maneira embranquecida.
“O maior escritor da literatura brasileira era um homem negro”, reiterou Ana Flávia Magalhães Pinto, da UnB. A batalha narrativa pela representação da pele de Machado tem grande peso, principalmente por incluir entre os fatores a forte herança do racismo do século 20.
Por anos, o tema foi tratado como menor, até que, em 1957, o escritor Rubens Magalhães Jr, divulgou uma fotografia polêmica que teria sido feita no final da vida de Machado. Descrita como “sem retoques”, ela mostra o autor com pele escura e traços africanos, o que chocou, pois era justamente aquela imagem que fora muitas vezes usada, após edições de cor, como prova de que ele era um homem branco.

Movimentos de pauta racial se apegaram à questão e fizeram dela uma bandeira de respeito à ascendência cultural dos negros no Brasil. O embranquecimento de Machado de Assis, ofensivo, era uma forma de ignorar o papel dos afro-brasileiros na construção da literatura nacional (sendo que Machado é, com poucas ressalvas, o maior escritor de nossa história). O debate se acalorou, e a pauta dos movimentos negros se fortaleceu, finalmente, em 2018.
A foto desconhecida
Isso porque, naquele ano, uma inédita fotografia de Machado de Assis foi encontrada pelo pesquisador Felipe Rissato. Ela estava numa edição de Caras y Caretas, uma revista argentina, e mostrava o autor de pé num jardim, sendo visível uma pele retinta e traços faciais negros. Isso apenas fortaleceu o argumento de que Machado era afro-brasileiro.

“Não há texto ou registro algum de Machado em que ele diz ser branco. Ainda assim, por causa do nosso racismo institucional, a elite sempre fez de tudo para apresentá-lo como tal”, afirma o pesquisador da UFMG Eduardo de Assis ao portal Geledés. Mas, para ele, “esse é um debate que ainda vai durar por muitas gerações”.
As representações de Machado como branco nunca cessaram, o que deu origem a um movimento virtual capitaneado pelo portal machadodeassisreal.com.br, que fornece ao público a mais famosa fotografia do escritor, colorizada e representando ele como preto, para que leitores substituam as imagens embranquecidas pela forma mais verossímil nos livros.
“esse resgate é importante porque ele permite que todos possam se apropriar do que é o personagem, essa personalidade, na sua autenticidade, na sua apresentação genuína. Essa pele escura, essa sua antecedência de filhos e filhas de negros escravos, ela foi ficando e se perdendo pela História”, afirmou José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em entrevista à Band.
A fotografia de Caras y Caretas foi, então, submetida a análises por parte do historiador Joaquim Marçal, curador da Brasilianas Fotográfica da Biblioteca Nacional. Para ele, as variações de luz do local dificultam uma resposta, pois há partes em que a pele parece mais clara que outras. Porém, ele concluiu pelos traços gerais que é possível afirmar que ele era um homem de pele escura, muito mais do que a maioria de seus retratos.
Ele colocou: “Usando a luz, tudo é possível para um fotógrafo, inclusive afinar um nariz [em referência à fotografia divulgada pelo fotógrafo Insley Pacheco]. O retoque pode ter até acontecido, inclusive como um acordo tácito entre Machado e Pacheco, mas não há como saber ao certo”. Porém, ele lembra que a imagem está com uma qualidade bem baixa.
O irônico Bruxo
É importante lembrar que a obra inteira de Machado é composta de uma capacidade de crítica gigantesca, e seu principal alvo é o racismo e o escravismo da sociedade imperial. Com ironia e sarcasmo, ele retratou o encobrimento das relações senhoriais dessa mesma maneira: com a sutileza enganadora. Neto de africanos alforriados e filho de pardos, ele tinha conhecimento direto da vida infeliz da escravidão, e buscou a ascensão social (pois nascera numa área pobre do Rio de Janeiro) pela cultura erudita.
Por último, vale citar novamente a professora Magalhães Pinto, que afirma que os esforços de retratar Machado como branco: “demonstram como a violência racial tem organizado até mesmo as políticas de memória sobre a história do país e de sua gente. O embranquecimento de Machado é produto da apropriação da sua memória por parte de homens que o queriam branco, para legitimar um projeto de país em que pessoas negras seriam apenas resquícios de um passado que se queria esconder e quiçá esquecer”.

Você sabia disso? - 5 obras de Machado de Assis que denunciavam a sociedade escravista


Por meio de uma linguagem irônica e sarcástica, o precurso do Realismo no Brasil abordava o racismo estrutural de sua época
Machado de Assis é um dos principais autores do Realismo no Brasil, e suas obras criticavam a sociedade escravocrata da época. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, é possível perceber isso no capítulo LXVIII, O Vergalho. O autor retrata a submissão de Prudêncio, ex-escravo de Brás Cubas, que ao ser flagrado agredindo outro homem negro, acata as ordens de seu antigo senhor. A intenção de Machado de Assis é mostrar como os reflexos da escravidão perduraram na vida dos negros.
Lançada após a promulgação da Lei Áurea e sob um pseudônimo, a crônica Abolição e Liberdade foi publicada na coluna Bons Dias!, de Machado de Assis. Na obra, o autor apresenta de forma sarcástica sua opinião sobre a abolição da escravidão no Brasil. Segundo o escritor, a carta de alforria foi ilusória, uma vez que os negros continuaram em condições de exploração e miséria.
O conto Pai contra Mãe, presente na obra Relíquias de Casa Velha, retrata a perseguição de escravos foragidos, em que pessoas eram pagas para capturá-los. A trama se baseia na história de Cândido Neves que se vê desempregado e prestes a perder a guarda de seus filhos. Para arrumar dinheiro, começa a trabalhar capturando escravos. Nesta obra, o autor critica a forma como a sociedade tratar os negros e a desigualdade social.
Considerado um romance de caráter psicológico, o livro Memorial de Aires aborda temas polêmicos, como a sociedade racista e as conflituosas relações amorosas. Com caráter autobiográfico, a obra apresenta, ainda, a vida de um diplomata idoso e das pessoas que conheceu ao longo de sua trajetória.
Quincas Borba critica os costumes e a filosofia da época, além de ser uma paródia do cientificismo e evolucionismo. O romance, assim como os outros, aborda questões sociais da época, a partir das fictícias teorias Humanitistas do personagem principal, o filósofo Quincas Borba .

+Saiba mais sobre o tema por meio de grandes obras:
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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Você sabia disso? - Glórias Póstumas



Nova tradução para o inglês de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, clássico de Machado de Assis, coloca em evidência internacional o maior nome da literatura brasileira

Um escritor só se torna clássico quando seu nome vira adjetivo; um atributo tão específico que a essência do que ele descreve não pode ser explicado por outra palavra. Pressupõe uma marca tão reconhecidamente universal que passa a ser usada por nós, mortais, para designar um comportamento humano que a gente até sabia que existia, mas que não tinha, até então, criado uma palavra para explicar. É assim com “Kafkiano”, “Maquiavélico”, “Dantesco”. No Brasil, temos “Machadiano”. Reproduzir esse estilo em outro idioma sempre foi o grande desafio dos tradutores de Machado de Assis. Pela repercussão que a nova edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” está recebendo no exterior, podemos dizer que a tradutora Flora Thomson-DeVeaux está saindo vitoriosa.

A nova versão da obra mais icônica da literatura brasileira foi lançada no início de junho nos Estados Unidos pela Penguin Classics. Sua simples publicação por uma editora tão tradicional já imprimiria ao título um status de clássico. Não que “Memórias Póstumas” precisasse disso: nasceu clássico desde que foi publicado em capítulos na Revista Brazileira, em 1880. Quando saiu pela primeira vez em livro, no ano seguinte, já era eterno.

A tradutora e ensaísta Flora Thomson-DeVeaux é americana, mas seu sotaque carioca é mais forte e perceptível que o estrangeiro. É formada em espanhol e português pela Universidade de Princeton e tem doutorado em estudos portugueses e brasileiros pela Brown. A tradução fez parte da sua tese de doutorado, que inclui ainda um extenso estudo crítico sobre Machado. Flora começou a aprender português quase por acaso, em 2009, apenas para acrescentar um idioma à grade curricular em Princeton. Como já falava espanhol, achou que seria fácil se incluísse outra língua latina. “Foi mais difícil do que eu esperava”, lembra, mas seguiu em frente.

Flora credita sua vocação para as línguas à herança musical: a mãe é pianista, a avó era professora de música. O pai é musicólogo; o avô, professor de música medieval. Durante o curso de português foi convidada para traduzir uma biografia de Carmen Miranda. O livro não saiu, mas ela se apaixonou pelo Brasil. Em 2011, veio fazer um intercâmbio de seis meses e, assim que colocou os pés em solo carioca, se apaixonou pela terra que só conhecia pelas palavras. As paisagens que habitavam seus sonhos se materializaram diante de seus olhos, sensação que o clichê nos obriga a descrever como “amor à primeira vista”.


Voltou para os EUA, onde traduziu “Machado de Assis: Por uma Poética de Emulação”, premiado livro de João Cezar de Castro Rocha, professor de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ao se deparar com trechos citados pelo acadêmico e compará-los com as versões americanas, percebeu que as traduções eram corretas, mas não reproduziam o estilo “Machadiano” do original, ou seja, a ironia discreta e cortante, as diversas camadas de complexidade escondidas nos detalhes da narrativa. Passou a traduzir os trechos por conta própria.

O resultado, “Machado de Assis: Toward a Poetics of Emulation” (Por uma Poética da Emulação), foi publicado pela editora da Michigan University em 2015. Quando leu “Memórias Póstumas” pela primeira vez, ficou impressionada com o tom sarcástico e divertido do texto e decidiu que ele seria o objeto de sua tese de doutorado. Cinco anos depois, sua tradução foi publicada pela Penguin Classics e tem recebido uma atenção surpreendente: em menos de 15 dias, as duas primeiras tiragens se esgotaram e o livro já está indo para a terceira edição – a editora não divulga os números de cada edição. “Por mais que eu soubesse que o livro é excelente, não esperava esse sucesso”, afirma a tradutora. “Está indo tudo muito rápido.”

Essa é a quarta tradução do livro de Machado de Assis para o inglês. A primeira saiu em 1952, quando William Grossman lançou Epitaph of a Small Winner (Epitáfio de um Pequeno Vencedor). Pouco depois, em 1955, o inglês Percy Ellis lançou outra versão, Posthumous Reminiscenes of Braz Cubas. A terceira tradução foi feita em 1997 por Gregory Rabassa, renomado tradutor de literatura latino-americana. Ele é o responsável, por exemplo, pela primeira e única tradução de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, para o inglês, e costuma ser creditado como um dos responsáveis pelo sucesso da obra no mercado internacional.

Segundo João Cezar Castro Rocha, as traduções anteriores de “Memórias Póstumas” não haviam sido bem sucedidas na tarefa de manter a complexidade do texto original. “Há uma simplicidade enganosa no estilo de Machado. Seu texto é uma explosão de ambiguidades e exige um tradutor que entenda muito bem não apenas o idioma, mas as camadas de ideias presentes ali”, afirma o professor. “A tradução de Flora é uma façanha porque em vez de aplainar o texto, ela explicou suas opções idiomáticas em notas e no estudo crítico que acompanha a nova versão”, afirma Castro Rocha. “Quando se traduz Flaubert ou Goethe para o inglês, tanto o tradutor quanto o leitor estão preparados para dedicar um esforço suplementar, que é recompensado pela qualidade superior da obra. Se o leitor aceita penetrar na prosa labiríntica de Marcel Proust, ele também pode investir para compreender Machado de Assis.”

Mercado global

Apesar de já ter sido elogiado por nomes como Philip Roth, Susan Sontag, Allen Ginsberg, John Updike e Salman Rushdie, entre outros, Machado nunca foi um best-seller no mercado internacional, como aconteceu com outros escritores latino-americanos como García Márquez e Vargas Llosa. “Esse boom da literatura latino-americana que começou em 1967 com “Cem Anos de Solidão” não foi impulsionado por um único nome, mas por toda uma geração: principalmente García Márquez e Vargas Llosa, mas também Ernesto Sábato, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares. Além disso, havia um interesse global pela situação em Cuba, o mundo tentava compreender o que pensava a América Latina. Não há nada similar no momento, Machado chega ao mercado internacional sozinho.”

Mídia essencial

O escritor Silviano Santiago, autor de “Machado”, obra em que recria os últimos anos da vida de Machado de Assis, acredita que há duas fases da literatura brasileira nos Estados Unidos. A primeira, nos anos 1950, teve foco acadêmico e foi inspirada por ensaios do escritor John Barth e as primeiras traduções de “Memórias Póstumas”, por Grossman, e “Dom Casmurro”, pela crítica Helen Caldwell. A americana foi além, publicando um estudo que se tornou famoso entre os intelectuais pela analogia entre os personagens de Machado e a trama de “Otelo”, de Shakespeare. A segunda fase, segundo Santiago, é mais midiática e teve início com “Clarice”, biografia do americano Benjamin Moser sobre a escritora Clarice Lispector, lançada nos EUA em 2009. O livro ganhou destaque e entrou para a lista de melhores lançamentos do ano do jornal “The New York Times”. Em 2020, além de “Memórias Póstumas”, a literatura brasileira chama a atenção da mídia graças à nova tradução de “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, feita pela professora Padma Viswanathan.



“Se a primeira fase foi a do conhecimento, agora temos a fase da divulgação”, afirma Santiago, que teve uma respeitável carreira acadêmica nos Estados Unidos como professor visitante em universidades como Stanford, Princeton e Yale. “A cobertura da imprensa é fundamental. A nova tradução de “Memórias Póstumas” recebeu grande destaque na New Yorker, o que é um fator importante para tornar o autor conhecido do grande público”, afirma Santiago. Ele se refere ao prefácio do livro escrito pelo autor americano Dave Eggers — autor de “O Círculo”, entre outros — e publicado na prestigiada revista americana. Santiago, que também é tradutor, aponta o que é necessário para uma versão de Machado ser bem sucedida. “É preciso encontrar uma voz, um estilo literário que consiga reproduzir a singularidade da narrativa em inglês. Como a apresentação de Dave Eggers ressalta o humor e a ironia do livro, é provável que a tradução tenha sido bem sucedida na representação do estilo “machadiano”. A nova edição em inglês vai garantir que, ao contrário de Brás Cubas, Machado de Assis poderá transmitir a milhares de criaturas o legado de sua riqueza. Dessa vez, no mundo inteiro.

“Na primeira vez que li Machado, fiquei chocada”

Insatisfeita com as versões existentes, a tradutora Flora Thomson-DeVeaux recorreu a dicionários do século 19 para recriar o estilo “Machadiano” em inglês

Como você conheceu a obra de Machado de Assis?
Eu estava estudando português em Princeton quando me disseram que eu só iria entender o Brasil depois de ler ‘Memórias Póstumas’. Comprei uma edição no dia seguinte. Já nas primeiras páginas, tive que abaixar o livro e tomar fôlego. Não esperava algo tão divertido e sarcástico. Mesmo tendo uma familiaridade com a literatura do século 19, fiquei chocada.

O que te chocou tanto?
As sacadas do texto são muito impactantes. Tive que voltar a ele várias vezes antes de traduzi-lo. Na primeira leitura, achei Brás Cubas muito espirituoso, engraçado. Depois fui mergulhando na aspereza, na crueldade que, para mim, é o lastro do livro. Aquele olhar da sociedade, a visão da elite carioca. Ao longo do processo de tradução, fui do riso às lágrimas. Uma risada dolorida.


O livro já tinha três traduções para o inglês. Por que fazer uma quarta?
Comecei a comparar os trechos em português e em inglês e vi que as traduções anteriores não estavam erradas, mas alguns detalhes simplesmente não casavam. Isso me chamou a atenção e me motivou a encarar o desafio. Decidi que não queria traduzir apenas alguns trechos, mas o livro todo.

E por que “Memórias Póstumas”, entre a vasta obra de Machado de Assis?
Eu sabia que seria um grande desafio, mas confesso que a escolha teve um lado afetivo. Me apaixonei pelo livro. Sabia que o processo seria longo e mereceria anos de pesquisa e reflexão. Do mergulho na crítica ‘Machadiana’ ao término do processo de tradução foram cinco anos, de 2014 a 2019.


Como foi o contato para a publicação do livro?
Como eu já trabalhava com traduções, comecei a bater de porta em porta assim que a tese ficou pronta. Fiquei surpresa porque a Penguin Classics topou rapidamente. Os editores acreditaram no projeto.


Contos que a realidade não deixa esquecer

Organizado pelo professor João Cezar de Castro Rocha, a antologia “Contos (Quase) Esquecidos de Machado de Assis” reúne numa bela edição da Filocalia raridades e textos que não estão nas coletâneas populares. São quatro eixos temáticos: Música e Literatura; Política e Escravidão; Desrazão; Filosofia. Como são apresentados em ordem cronológica, é possível acompanhar a evolução do estilo “Machadiano” e de suas opiniões sobre determinados temas. Destaque para “Mariana”, sobre uma escrava apaixonada pelo seu senhor que se suicida ao perceber que o relacionamento não seria aceito pela sociedade. Um conto corajoso que expressava em 1871 uma realidade tão atual que é impossível esquecer.



sexta-feira, 27 de março de 2020

Artigo de Opinião - Machado de Assis: nasceu pigmeu, morreu gigante

Este ano comemora mais um ano de nascimento do maior e mais completo escritor brasileiro. Tinha tudo para dar errado na vida, mas com talento e disciplina chegou no topo naquilo que fazia com paixão.

Sem patrimônio genético ou material, fez da existência um legado impagável e imensurável. Soube como ninguém identificar as adversidades e, mais do que isto, transpô-las com elegância e realismo.

Sua obra não tem decaída, seus recheios literários não nos trazem indigestão intelectual. Sua regularidade está acima de qualquer lampejo de nossos maiores escritores e seus lampejos distanciarem quilometricamente destes mesmos escritores. Já li muitas obras, salvo por uma única frase ou até mesmo por um parágrafo. Em Machado de Assis sua genialidade faz seus recheios literários nivelar ao topo de nossos maiores escritores.

Analiso apenas o conteúdo, não tenho estatura técnica para analisar o malabarismo em quem faz com língua portuguesa. Era sem duvida nenhuma um escritor diferenciado e singular.

Nasceu desprotegido, mas com avanço de existência, soube se armar e criar uma redoma protetora capaz de defende-lo da marginalidade em que o destino impunha.

Retratou a sociedade carioca de seu tempo como expectador. Era sem duvida naturalista e realista. Fez da literatura um instrumento capaz de identificar macro cosmo do comportamento de seu tempo.



O legado de Machado de Assis na literatura é imensurável, mas sua referência maior é como símbolo de ascensão social.

Mostrou para a sociedade contemporânea do que no mundo atual nada é fato consumado. E que a mutabilidade social é extremamente dinâmica. Ele, que nasceu pigmeu e morreu gigante, nos faz compreender um fenômeno sociológico. O que vemos hoje é uma inversão dos que nasceram gigantes e hoje estão morrendo pigmeus. Estes novos valores são um fenômeno contemporâneo. E Machado de Assis é a síntese do que ascenderam socialmente pelo talento. Hoje o talento é um patrimônio vitalício e o patrimônio material está transformando em miserabilidade devida suas fragmentações entre os próprios familiares. Ao caso de que o patrimônio abstrato é de produção abundante e eterna, contemporizada pela sociedade contemporânea com uma certa idolatria devido a expansão e o domínios da mídias.

Hoje é bem melhor nascer inteligente do que em berço de ouro, pois o conhecimento que o inteligente possuiu do mundo e de si próprio não tem patrimônio material que acoberta.

Machado de Assis é exemplo literário e de vida em que devemos seguir. Ele soube conservar pequeno na grandeza conquistada. Suas obras se transpõem para o mundo moderno com fidelidade da imutabilidade da natureza humana. Em um de seus lampejos dizia que algumas madames da sociedade carioca de sua época “não tinha cultura, mas tinha finura.” Digo eu finura o tinha que nasceu pigmeu e no confronto com a vida conseguiu se esmerar e morreu  gigante.



Juarez Alvarenga – advogado e escritor

sábado, 16 de novembro de 2019

Um apólogo - um olhar crítico

Gustavo Atallah Haun[1]

1. INTRODUÇÃO

O apólogo  escrito pelo Bruxo do Cosme Velho, Um Apólogo, é considerada uma das mais lidas e atuais de sua lavra. O texto simples, escrito na década 80, do século XIX, traz um recorte interessante da sociedade da época e muitas inovações do ponto de vista narrativo.

1.1 O INUSITADO FOCO NARRATIVO

Se a base de todos os textos de caráter narrativo é o narrador, sem ele naturalmente não há estória, Machado de Assis (doravante MA) faz uso de um narrador que no princípio é onisciente: “Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:” (1º§).
Os leitores de Um Apólogo, no entanto, podem se deparar com elementos do tipo: “Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa” (16º§, grifos nossos), indicando aí uma participação ou, no mínimo, uma intromissão do foco narrativo.
Da mesma forma, acontece no penúltimo parágrafo (23º§, grifos nossos): Contei esta história (...)”, e só então é percebido que a estória toda fora narrada a outra pessoa – um emblemático professor de melancolia –, tratando-se de uma mescla entre o que está sendo narrado no tempo psicológico (narração-onisciente) e no tempo cronológico (narração-participante ou intromissão do narrador).
Não bastasse essas inovações, MA faz uso de um narrador irônico, no pequeno trecho: “(...) entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética.” (16º§). Como crítico do romantismo que era na fase realista, Machado distrai os leitores com uma intromissão do narrador, citando a deusa grega, com seus cães caçadores, para criar uma imagem que representasse a costureira em ação, com a agulha e a linha. “Somente” para dar ao texto uma tonalidade poética, já que estava muito crua, muito fanfarrona, muito desgastada com o atrito das duas personagens principais até então. Ironia à parte, o fragmento também se configura como uma intromissão do narrador.

1.2 OS PEQUENOS-GRANDES PERSONAGENS

O texto machadiano apresenta dois personagens principais logo no primeiro parágrafo sem, contudo, indicar se há protagonismo e antagonismo. Na verdade, o novelo de linha e a agulha são anti-heróis: os dois brigam, disputam, duelam por vaidade, por orgulho, por mero egoísmo, o que faz a natureza de ambos serem semelhantes e suspeitas.
Se do ponto de vista da importância eles são principais, a caracterização dos dois é plana ou linear, já que não há complexidade, mistério, transformações dos personagens ao longo da trama. Talvez a agulha, por no fim se dar mal e se sentir humilhada, poder-se-ia caracterizá-la como uma personagem esférica ou redonda, mas ao ler o conto percebe-se que a natureza dela não é mudada. A impressão é que o orgulho e a vaidade permanecem, apesar de tudo.
Os demais atores são todos secundários e igualmente planos: baronesa(16º§), costureira(16º§), modista(16º§), alfinete(21º§) e professor de melancolia(23º§).

1.3 O EQUÍVOCO DO TEMPO

A um leitor despreparado o texto camufla o tempo em cronológico e somente no fim ele se mostra, aos que percebem, como psicológico.
Inicialmente o tempo da estória não se mostra, nunca se saberá a época em que ela se passa, mas é de suspeitar que seja uma época de gala, de muita pompa e riqueza, já que são retratados fatos da casa de uma baronesa, que frequenta bailes e dança com ministros e diplomatas.
Já o tempo cronológico é marcado na seguinte passagem:

“(...) Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se.” (18º e 19º§, grifos nossos)

Assim fica delimitado o lapso temporal, em torno de quatro, cinco dias, passa-se toda a fábula machadiana.
Detalhe para a ironia “acabou a obra”: será que Machado está comparando um simples vestido de baile a uma obra artística? Ou quem sabe ao trabalho manual digno de uma artista?
E, então, somente é revelada a verdade para os leitores na penúltima parte, quando tudo parece solucionado:

“Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!”(23º e 24º§)

Está resolvido o quebra-cabeça. O narrador da fábula estava contado uma estória ao simbólico “professor de melancolia” (nos dias atuais seria professor de depressão), e este se identificou com a narrativa. Conclusão: tudo se passa na memória e na imaginação do agora narrador-personagem secundário, só desvendado no final, ou seja, a estória toda é em tempo psicológico.

1.4 OS ESPAÇOS DA AÇÃO

O espaço reduzido da trama, que inclusive já foi citado acima, não tem muita importância, nem descrições pormenorizadas, cuidado especial, etc. Fica-se sabendo do lugar em que tudo ocorre nas passagens: “(...) quando a costureira chegou à casa da baronesa. (...) em casa de uma baronesa” (16º§, grifos nossos) e também: “E era tudo silêncio na saleta de costura” (18º§, grifos nossos).
Há uma amostragem, embora superficial, do castigo imposto à perdedora da intriga, que indica o espaço em que habitará futuramente a agulha: “(...) enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?” (21º§, grifos nossos). Isso pode refletir o nada que a espera, o espaço adequado à sua desimportância no mundo.

1.5 O ENREDO ENTRELAÇADO

Como um verdadeiro bruxo, misturando todas as suas essências em um mesmo caldeirão, MA inova também no enredo, na espinha dorsal do seu texto curto, fazendo uma mistura entre a estrutura narrativa denominada clássica.
A apresentação do texto é feita no primeiro parágrafo (“Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha”) e aí os distraídos pensam que ela acabou. Ledo engano.
Há uma intercalação da complicação, feita do 2º ao 15º parágrafos, quando a agulha e o novelo de linha entram em atrito. Notadamente essa parte é feita em discursos diretos, tirando do narrador toda a ação ou pensamentos que pudessem desviar dos objetivos do momento.
Então, como se nada mais se esperasse, eis que retorna a apresentação, continuando o que seria a introdução (indicação dos personagens, do tempo, do espaço, na situação inicial):

“Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:” (16º§)

Dessa forma, há um breve retorno também à complicação, quando a agulha retoma o debate, tentando irritar a linha:

“— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...” (17º§)

A linha ficou quieta para não dar corda aos devaneios daquela, e as duas seguiram os seus trabalhos e o tempo foi passando.
Só então o leitor é elevado ao clímax da fábula (19º ao 22º), quando o narrador revela todo o suspense, toda a expectativa: a agora importante linha vai ao baile dançar com ministros e diplomatas, enfeitando a sua dona, e a agulha, humilhada, é consolada pelo alfinete de cabeça grande e não menor experiência, indo parar no cestinho das aias.
Por fim, o desfecho é feito nos dois últimos parágrafos (23º e 24º), em tempo cronológico, retomando a realidade ente o narrador e o professor de melancolia.

2. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O texto supracitado, escrito em pleno século XIX, para uma época afrancesada, chamada de belle époque, é uma crítica mordaz aos costumes, à superficialidade e ao estilo de vida já naqueles tempos idos.
Através de objetos inanimados, Machado cria a sua fabuleta incorporando atos humanos, ou desumanos como queiram, fazendo a todos enxergarem a condição precária do homem: egoísta, vaidoso, orgulhoso, prepotente.
Ao leitor superficial, nada parecerá mais do que uma briga entre uma agulha e um novelo de linha pelos fatores acima descritos, uma querendo ser mais importante do que a outra.
Já ao leitor mais crítico, afeito aos textos complexos, verá particularidades de vidas marcadas por bajuladores, aproveitadores, seres parasitas que se esfalfam com o trabalho alheio e, claro, ficam com todos os créditos, com todos os louros.
Esse tal “professor de melancolia” representa uma figura altamente imagética no conto: um ser que ensina tristeza, que é mestre em depressão, que é catedrático em nostalgia e em se dar mal, ser passado para trás. Ele tem servido de agulha (de desbravador, de aventureiro, de lutador, embora arrogante e querendo reconhecimento) a muita linha ordinária, ou seja, àqueles que montam nas costas dos pioneiros para realizar a labuta mais ínfima, mais fácil, e, no entanto, levar toda a glória.
Quantos não se veem assim nas empresas, nos cargos públicos, em todas as áreas da atualidade?
Machado de Assis de ontem se mostra, acima de tudo, um sensível visionário da alma humana, mesquinha e medíocre ainda hoje, em meados do século XXI.
  
3. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


ASSIS, MACHADO DE. Para Gostar de Ler - Volume 9 – Contos. Editora Ática: São Paulo, 1984. P. 59.

CARA, Salete de Almeida. Machado de Assis nos anos 1870: A Preparação do Romance Realista. In: O Bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis no Espelho. São Paulo: Alameda, 2004. P. 29 a 49.

GANCHO, Cândida Vilares. Como Analisar Narrativas. Série Princípios. São Paulo: Editora Ática, 1991.

GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os Leitores de Machado de Assis. O romance Machadiano e o Público de Literatura no Século 19. São Paulo: Edusp. P. 138 a 147.

MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. Machado de Assis. In: Prosa de Ficção (De 1870 a 1920). [SR]

terça-feira, 23 de julho de 2019

Você sabia disso ? - O homem que odiava Machado de Assis

Machado de Assis é arqui-inimigo de protagonista em romance que aborda racismo contra o escritor
Livro mistura ficção com fatos reais sobre o Bruxo do Cosme Velho
Jan Niklas
15/06/2019 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Você sabia disso ? - Machado de Assis trabalha intertextualidade com a Bíblia e a Mitologia Romana



Por Leo Ricino* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

No volume II das obras completas de Machado de Assis da Editora José Aguilar, Rio de Janeiro, 1962, contei exatos 124 contos. É preciso ser extremamente criativo para engendrar tantas e inquestionáveis mentiras que atuem ― e continuam atuando desde sua publicação ― como metonímia para refletir nossa verdade social; aliás, um retrato exato dela, ao captar realidades, procedimentos e atitudes individuais, de cuja soma é formada a sociedade.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Tá na Hora do Poeta - Vida Sofrida



Vida sofrida

Há 108 anos morria,
No Cosme Velho,
O escritor da Gamboa
Aquele que dizia ao morrer que
"A vida é boa"
Se tornou famoso
Por se inspirar para seus textos
No próprio coditidiano.
Nem consigo imaginar,
Com seis anos de sua irmã,
Para sempre, veio a se separar.
Independente de idade
Ler Machado é uma experiência única
Todo mundo jura
Mesmo com a vida difícil que ele teve
Ler Machado só te enche de cultura

Emerson Viana 

Novembro de 2016 
Aluno do Projeto Espaço de Cultura / Aulas Particulares 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Crônicas do Dia - A menina já não anda no bonde

“Menina eu te conheço não sei de onde/Mas por incrível que pareça sei o seu nome/Menina/Não sei se foi no bonde de Santa Teresa...”

(Geraldo Azevedo)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Crônicas do Dia - Me engana que eu gosto - Nelson Vasconcelos

Feriado santo não édia de falar em problemas — a não ser, naturalmente, com o próprio santo do dia. O título acima, por exemplo, até parece, mas não tem nada a ver nem o Temer nem como Crivella. Tr atasede uma referência que us opara obras de suspense em geral, aquelas quenos prendem do início ao fim, masque agentes abe que só contam mentirinhas. e legítimo entretenimento—com ose isso fosse pouco. Não é, pois elas existem para nos recarregaras baterias, sem depor contra nossa inteligência.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Nunca é demais saber .....

Biografia de Machado de Assis



Esta pequena biografia do maior escritor brasileiro foi escrito por Alexei Bueno, poeta, editor, crítico, e incansável lutador na causa de literatura nacional, que gentilmente me permitiu postá-la aqui:

O ano de 1839, em que veio ao mundo Joaquim Maria Machado de Assis, marcava o fim da década mais conflagrada da história brasileira no século XIX, ao lado da futura primeira década republicana, a de 1890. O período entre a abdicação de D. Pedro I em 1831, em favor de seu filho e a Maioridade do mesmo, aos quinze anos de idade em 1840, ou seja, os nove anos da Regência, foi farto em revoluções, separatistas ou não, em diversos quadrantes do país, como a Rusga em Mato Grosso, a Cabanagem no Pará, a Balaiada no Maranhão, a Sabinada na Bahia, ou a Farroupilha no Rio Grande do Sul. Toda essa instabilidade política só acabaria, de fato, na metade da década seguinte com o território nacional íntegro e pacificado pela espada de Caxias, a “vassoura do Império”.

Não saberemos nunca que ecos dessa situação nacional chegaram ao menino nascido na Corte. Machado de Assis, como é de conhecimento geral, foi homem de um sedentarismo notável, não sabemos se por índole se pelos problemas com a epilepsia ou por ambas as coisas. Em sua vida de 69 anos – idade provecta para os padrões do início do século XX – seu mais longo afastamento do Rio de Janeiro foi uma viagem a Minas Gerais em 1890, já cinquentão, na qual chegaria até Barbacena, à qual se acrescentam umas tantas estadas em Nova Friburgo e uma viagem a Barra do Piraí. Não é por acaso portanto, que em seu romance publicado no ano seguinte, Quincas Borba, o personagem Rubião aparece naquela cidade mineira. A verdade é que com algumas poucas exceções, o Simão Bacamarte de Itaguaí, em O alienista, o Rubião de Barbacena em Quincas Borba, a sua obra imensa toma como cenário o Rio de Janeiro onde viveu, microcosmo absoluto de sua comédia humana.

A importância ímpar e fulcral de Machado de Assis na literatura brasileira, aliada à sua extrema reserva, de toda vida, em fornecer quaisquer informações biográficas, deu ensejo a uma série de lendas ou simplesmente inexatidões a respeito de suas origens, que vale a pena comentar. Do pouco que sabemos, estes são os fatos incontestáveis. Em 1805 casam-se no Rio de Janeiro Francisco José de Assis e Inácia Maria Rosa, seus avós paternos. No ano seguinte nasce seu pai, Francisco José de Assis, que vem a ser batizado na igreja de N. S. do Rosário e São Benedito, então Sé da cidade, ainda existente, mas com todo o interior destruído por um incêndio no ano de 1967. Três anos depois, em 1809 – e agora precisamos atravessar boa parte do Atlântico para apanhar as pontas do tecido do destino, ainda não urdido pelas Moiras – casam-se em Ponta Delgada nos Açores, José e Ana Rosa, que daria à luz em 1812 Maria Machado da Câmara, futura mãe do escritor. Três anos mais tarde o casal José e Ana Rosa embarca para o Brasil com a filha e um seu irmão, seguindo uma onda de imigração açoriana muito incentivada por D. João VI, o Príncipe Regente que em fins deste mesmo ano de 1815 elevaria o Brasil a Reino Unido e seria coroado Rei no ano seguinte.

Com um grande salto no tempo chegamos a 1838, ano em que se casam, sempre no Rio de Janeiro, os pais de Machado de Assis. Ele era pintor e dourador – essa última uma atividade artesanal de certo grau de especialização – ela uma agregada na chácara da rica portuguesa D. Maria José de Mendonça Barroso, no Morro do Livramento, onde como toda a agregada, se dedicava a afazeres domésticos diversos. Tal chácara do Barroso era uma vasta propriedade com uma casa grande e diversas outras construções menores, que dominava o morro onde hoje se encontra uma imensa e feia antena de telecomunicações. Francisco José de Assis e Maria Machado da Câmara se casaram na capela da chácara, onde numa das casas de empregados, lhes nasceria o primeiro filho, o nosso Joaquim Maria Machado de Assis, no dia 21 de junho do ano seguinte. Na mesma capela seria ele batizado, tendo como madrinha a sua rica proprietária lusitana. Sua mãe adotara após o casamento, o nome de Maria Leopoldina Machado de Assis – provavelmente em homenagem à mãe de D. Pedro II, a Princesa Leopoldina.

A partir desse quadro, que inclui quase tudo de documental que sabemos, é preciso destruir duas lendas cada vez mais disseminadas e exageradas a respeito do escritor, a miséria extrema em que teria nascido, o baixíssimo nível cultural de seus pais e a sua dominante negritude, para usarmos a afortunada palavra criada por Léopold Senghor. Para dar exemplo do nível de difusão dessas lendas, registramos aqui que em 2008, ano do centenário de morte de Machado de Assis, pudemos ouvir afirmar-se publicamente que seria ele filho de uma lavadeira negra analfabeta.

O biógrafo Gondin da Fonseca, em que pese o seu caráter atrabiliário e o seu freudismo de pacotilha, conseguiu, sujando as mãos no pó dos arquivos eclesiásticos, encontrar a certidão de casamento dos pais de Machado, documento da maior importância na qual constatamos pela desenvolta assinatura de sua mãe, que se tratava de uma jovem perfeitamente alfabetizada. Seu pai, que como pintor e dourador não era um joão-ninguém sem qualificação, era pardo, filho de pardos e a sua mãe uma portuguesa açoriana branca. Tratava-se, portanto, de uma família comum do que poderíamos chamar talvez com certo anacronismo, de classe média baixa da época. Sua composição étnica era, igualmente, o que de mais comum poderíamos encontrar no período na cidade maciçamente portuguesa que era, e ainda continuou a ser por muito tempo o Rio de Janeiro, com uma população autóctone livre altamente miscigenada, após quase três séculos de escravidão. Vale a pena lembrar também que Francisco José era assinante do Almanaque Laemmert, ou seja, um homem que lia, ou que no mínimo, gostava de estar informado.

Machado de Assis, pelas fotografias da juventude – com destaque para a magnífica fotografia descoberta em 2008 pelo grande bibliófilo carioca Manoel Portinari Leão, em que aparece sentado de perfil, como se lesse um livro, aos 25 anos de idade, tirada por Insley Pacheco e divulgada primeiramente na exposição comemorativa da Academia Brasileira de Letras – era, fenotipicamente, um mulato claro com cabelos castanhos lisos a partir da testa e que se encaracolavam à medida que dela se afastavam. Tinha lábios grossos e um nariz de largura mediana. Tais dados, sem qualquer importância, são aqui registrados apenas como contestação da tendência espantosamente crescente da parte de movimentos racialistas brasileiros a representar o autor de Dom Casmurro como um africano puro – como o foi, por exemplo, o grande Cruz e Sousa – ou um negro retinto. Machado de Assis não se distinguia como mestiço, de inumeráveis membros da mais alta elite do Império, como Francisco Acaiaba Jê de Montezuma, o Visconde de Jequitinhonha, como Domingos Borges de Barros, o Barão de Pedra Branca – que José Bonifácio chamava de Barão de Pedra Parda – como Saldanha Marinho, Presidente das Províncias de São Paulo e Minas Gerais, ou como João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, ideologicamente o maior escravocrata de seu tempo.

O que sempre nos parece ter sido posto de lado na caracterização do homem foi a imensa importância de Portugal e da colônia portuguesa do Rio para a sua formação. Há uma palavra – da qual não gostamos aliás – muito em voga, pertencimento, que nos parece, no entanto, servir ao caso. Vale a pena lembrar que o carioquíssimo Joaquim Maria Machado de Assis era filho, marido, afilhado e cunhado de portugueses, para não citar os seus inúmeros amigos lusitanos ou a sua precoce frequência do Real Gabinete Português de Leitura. Em homenagem a Camões, nas apoteóticas festas binacionais do seu tricentenário de morte em 1880, escreveu ele cinco sonetos dos quais quatro, belíssimos, foram depois integrados a seu grande livro de poemas Ocidentais, publicado nas Poesias completas em 1901, sem edição independente. Em 1885 no livro O Marquês de Pombal, editado em Lisboa para comemorar o centenário de morte do todo-poderoso ministro de D. José I – ocorrido de fato três anos antes – publicaria Machado A derradeira injúria, quatorze sonetos formalmente nunca repetidos, de uma qualidade excepcional. No já lembrado Ocidentais encontramos igualmente poemas em homenagem a dois escritores nascidos no Rio de Janeiro mas pertencentes às letras portuguesas, Antônio José da Silva, o Judeu, e Gonçalves Crespo. Parece-nos, portanto, que Machado, o escritor e o homem, sempre sentiu uma grande ligação com o lado materno de sua ascendência. O Rio de Janeiro de sua época, e isso até a sua velhice e ainda após a sua morte, era uma cidade de tal maneira portuguesa que deu ensejo à conhecida piada de Luís Edmundo, o grande cronista carioca, quando de sua primeira viagem à nossa antiga Metrópole. Interrogado sobre o que achara de Lisboa, teria respondido: “Igualzinha ao Rio de Janeiro, com menos pretos e menos portugueses.” Até a década de 1920, de fato, mais de 90% do comércio carioca pertencia à colônia, o que deu ensejo às violentas diatribes do jacobino e lusófobo Antônio Torres contra João do Rio – ambos mulatos como Machado – sendo este último conhecido defensor da mesma através de seu jornal A Pátria.

Da infância do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas não sabemos de quase nada, o que é notório. Em 1841 nasce-lhe uma irmã, Maria, que viria a morrer com quatro anos de idade em 1845, numa das muitas epidemias de varíola que avassalavam regularmente a cidade. A mesma epidemia levou-lhe também a madrinha, a Viúva Barroso do Morro do Livramento. As deploráveis condições sanitárias da cidade continuariam como tais até a radical campanha de Osvaldo Cruz no governo Rodrigues Alves, já no outro século. Em 1849, ano de seu décimo aniversário, o menino Joaquim Maria perde a mãe, tuberculosa, com 37 anos. Sucumbia ela à grande doença de sua época, para os que escapavam da febre amarela e da varíola. Cinco anos depois seu pai se casaria novamente com Maria Inês da Silva, sua madrasta pelo resto da adolescência, que parece ter-lhe tratado com muito carinho. Neste mesmo ano de 1849 nasciam Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Dois anos antes nascera Castro Alves. No ano seguinte, 1850, a Lei Eusébio de Queiroz extinguia oficialmente o tráfico de escravos da África para o Brasil. Das relações afetivas de Machado com essas personagens que povoaram seus primeiros anos, sua mãe, sua madrinha, seu pai, sua madrasta, não nos ficou, em sua obra gigantesca, um único depoimento. A afeição que sempre demonstrou por escrito pela esposa e por diversos amigos não lhe rendeu uma só linha descritiva em relação aos que o trouxeram ao mundo, embora tenha dedicado à memória da mãe as Crisálidas e um poema. No extremo oposto de um Gorki – apenas como exemplo – que transformou a sua avó materna numa das mais comovedoras figuras da literatura russa, Machado de Assis, o anti-memorialista, nos surge quase com um ser criado ex nihil, o que sempre muito acrescentou à aura misteriosa que cerca o início de sua vida.
No ano de 1854 ao que tudo indica, começa Machado a trabalhar na tipografia de Paula Brito no então largo do Rocio, a atual Praça Tiradentes, ponto de encontro de muitos escritores da época, à frente de todos o popularíssimo Laurindo Rabelo e entre eles o seu amigo da mesma idade Casimiro de Abreu. É em 3 de outubro de 1854, aos quinze anos portanto, que ele estréia na imprensa e nas letras, publicando no Periódico dos Pobres ― ao menos do que chegou até nós ― o seu primeiro poema, um bisonho soneto intitulado À Ilma. Sra. D.P.J.A. Tinha início a Guerra da Criméia, o grande assunto da época, cujos ecos encontraremos em Dom Casmurro.
De toda essa geração literária de meados do nosso século XIX, assim como daquela que a seguiu, será Machado de Assis para só falar dos grandes nomes, um dos maiores sobreviventes em matéria etária. Entre os poetas, Álvares de Azevedo morrerá aos 20 anos, Casimiro de Abreu aos 21, Junqueira Freire aos 23, Castro Alves aos 24, Fagundes Varela aos 32, Laurindo Rabelo aos 38, Gonçalves Dias com 41 anos. Dos grandes prosadores, Manuel Antônio de Almeida, seu amigo e protetor, morre num naufrágio aos 30 anos, seu muito amigo José de Alencar morrerá aos 48, apesar de imensa obra literária que produziu concomitantemente com a vida política, Aluísio de Azevedo aos 55, havendo abandonado as letras antes disso, quando conseguiu um emprego público como cônsul, Raul Pompéia suicidou-se aos 32 anos e Euclides da Cunha, para fechar a lista, é assassinado aos 43. São dados interessantes que demonstram como junto ao gênio evidente, a longevidade – para a época – atingida por Machado de Assis foi importante para a realização de sua obra monumental, e quanto a literatura brasileira deve ter perdido por mortes precoces e não apenas no século XIX.
Em 1855 passa Machado a colaborar regularmente na Marmota Fluminense, de Paula Brito. No ano seguinte é admitido como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional, exercendo o ofício até 1858, ano em que chega ao Rio de Janeiro o poeta português Faustino Xavier de Novais, do qual se tornará amigo, fato que terá primordial importância em seu destino. Sua carreira de homem de letras, vocação irresistível, se consolida em variados órgãos de imprensa. Em 1861 inaugura a sua bibliografia, publicando a comédia Desencantos e a tradução da sátira Queda que as mulheres têm para os tolos. No ano seguinte, grande amante do teatro que sempre foi, assume o cargo de censor teatral no Conservatório Dramático Brasileiro. De 1864 data a sua verdadeira estréia, com a publicação de Crisálidas. No mesmo ano morre seu pai e se inicia a Guerra da Tríplice Aliança, o maior conflito bélico das Américas ao lado da Guerra de Secessão americana, que dominará corações e mentes do país até o seu término. Dois anos mais tarde, com a morte no Porto da mãe de Faustino Xavier de Novais, sua irmã Carolina embarca para o Brasil. Em visita ao poeta, que apresentava distúrbios mentais – lembremos que a loucura será sempre um dos temas de eleição da obra de Machado – conhece a irmã do amigo, que se tornará a figura central de seu introspectivo mundo afetivo. Tratava-se de uma bonita mulher – é preciso ver as suas fotos da juventude, não as da velhice, muito mais divulgadas – cinco anos mais velha do que ele. No ano seguinte, em correspondência aberta com José de Alencar apresenta ao público o jovem poeta Antônio de Castro Alves, cuja genialidade escandalosa começava a extrapolar as fronteiras da sua Bahia natal. Em 1869 morre Faustino Xavier de Novais, no dia 16 de agosto. A 12 de novembro, Joaquim Maria se casa com Carolina Augusta Xavier de Novais, na capela particular da casa do Conde de São Mamede no Cosme Velho. Será num dos cinco chalés para aluguel pertencentes à mesma família do Conde de São Mamede, muito amiga do escritor, que anos depois o casal Machado e Carolina encontrará seu pouso definitivo. Em 1870 acaba a Guerra do Paraguai. É o ano em que Machado publica seu segundo livro de poemas, Falenas, e em que Castro Alves, que morrerá no ano seguinte, publica Espumas flutuantes. Nesse ano de 1871 a escravidão no Brasil parece se aproximar de seu fim, com a aprovação da Lei do Ventre Livre em 28 de setembro, graças aos esforços ingentes do Visconde do Rio Branco, mas ainda 17 anos se passarão até que ela acabe. Na França, após a vergonhosa derrota para a Prússia, explode a Comuna de Paris. Em 1872 Machado publica o seu primeiro romance, Ressurreição. No ano seguinte é nomeado, a 31 de dezembro, 1º oficial da 2ª seção da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, início de uma carreira de perfeito burocrata que o libertará da insegurança do mundo das letras e que exercerá brilhantemente até as vésperas de sua morte.
Em 1874 publica o seu segundo romance, A mão e a luva, e no ano seguinte o seu terceiro livro de poemas, Americanas, onde dará a sua colaboração tardia ao indianismo. É curioso notar que enquanto a ficção machadiana é, como dissemos, quase exclusivamente de ambiência carioca e quase inteiramente apolítica, em sua poesia o autor viajará por muitas épocas e lugares que nunca conheceu, assim como externará suas opiniões políticas e sociais de forma até arrebatada, em poemas como Epitáfio do México, Polônia, A cólera do Império ou o furioso Hino patriótico, composto durante a Questão Christie e reproduzido com partitura, em bela página litográfica de Heinrich Fleuiss.
Em 1876 publica seu terceiro romance, Helena, ao qual se seguirá, dois anos depois, Iaiá Garcia. Nesse ano de 1878 tira uma licença na repartição e a 27 de dezembro viaja, doente dos olhos e dos intestinos para Nova Friburgo, onde fica até março de 1879. É nessa viagem ao que tudo indica, que concebe e começa a escrever Memórias póstumas de Brás Cubas, momento de completa ruptura estilística em sua obra, às vésperas dos quarenta anos e do nascimento do Machado de Assis da plena maturidade estética. Em 1880 é representada no teatro de D. Pedro II, a sua comédia Tu só, tu, puro amor…, por ocasião das festas organizadas pelo Real Gabinete Português de Leitura para comemorar o tricentenário de Camões, às quais já nos referimos. Publica, na Revista Brasileira, as Memórias póstumas de Brás Cubas, a sua grande obra-prima enquanto romancista, na nossa opinião, entre os dias 15 de março e 15 de dezembro, obra que sairá em livro no ano seguinte.
Em 1882 publica Papéis avulsos, no qual começa a recolher em livro o inigualável conjunto de narrativas curtas que fazem dele o maior contista brasileiro. A este se seguirá dois anos depois Histórias sem data. Nesse ano de 1884 o casal Carolina e Machado se muda – após haver morado nas ruas dos Andradas, Santa Luzia, da Lapa, das Laranjeiras e na do Catete – para o já lembrado chalé da Rua Cosme Velho 18, onde viverão até a morte de ambos.
1885 assiste à morte de Victor Hugo, o gigante máximo das letras ocidentais, para o qual Machado então escreve o poema 1802-1885 que fará parte de Ocidentais. Nesse mesmo ano publica em A Estação o folhetim Casa Velha, que só sairá em livro em 1944 e que aqui reaparece em edição bilíngue. Alguns críticos tentaram ver algo de autobiográfico nestas páginas, sem maiores indícios comprobatórios.
Nos anos de 1888 e 1889 acontecem, consecutivamente, os dois fatos que alterarão de maneira irreversível o país e sua capital, a Lei Áurea e a proclamação da República, com o consequente exílio da família imperial. Machado, já numa posição única nas letras pátrias, assiste como testemunha discreta aos dois eventos. Em 1890 realiza em companhia de Carolina e da família do Barão de Vasconcelos, a convite dos diretores da Companhia Pastoril Mineira, a sua famosa viagem a Minas Gerais, visitando as cidades de Juiz de Fora, Barbacena e Sítio, atual Antônio Carlos, na qual oito anos depois morreria Cruz e Sousa, na mais completa miséria, aos 36 anos de idade.
1891 vê sair à luz do dia a segunda obra-prima romanesca de Machado, Quincas Borba. Sua velha madrasta, Maria Inês, morre aos setenta nos de idade e o escritor comparece a seu enterro acompanhado por Coelho Neto. Morre também o Imperador Pedro II no seu exílio em Paris. Cinco anos depois, em 1896, publica mais uma recolha de contos, Várias histórias, e é aclamado em 15 de dezembro para dirigir a primeira sessão preparatória da fundação da Academia Brasileira de Letras. O ano seguinte, no qual a instituição começa a funcionar de fato, é o ano da Guerra de Canudos, de inimagináveis consequências para a mentalidade nacional.
Em 1899 Machado de Assis publica a sua terceira e mais popular obra-prima no gênero do romance, Dom Casmurro e os contos de Páginas recolhidas. Em 1901 – ano em que morre a Rainha Vitória, vetusta soberana da maior potência da época, após mais de seis décadas de reinado – lança as Poesias completas, onde aparece o seu novo e maior livro de poemas, Ocidentais. 1902 vê o aparecimento de Os sertões, no qual Euclides da Cunha apresenta às elites de nossa Belle Époque positivista um outro Brasil insuspeitado, vivendo em pleno feudalismo, com uma mentalidade medieval e esquecido de todos.
Três anos depois em 1904, publica o romance Esaú e Jacó. A 20 de outubro morre Carolina, dias antes de completarem 35 anos de casados. Sua dor com a perda da esposa é intensa e duradoura. Ao publicar em 1906 os contos de Relíquias de casa velha, abre o livro com o célebre soneto A Carolina, de um andamento fortemente camoniano. Divide a sua velhice solitária entre a literatura, a repartição, a Academia e a correspondência com os amigos. Em 1908 publica seu último romance, o Memorial de Aires, onde o personagem título se apresenta como observador risonhamente indiferente aos acontecimentos e à passagem dos tempos. Entra a 1º de junho em licença do serviço público para tratamento de saúde. Na madrugada de 29 de setembro às 3h20m, morre em sua casa do Cosme Velho e é enterrado, segundo determinação sua e com grande acompanhamento, na sepultura de Carolina, o jazigo perpétuo 1359 no cemitério de São João Batista, à beira do qual Rui Barbosa, seu sucessor como presidente da Academia Brasileira de Letras, faz o discurso de despedida.

Toda a obra de ficção de Machado de Assis se passa, com raras exceções, como já dissemos, no Rio de Janeiro que viu escoarem-se as suas sete décadas de vida. A cidade, que conheceu como Corte, depois como Capital Federal, é o seu microcosmo, como a Paris de Balzac, a São Petersburgo de Gógol, a Londres de Charles Dickens, para citar uns poucos autores entre inúmeros. No Morro do Castelo – a acrópole quinhentista da cidade, estupidamente demolida em 1922 – só como exemplo, passa-se um episódio de Esaú e Jacó assim como o capítulo 75 de Memórias póstumas de Brás Cubas, onde, recontando as origens de Dona Plácida, aparece a Sé do Rio de Janeiro – cremos tratar-se da velha Sé, lá existente, e assim ainda nomeada muito depois de perder tal dignidade – , talvez o trecho da ficção machadiana que, na nossa opinião, melhor sintetize a sua visão schopenhaeuriana da realidade, da vida intrinsecamente como dor:

“Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. É de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: – Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: – Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.”

No Caminho de Mata Cavalos – Rua do Riachuelo desde a vitória naval do mesmo nome em 1865 – “a mais carioca das ruas” no dizer do autor, erguem-se as casas contíguas de Bentinho e Capitu. É numa casinha da Gamboa que Brás Cubas, depois morador de uma chácara no Catumbi, monta o seu ninho de amor com Virgínia. A protagonista de A desejada das gentes habita a Glória, onde ficava aliás, o Clube Beethoven, muito frequentado pelo melômano Machado de Assis. É na Igreja do Carmo que Romão Pires, de Cantiga de esponsais, exercia suas funções como músico, a Igreja do Carmo na antiga Rua Direita – Primeiro de Março a partir do fim da Guerra do Paraguai – apesar de ele haver nascido no Valongo onde existiu o velho mercado de escravos, e habitar a Rua da Mãe dos Homens, do nome da igreja do mesmo nome, ainda existente, onde Tiradentes chegou a hospedar-se, a atual Rua da Alfândega. Defronte à Capela Real, bem ao lado da Igreja do Carmo na mesma Rua Direita, morreu a avó de Quincas Borba, atropelada por uma carruagem. No aristocrático Botafogo da época viviam Cristiano Palha e Sofia, que enfeitiçou o ingênuo Rubião de Quincas Borba. E assim por diante, numa enumeração que tão cedo não terminaria…

O Rio de Janeiro é, portanto, para Machado de Assis, o anfiteatro em que ele vê desfilar a dança macabra do egoísmo e da baixeza dos homens, a arena na qual se movem os espectros que horrorizaram o jovem príncipe Sidarta Gautama – antes de ele se tornar o iluminado, o desperto, o Buda – os espectros do sofrimento, da velhice, da doença e da morte, todos inerentes ao destino dos homens, aos quais poderíamos acrescentar um quinto, o mais dificilmente detectável, ainda que ubíquo, o da loucura.

Após sua morte, quase todos os traços físicos de Machado de Assis na sua cidade natal, na sua cidade de eleição, foram desaparecendo pouco a pouco. Da casa em que nasceu, casa de agregados da Quinta do Barroso, nada resta, como a própria chácara, e nem sabemos o ponto exato em que se erguia. Os prédios que abrigaram as repartições em que trabalhou foram todos demolidos. O chalé da Rua Cosme Velho, em que residiu por um quarto de século com Carolina e no qual escreveu grande parte de sua obra, foi posto abaixo no ano do seu centenário de nascimento, 1939, para dar lugar a uma mansão, demolida por sua vez no final na década de 1980 para que se levantasse um edifico de apartamentos com uma pizzaria no térreo, que lá está. Um ano após a sua morte no dia 29 de setembro de 1909, um grupo de acadêmicos inaugurou uma placa de mármore na fachada do chalé, capitaneados por Rui Barbosa, tendo Olavo Bilac proferido um discurso na ocasião. O chalé foi demolido mas a placa se conserva no Pátio dos Canhões, no Museu Histórico Nacional, numa grande ironia machadiana ou num retrato de um país em que se destroem as casas históricas e se conservam as suas respectivas placas comemorativas. O Silogeu Brasileiro, onde ele presidiu a Academia e onde foi velado, também foi posto abaixo. De todas as casas em que viveu, a da Rua da Lapa onde esteve com Carolina por uns poucos meses logo após o casamento, parece que ainda existe, salvo um erro na confrontação das numerações. Todas as outras desapareceram. A capela em que se casou nos fundos da casa do Conde de São Mamede no Cosme Velho, esta ainda existe, sem altar ou outro resquício de função religiosa, assim como a própria casa, onde ele ia jogar gamão quase todas as noites. Seu túmulo, finalmente, seu e de Carolina no Cemitério de São João Batista, o “leito derradeiro” do soneto, foi desmantelado no final da década de 1990. Suas cinzas – pouco mais do que isso resta de um corpo enterrado por noventa anos no úmido e ácido solo carioca – foram, juntamente com as de sua mulher, recolhidas ao Mausoléu dos Imortais no mesmo cemitério.

Seu espectro, este persevera por todos os recantos do velho Rio de Janeiro, um espectro a mais, a observar os outros cinco que enumeramos acima.