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terça-feira, 15 de setembro de 2020

Você sabia disso ? - Pelourinho / Salvador

 


Um dos principais pontos turísticos de Salvador e patrimônio Histórico da Humanidade, o Pelourinho deslumbra os visitantes. A arquitetura, os casarões e as cores servem de atrativo à visitação também de moradores. Contudo, muitos desconhecem o real significado e a história do lugar que nasceu como espaço de castigo dos escravos.

domingo, 6 de setembro de 2020

Entrevista - José Vicente - "Há uma verdadeira limpeza étnica contra os negros"

 O professor e empresário José Vicente, 61 anos, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, atua de maneira destacada na valorização da educação inclusiva e equânime da população historicamente abandonada. Esse é o tema de sua vida: a condição dos negros brasileiros e tudo que permeia essa questão. “Em todos os espaços de poder, as pessoas negras são minoria, seja dentro do ambiente empresarial, seja nos três Poderes da República, seja em qualquer instituição pública ou privada”, disse José Vicente, em entrevista à ISTOÉ. A estrutura de comando universitário segue essa regra. José Vicente está entre os poucos reitores negros do Brasil e o único de uma instituição privada. Ex-bóia-fria, ex-policial e educador por excelência, ele discorre linearmente sobre o Brasil e os EUA explicando quais são as razões que levaram a ações de barbárie, quase diárias, que o mundo inteiro viu pela imprensa. Para o professor, a selvageria que vitimou George Floyd, em Minneapolis, e a violência que atingiu o menino João Pedro, no Rio de Janeiro, pertencem à mesma matriz ideológica. Ao falar sobre políticas, especificamente a respeito do governo Bolsonaro, ele é contundente. “O governo já tornou público que não tem nenhuma disposição para resolver a questão da discriminação e do racismo. Pelo contrário, tem reservas”, afirma. “Com Bolsonaro não é permitido o livre pensamento. Esse é o governo da negação”.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Você conhece a história do Pelourinho ?

HISTÓRIA DO PELOURINHO

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A história do Pelourinho se confunde, em muito, com a história da própria cidade de Salvador, que Tomé de Souza, primeiro Governador Geral do Brasil, fundou em 1549, vindo com ordens expressas do rei de Portugal para construir uma "cidade fortaleza".

Feita em caráter de urgência e preocupação, essa medida do Rei de Portugal, D. João III, atendia à necessidade de defesa da nossa terra, constantemente invadida por corsários que vinham retirar, com a ajuda indígena, as riquezas naturais da então colônia portuguesa, principalmente o pau-brasil e a cana de açúcar.

Salvador foi escolhida como sede de governo devido à excelente localização geográfica e estratégica posição econômica, como principal porto de carga e descarga de mercadorias de todo o Nordeste. 

Logo que chegou aqui, Tomé de Souza tratou de cumprir as ordens do rei, fundando a cidade cujo nome homenageia Jesus Cristo Salvador, no melhor ponto para a construção da "cidade fortaleza", o hoje chamado Pelourinho, local ideal de suas pretensões.

As razões que levaram a escolha do Pelourinho são bastante claras. É a parte mais alta da cidade, em frente ao porto, perto do comércio e naturalmente fortificada pela grande depressão existente que forma uma muralha, de quase noventa metros de altura, por quinze quilômetros de extensão, o que facilitaria a defesa de qualquer ameaça vinda do mar.

Em poucos anos, Tomé de Souza construiu uma série de casarões e sobrados, na parte superior dessa muralha, todas inspiradas, evidentemente, na arquitetura barroca portuguesa e erguidos com mão de obra escrava negra e indígena. Para dar maior proteção à cidade, o Governador Geral limitou o acesso a apenas quatro portões, estes totalmente destruídos durante as tentativas sem sucesso, de dominação da cidade no séc. XVII.

Na verdade, o termo "pelourinho" é o nome dado ao local onde os escravos eram castigados pelos senhores de engenho. O "pelourinho" era construído nos engenhos, afastado da cidade. A fim de demonstrar à população sua força e poder, os senhores de engenho resolveram construir um "pelourinho" no centro da cidade, instalando-o no largo central, hoje área localizada em frente a casa de Jorge Amado. A partir daí os escravos eram castigados em praça pública para que todos pudessem assistir tal demonstração de poder. Devido a esse fato o "pelourinho" virou ponto de referência da cidade, dando nome ao antigo centro da cidade, e hoje Centro Histórico de Salvador.

Com o passar dos tempos, o nome Pelourinho se popularizou, tanto na Bahia quanto no Exterior, passando a referir-se a toda a área do conjunto arquitetônico barroco-português compreendida entre o Terreiro de Jesus e a Igreja do Passo.

Durante o séc. XVI e até o início do séc. XX, o Pelourinho foi o bairro da aristocracia soteropolitana, composta de senhores de engenho, políticos, grandes comerciantes e o clero, por isso a forte influência européia na sua arquitetura e o grande número de igrejas num espaço geográfico tão pequeno e, certamente, o mais antigo da cidade.

Foi justamente nessa época que o poder político da cidade concentrava-se nesse local que ainda tem monumentos como a Câmara Municipal, sede da Prefeitura, a Assembléia Legislativa e a sede do Governo do Estado. Porém, hoje em dia, apenas a Câmara e a Prefeitura continuam com suas sedes no Centro Histórico.

Infelizmente, a partir da década de 60, o Pelourinho começou a sofrer um terrível processo de degradação política, social e econômica,pois a cidade sofria um intenso processo de modernização econômica que transformou sensivelmente a sua estrutura ganhando novos centros comerciais e industriais, e novos bairros geográficos.

O Pelourinho foi se tornando um local totalmente abandonando, onde a marginalidade e a prostituição imperavam, junto a monumentos em ruína e desabamentos, ocupados por pessoas exiladas do novo centro da cidade. Esse descaso adiou o reconhecimento do Pelourinho, como patrimônio da humanidade, porém reconhecido pela UNESCO, em 5 de novembro de 1985.

 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Você sabia disso? - A direita insana



Cinco personagens expõem a miséria atual da vida política nacional e apontam para a conformação de uma nova extrema-direita com ideias sem pé nem cabeça e um desejo incontido de violência e lacração

Seria ridículo se não fosse trágico. A manifestação noturna montada na frente do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo autodenominado grupo 300 do Brasil, liderado pela ativista bolsonarista Sara Winter, ficará marcada pelo esvaziamento e falta de importância. O protesto serviu para espernear contra o relator do inquérito das fake news, o ministro Alexandre de Moraes, atual inimigo número 1 dos radicais, a quem Sara chamou de “arrombado”. Mas o que pretendia ser uma grande ameaça direitista parecia um teatro ordinário, cheio de jovens grã-finos carregando tochas ou usando máscaras do personagem Jason, num clima de falsa Ku Klux Klan. Para um grupo que diz ter 300 participantes juntar apenas 30 almas penadas no protesto é, no mínimo, uma vergonha. O que não surpreende porque essa nova extrema-direita brasileira é absurda e sem vergonha. Esses grupos radicais que ganham forma agora no Brasil misturam símbolos neonazistas, fascistas, supremacistas e autoritários de um modo geral, falam muito palavrão e querem se assentar no poder. O ídolo momentâneo é o ditador Benito Mussolini, citado por Bolsonaro numa postagem. É um pessoal que toma leite, precioso líquido dos extremistas, para ser afirmar ideologicamente. Apesar do leite, cultivam a aparência de malvados e o poder dissuasivo. Exibem armas e, obviamente, todos defendem um golpe militar.

Sara Winter ou Sara Fernanda Giromini, 27, que começou sua vida pública atuando como agitadora feminista, defendendo o direito ao aborto e ao topless, é um dos exemplos mais bem acabados desse novo extremismo. Ela era libertária, foi uma das fundadoras do grupo Femen Brasil, mas diz que, em 2014, após sofrer um aborto, decidiu mudar de lado e passou a rezar pela cartilha da extrema-direita. Convertida ao cristianismo, diz-se defensora da família tradicional brasileira, luta contra a discussão de gênero, as drogas, a doutrinação marxista, a jogatina e a prostituição.

Gosta de exibir armas e se mostrar agressiva e desbocada. Hoje é uma das apoiadoras mais ferrenhas do presidente Jair Bolsonaro, tem um cargo no governo e comanda os 300 do Brasil. Parte dos membros do grupo está alojada em Brasília num acampamento situado no núcleo rural Rajadinha, entre Paranoá e Planaltina. A propriedade foi escolhida por cumprir o objetivo de dificultar a aproximação de estranhos e evitar olhares curiosos. Sara foi um dos alvos da operação da Polícia Federal que investiga as fake news, sob ordens do ministro Alexandre de Moraes. Nas redes, Sara divulgou vários impropérios e palavrões contra o ministro e a PF e disse que se recusará a depor.

Outro expoente dessa onda extremista é o deputado estadual Daniel Silveira (PSL-RJ), que ao longo da semana disse, numa transmissão pelo YouTube, que estaria disposto a atirar em manifestantes antifascistas se houvesse um enfrentamento. Ex-policial, Silveira é conhecido por ter sido filmado quebrando uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL) nas eleições de 2018. Também é alvo da mesma operação da PF que atingiu Sara Winter. Nos últimos meses se tornou muito ativo no YouTube e depois dos protestos de domingo publicou vários vídeos que mostram muito bem o espírito da nova extrema direita. Em um deles chamou os participantes de um protesto antifascista que aconteceu, domingo 31, na Praia de Copacabana, de “vagabundos” e, em outro, ameaçou se dirigir ao grupo, declarando a um policial do isolamento que estava armado. “Eu vou lá. Vamos ver se eles são de verdade. O primeiro que vier eu “cato”. Aí fica a lição. Eu queria ir lá pegar um, po. Deixa eu pegar um, caralho”, disse Silveira. Mais tarde, o deputado afirmou que não estava ameaçando ninguém, mas que considerava uma “hipótese plausível, factível” a de que poderia usar uma arma para se defender de manifestantes.

A mulher do porrete

Representante de destaque dessa nova turma da extrema-direita é Cristina Rocha Araujo, também apoiadora fervorosa de Bolsonaro. Ela ficou conhecida, no domingo 31, porque portava um taco de beisebol durante uma caminhada contra a democracia na Avenida Paulista. Acabou retirada da manifestação pela Polícia Militar. “Senhora, por favor, vamos para lá”, disse o agente de segurança, enquanto encaminhava a bolsonarista para o grupo de simpatizantes do mandatário. “Eu não tenho medo, vim para a guerra”, responde ela. Além do porrete, no qual estava escrito Rivotril, um remédio ansiolítico, a manifestante levava no rosto uma máscara com a bandeira dos Estados Unidos, e se dizia com vontade de “enfiar o bastão nas pessoas que estavam criticando o presidente”. Ela se diz filha de um general e amiga do general Eduardo Villas-Boas, ex-comandante do Exército e um dos articuladores da campanha de Bolsonaro à Presidência. Ela trocou insultos e xingamentos com manifestantes a favor da democracia, que naquele dia estavam representados pelas torcidas organizadas dos principais times de futebol de São Paulo.

O amigo do filho 03

Também chama a atenção nessa nova extrema-direita o delegado da Polícia Civil de São Paulo, Paulo Bilynskyj, 33. Ele foi baleado em 20 de maio, por sua namorada, a modelo Priscila Delgado de Bairros, 27, após discussão e briga do casal, dentro do apartamento em que viviam juntos, em São Bernardo do Campo. O delegado ficou internado durante treze dias na UTI do Hospital Mário Covas, em Santo André. Bilynskyj, que era instrutor de tiro e dava aulas a Priscila, contou que a namorada teria ficado furiosa, enciumada, após ver uma troca de mensagens entre ele e uma ex-namorada. Na versão do delegado, a modelo teria disparado seis tiros contra ele e depois se matado com um tiro no peito. Porém, a investigação continua correndo e nenhuma possibilidade é descartada: feminicídio, homicídio e legitima defesa. Os dois se conheceram em 2019, e desde abril estavam morando juntos. Declaradamente bolsonarista, o delegado recebeu apoio do filho 03 do presidente, o deputado estadual Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). “Hospital Mario Covas em Santo André precisa de sangue para o amigo, delegado e Professor Paulo Bilynskyj. Força aí guerreiro. Se Deus quiser vai sair dessa. Já para a imprensa fica o conselho de tomar cuidado para não disseminar fakenews, ok?”, escreveu Eduardo no Twitter. A mensagem já foi apagada.

Antes do trágico fim do seu namoro, Bilynskyj gravou um vídeo em seu canal Projeto Policial, com a participação de Eduardo. Na conversa entre os dois, o filho do presidente fala sobre projeto de lei para liberalização das armas de fogo e faz críticas às pessoas que não apoiam o movimento de armar a população indiscriminadamente. Em suas redes sociais, o delegado Bilynskyj sempre se manifestou contra pautas de esquerda, sobre direitos humanos, além de tecer comentários com conotação machista. “O que mulher faz, além de iludir?”. E também escreveu que “a cada 3 segundos uma mulher ilude 10 homens no Brasil”. Paulo e Priscila planejavam se casar neste mês de junho.

Uma misteriosa bandeira vermelha e preta apareceu na manifestação na Avenida Paulista, em meio aos grupos bolsonaristas, no domingo. Falou-se primeiro que se tratava de uma bandeira neonazista, mas logo se descobriu que era apenas de um grupo extremista e ultranacionalista ucraniano chamado Pravyi Sektor, organização paramilitar convertida em partido político. O reconhecimento da bandeira, inclusive, teria sido o estopim do entrevero entre bolsonaristas e torcidas organizadas que houve naquele dia. Quem portava a bandeira era o brasileiro Alex Silva, 46, instrutor de segurança que mora na Ucrânia desde 2014. Ele trabalha em uma academia de tiro e táticas militares em Kiev, capital do país, e, diante do clima propício às armas e ao conflito, veio abrir uma filial no Brasil. Ficou impedido de voltar para casa por causa da pandemia. Enquanto isso passa seu tempo em manifestações pró-Bolsonaro e contra a democracia. “A gente sempre vai de uma maneira ordeira, pacífica, sem quebra-quebra, sem vandalismo. O máximo que a gente faz é vaiar os caras que nos chamam de gado”, disse Silva. “Eles são terroristas, não são pró-democracia coisa nenhuma”. Sua polêmica bandeira, porém, causou revolta e teve um efeito provocativo. Os novos extremistas dão a sensação de que podem manejar qualquer símbolo autoritário impunemente. Para eles, o importante é lacrar e se preparar para a briga, que pode eclodir a qualquer momento.

Revista IstoÉ - 10 de junho de 2020 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Você sabia disso? - A Esfinge

Na mitologia havia vários seres que representavam uma mistura de animais com pessoas. Cada um deles possuía uma função e as pessoas acreditavam nesses mitos e temiam muitos desses seres. Você já ouviu falar na esfinge? Esta é uma criatura mitológica muito conhecida, e ainda hoje podemos encontrar algumas imagens e até esculturas desse ser. O que acha de conhecer um pouco mais sobre a esfinge?

O que é uma esfinge?

A esfinge é uma criatura mitológica que possui o corpo de um leão e a cabeça de um humano (geralmente um faraó), um falcão ou um gato. Segundo a tradição grega, a esfinge possui pernas de leão, asas de um pássaro grande e o rosto de uma mulher. A palavra esfinge deriva da palavra grega sphingo que significa estrangular.

Essas criaturas eram tidas como traiçoeiras e impiedosas, as pessoas que não conseguiam responder seu enigma sofriam um destino bem comum nos contos e histórias mitológicas, eram mortos e totalmente devorados por esses monstros.

Já na tradição egípcia, a esfinge era uma criatura com corpo de leão e cabeça humana. Esta criatura era vista como benevolente, em contraste com sua versão grega, que era má. Era uma espécie de guardiã que geralmente era representada em enormes estátuas colocadas nas entradas dos templos.

O significado da esfinge

Para os egípcios, a esfinge significava poder e sabedoria. Eles acreditavam que elas eram protetoras das pirâmides e dos templos. Por isso é muito comum encontra-las nas entradas de algumas pirâmides ou dentro delas.

Já para os gregos ela era um monstro que assombrava a cidade de Tebas, utilizava enigmas e quem errasse a resposta era morto. Porém Édipo, filho de Laio um dia tomou coragem e enfrentou a esfinge decifrando o seu enigma.

A esfinge egípcia

Na mitologia egípcia, a esfinge era retratada como uma criatura mística e ancestral e assim como as pirâmides, elas simbolizavam o poder com associações solares sagradas. Representadas na forma de um leão com a cabeça de uma pessoa ou de um falcão, entre as esfinges egípcias maiores e mais conhecidas, temos a esfinge do planalto de Gizé, a Sesheps, que fica na Marge oeste do Nilo. Entre as suas patas há um pequeno templo, afirma-se que o rosto dessa esfinge é o do faraó Djedefré, e é datada de algum momento na quarta dinastia.

A esfinge grega

Na mitologia grega, a esfinge era uma criatura que causava certo medo. Ela era guardiã da entrada da cidade grega de Tebas, e só permitia a passagem de viajantes que conseguiam responder seu enigma. Conta-se que os deuses Hera e Ares enviaram a esfinge da Etiópia para Tebas, e lá ela ficou até que Édipo conseguiu desvendar seu enigma. Após isso a criatura atirou-se de um precipício e morreu.

https://www.estudokids.com.br/esfinge-o-que-e-a-esfinge-egipcia-e-a-grega/

terça-feira, 31 de março de 2020

Você sabia disso? - A palavra "Salário"

Antes de a humanidade inventar a moeda, a remuneração do trabalho humano era feita com mercadorias, como carneiro, porco, sal e peles. A palavra salário, aliás, surgiu a partir da porção de sal que era dada como pagamento aos soldados na Roma antiga. Ao descobrir que o sal, além de ajudar na cicatrização, servia para conservar e dar sabor à comida, os romanos passaram a considerá-lo um alimento divino, uma dádiva de Salus, a deusa da saúde.

A idéia de que o trabalho deveria ser remunerado era inexistente. Na Idade Média, os servos, em busca de proteção, cultivavam a terra dos nobres, recebendo em troca apenas a possibilidade de tirar dela seu sustento. Mais tarde, com a criação das corporações de ofício, trabalhadores livres vendiam no mercado os produtos que produziam. O salário como remuneração que o trabalhador recebe pelo tempo e esforço gastos na produção de bens e serviços surgiu só na segunda metade do século 14, época marcada pelo declínio do poder feudal e pelo desenvolvimento de fortes nações-estado.

Com o capitalismo, tornou-se a forma predominante de pagamento da mão-de-obra. O trabalhador passa a ter poder de compra e muda-se o modo como é visto pelas outras camadas sociais, que não podem mais subestimá-lo ou ignorar seu valor

Ao contrário dos escravos, os servos não eram propriedade de ninguém. O senhor latifundiário só podia vendê-los junto com as terras onde eles já trabalhavam.

Revista Superinteressante 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Como surgiu a expressão " para inglês ver " ?


Com leis que eram oficializadas, mas não cumpridas nas ruas


“Não deve ter existido apenas uma origem para o surgimento dessa expressão”, diz John Schimitz, professor de Linguística Aplicada da Unicamp. Mas, segundo a maioria dos especialistas, a fonte mais provável data de 1831, quando o Governo Regencial do Brasil, atendendo as pressões da Inglaterra, promulgou, naquele ano, uma lei proibindo o tráfico negreiro – declarando assim livres os escravos que chegassem aqui e punindo severamente os importadores.

Mas, como o sentimento geral era de que a lei não seria cumprida, teria começado a circular na Câmara dos Deputados, nas casas e nas ruas, o comentário de que o ministro Feijó fizera uma lei só “para inglês ver”.

“E, de fato, foi isso que aconteceu”, diz Regina Horta, professora de História do Brasil-Império da Universidade Federal de Minas Gerais. “Apesar do esforço do governo inglês, que defendia o fim do tráfico por motivos que vão desde a pressão da opinião pública interna até seus interesses coloniais na África, a lei brasileira permaneceu como letra morta por mais de 20 anos.” Foi preciso esperar outra lei, promulgada pelo imperador Dom Pedro II, em 1852, para a proibição definitiva do tráfico.




sábado, 16 de novembro de 2019

A Escrava Isaura - uma análise



Pessoal, com esse tópico vocês serao capazes de responder as perguntas que eu deixei anteriormente sobre essa obra. deixo também um enlace lá embaixo se vocês quiserem saber um pouco mais da vida e obra de Bernardo Guimaraes.

INTRODUÇÃO

Escrito em plena campanha abolicionista (1875), o livro conta as desventuras de Isaura, escrava branca e educada, de caráter nobre, vítima de um senhor devasso e cruel.
O romance A Escrava Isaura foi um grande sucesso editorial e permitiu que Bernardo Guimarães se tornasse um dos mais populares romancistas de sua época no Brasil. O autor pretende, nesta obra, fazer um libelo anti-escravagista e libertário e, talvez, por isso, o romance exceda em idealização romântica, a fim de conquistar a imaginação popular perante as situações intoleráveis do cativeiro. O estudioso Manuel Cavalcanti Proença observa que:
“Numa literatura não muito abundante em manifestação abolicionistas, é obra de muita importância, pelo modo sentimental como focalizou o problema, atingindo principalmente o público feminino, que encontrava na literatura de ficção derivativo e caminho de fuga, numa sociedade em que a mulher só saía à rua acompanhada e em dias pré-estabelecidos; o mais do tempo ficava retida em casa, sem trabalho obrigatório, bordando, cosendo e ouvindo e falando mexericos, isto é, enredos e intrigas, como se dizia no tempo e ainda se diz neste romance.”

O NASCIMENTO DO ROMANCE

A publicação de romances em folhetins – os capítulos aparecendo a cada dia nos jornais – já era comum no Brasil desde a década de 1830. A maior parte destes folhetins era composta por traduções de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter Scott, ou francesa, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Emocionados, os brasileiros acompanhavam as distantes aventuras de um Ivanhoé ou de um D’Artagnan, transportando-se, em espírito, para os campos e reinos da Europa.
Embora fizessem sucesso junto ao público, os primeiros romances brasileiros, publicados em folhetim, não deixavam de ser considerados, pelos literatos “sérios”, como “uma leitura agradável, diríamos quase um alimento de fácil digestão, proporcionado a estômagos fracos.” O romance, esse gênero literário novo e “fácil”, que foi introduzido na literatura brasileira por autores como Joaquim Manuel de Macedo e Teixeira e Sousa, ganharia status de literatura “séria” com a obra de José de Alencar.

Os primeiros romances brasileiros

Na década de 1840 começam a aparecer alguns folhetins de autores nacionais, ambientados no Brasil. Teixeira e Sousa (1812-1861), considerado por muitos o nosso primeiro romancista, estréia em 1843 com O Filho do Pescador. No ano seguinte, o jovem estudante de medicina, Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), surge com A Moreninha, o primeiro romance nacional “apreciável pela coerência e pela execução”. Em meio à corrente açucarada dos nossos primeiros folhetinistas surge, já em 1852/53, a obra excêntrica de um jornalista carioca de vinte e um anos chamado Manuel Antônio de Almeida (1831-1861). As suas Memórias de um Sargento de Milícias retratam de forma irônica a vida do Rio de Janeiro “no tempo do rei” Dom João VI e apresentam um contraponto cômico à seriedade por vezes excessiva e à inverossimilhança dos romances do Dr. Macedinho.

A descrição do cenário nacional

O público interessava-se, portanto, cada vez mais por um romance de aventuras românticas que apresentasse o cenário brasileiro. O grande sucesso de público de O Guarani (1857), de José de Alencar, em que as aventuras de Peri e sua amada Cecília se desenrolam em meio à exuberante natureza fluminense, estimula os escritores a se voltarem para a apresentação da ambientação tipicamente nacional em suas obras.
Na década de 70 essa tendência nacionalista haveria de se consolidar, com o surgimento das obras de Franklin Távora (1842-1888), autor de O Cabeleira (1876) e o Visconde de Taunay (1843-1899), autor de Inocência (1872). É nesse cenário literário que aparece, em 1875, um dos maiores sucessos de público do período: A Escrava Isaura, que explora uma das questões mais polêmicas da sociedade brasileira da época, a escravidão.

O ENREDO

A história se passa nos “primeiros anos do reinado de D. Pedro II”, inicialmente em uma fazenda em Campos dos Goitacazes (RJ). Isaura, escrava branca e bem-educada, é assediada pelo seu senhor, Leôncio, recém-casado com Malvina. Isaura se recusa a ceder aos apelos de Leôncio, como já fizera, no passado, sua mãe, que, por ter repelido o pai de Leôncio, fora submetida a um tratamento tão cruel que, em pouco tempo, morrera.
Para forçá-la a ceder, Leôncio manda Isaura para a senzala, trabalhar com as outras escravas. Sempre resignada, suporta passivamente o seu destino, porém, não cede a Leôncio, afirmando que ele, como proprietário, era senhor de seu corpo, mas não de seu coração: “ – Não, por certo, meu senhor; o coração é livre; ninguém pode escravizá-lo, nem o próprio dono.” Leôncio, enfurecido, ameaça colocá-la no tronco.
No entanto, seu pai, ex-feitor da fazendo, consegue tirá-la de lá e foge com ela para Recife (PE). Em Recife, Isaura usa o nome de Elvira e vive reclusa numa pequena casa com seu pai. Então, conhece Álvaro, por quem se apaixona e é correspondida. Vai a um baile com ele, onde é desmascarada e reconhecida. Álvaro, ainda que surpreso, não se importa com o fato de ela ser uma escrava e resolve impedir que Leôncio a leve de volta, inclusive tentando comprá-la. Mas não consegue convencer o vilão, e este leva Isaura de volta ao cativeiro na fazenda.
Leôncio está praticamente falido e, com o objetivo de conseguir um empréstimo do pai de Malvina, consegue se reconciliar com a mulher, afirmando que Isaura é quem o assediava. Então, para punir Isaura, Leôncio manda que ela se case com Belchior, jardineiro da fazenda. Entretanto, Álvaro descobre a falência de Leôncio e compra a dívida dos seus credores, tornando-se proprietário de todos os seus bens, inclusive de seus escravos. No dia do casamento de Isaura, antes que se celebrasse a cerimônia, Álvaro aparece e reclama seus direitos a Leôncio. Vendo-se derrotado e na miséria, Leôncio suicida-se. Tudo termina, portanto, com a punição dos culpados e o triunfo dos justos.
Como bem o sintetizou Carlos Alberto Vecchi:

“A estrutura narrativa de A Escrava Isaura segue o modelo folhetinesco das histórias românticas: para atingir seu ideal e obter o reconhecimento de todos, o herói tem que realizar uma jornada perigosa, onde a própria vida é colocada em risco. O Amor, epicentro onde se debatem o Bem e o Mal, torna-se a força motriz que conduz ao restabelecimento do equilíbrio e da felicidade a todos que, em momento algum, se deixaram intimidar pelos desmandos de Leôncio. O Mal extirpado (o suicídio de Leôncio) cede lugar ao Bem. E aqueles que nortearam suas ações pelas virtudes maiores é que estão aptos a receber o prêmio daí decorrente.”

OS PERSONAGENS

A obra apresenta a tríade comum aos romances populares românticos: vilão, heroína e herói. E, graças à ausência de profundidade com que são construídos, os personagens do romance são planos, estáticos e superficiais.
Isaura, a heroína escrava, é branca, pura, virginal, possui um caráter nobre e demonstra “conhecer o seu lugar”: do princípio ao fim, suporta conformada a perseguição de Leôncio, as propostas de Henrique, as desconfianças de Malvina, sem jamais se revoltar. Permanece emocionalmente escrava, mesmo tendo sido educada como uma dama da sociedade. Tem escrúpulos de passar por branca livre, acha-se indigna do amor de Álvaro e termina como a própria imagem da “virtude recompensada”.
Vejamos como Guimarães descreve sua heroína:

“A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. (…) Na fronte calma e lisa como o mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração.”

Leôncio é o vilão leviano, devasso e insensível que, de “criança incorrigível e insubordinada” e adolescente que sangra a carteira do pai com suas aventuras, acaba por tornar-se um homem cruel e inescrupuloso, casando-se com Malvina, linda, ingênua e rica, por ser “um meio mais suave e natural de adquirir fortuna”. Persegue Isaura e se recusa a cumprir a vontade de sua mãe, já falecida, que queria dar a ela a liberdade e alguma renda para viver com dignidade.
Álvaro é um rico herdeiro, cavalheiro nobre e de caráter impecável, que “tinha ódio a todos os privilégios e distinções sociais, e é escusado dizer que era liberal, republicano e quase socialista”; um jovem de idéias igualitárias, idealista e corajoso para lutar contra os valores da sociedade a que pertence. Sua conduta moral é assim descrita pelo autor:

“Original e excêntrico como um rico lorde inglês, professava em seus costumes a pureza e severidade de um quacker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração impressionaável, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegância, e sobretudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, próprios das almas elevadas e dos corações bem formados.”

Apaixonado por Isaura, o grande obstáculo que Álvaro precisa vencer é o fato de ser Isaura propriedade legítima de Leôncio. Para isso, vai à corte, descobre a falência de Leôncio, adquire seus bens e desmascara o vilão. Liberta Isaura e casa-se com ela, desafiando, assim, os preconceitos da sociedade escravocrata.
Nos demais personagens o processo de construção é o mesmo. Miguel, pai de Isaura, foge do conceito tradicional do mau feitor. Quando feitor da fazenda de Leôncio, tratara bem aos escravos e amparara Juliana, mãe de Isaura, nas suas desditas com o pai de Leôncio. Pai extremoso, deseja libertar a filha do jugo da escravidão e não mede esforços para isso.
Martinho é o protótipo do ganancioso: cabeça grande, cara larga, feições grosseiras e “no fundo de seus olhos pardos e pequeninos,… reluz constantemente um raio de velhacaria”. Por querer ganhar muito dinheiro entregando Isaura ao seu senhor, acaba por não ganhar nada. Já Belchior é o símbolo da estupidez submissa e também sua descrição física se presta a demonstrar sua conduta: feio, cabeludo, atarracado e corcunda. O crítico Manuel Cavalcanti Proença aponta “o parentesco entre o disforme e grotesco (de gruta) Belchior, e o Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame, de Víctor Hugo, romance de extraordinária voga, ainda não de todo perdida, no Brasil.”
O dr. Geraldo é um advogado conceituado, que serve como fiel da balança para Álvaro, já que procura equilibrar os arroubos do amigo, mostrando-lhe a realidade dos fatos. Quando Álvaro, revoltado com a condição de Isaura e indignado com os horrores da escravidão, dispõe-se a unir-se a ela, mesmo sabendo que escandalizaria a sociedade, Geraldo retruca lucidamente que a fortuna de Álvaro lhe dá independência para “satisfazer os teus sonhos filantrópicos e os caprichos de
tua imaginação romanesca”. O que não é, na verdade, característica restrita apenas à sociedade escravocrata do século XIX.

Concessão ao preconceito?

Este romance já foi considerado, com bastante exagero, uma espécie de A Cabana do Pai Tomás (1851) nacional. Porém, Bernardo Guimarães, ao contrário da romancista americana Harriet Beecher Stowe, detém-se muito pouco na descrição dos sofrimentos provocados pelo regime escravocrata. Ele coloca, na boca de alguns personagens, como Álvaro e seus amigos, estudantes no Recife, algumas frases abolicionistas, mas parece tomar bastante cuidado em não provocar a fúria dos seus leitores conservadores. Está mais preocupado em contar as perseguições do senhor cruel à escrava virtuosa e, assim, conquistar a simpatia do leitor.
Bernardo Guimarães faz questão de ressaltar exaustivamente a beleza branca e pura de Isaura, que não denunciava a sua condição de escrava porque não portava nenhum traço africano, era educada e nada havia nela que “denunciasse a abjeção do escravo”. O que parece uma escolha preconceituosa e contraditória – contar as agruras da escravidão criando uma escrava branca – talvez seja melhor compreeendido se se levar em conta que a maior parte do público que consumia romances na época era composto por mulheres da sociedade, que apreciavam as histórias de amor.
Somem-se a isso o modelo de beleza feminino de então, caracterizado pela pele nívea e maçãs rosadas do rosto e, principalmente, o objetivo do autor de conquistar a solidariedade do leitor pela escrava, mostrando a que ponto extremo poderia chegar o regime escravocrata: “fisicamente, Isaura não é diferente das damas da sociedade, mas, por ser escrava, é obrigada a viver como os de sua classe, como objeto útil nas mãos de seu senhor”, conforme afirma a crítica Maria Nazareth Soares Fonseca.
O autor claramente conseguiu o que queria. A sociedade brasileira do século XIX, que tanto se apiedou das desventuras de Isaura, aceitou-a porque ela era branca e educada. O autor pôde, assim, demonstrar, através do seu sofrimento, o quanto “é vã e ridícula toda a distinção que provém do nascimento e da riqueza”. E é claro, a cor de Isaura serve, como afirma o crítico Antônio Cândido, “para facilitar a ação de Álvaro, compreensivelmente apaixonado e decidido a desposá-la, como fez.”
Se houve influência, portanto, do romance A cabana do Pai Tomás, talvez tenha sido apenas no que o crítico Alfredo Bosi aponta como referência: a cena da fuga de Campos para Recife, “talvez sugerida pela fuga de Elisa através dos gelos flutuantes de Ohio para a liberdade no Norte e por fim no Canadá”. Entretanto, o fato é que, como aponta o crítico, só depois do lançamento de A cabana do Pai Tomás “a literatura brasileira começou a ser povoada de feitores cruéis e de escravos virtuosos”.

A LINGUAGEM

O tratamento exageradamente romântico que o autor aplica neste livro faz com que ele tenha um caráter mais de lenda do que de realidade, ao contrário de seus outros romances, como O Ermitão de Muquém (1864), O Seminarista (1872) e O Garimpeiro (1872), em que a descrição regionalista do ambiente físico e social proporciona mais verossimilhança à trama.
Em A Escrava Isaura, o excesso de imaginação se traduz em “idealização descabida”, como afirma Antonio Candido, que se concretiza no plano da linguagem em descrições repetitivas e mecânicas dos personagens, com abuso de adjetivos redundantes.
Observe-se a descrição de Isaura quando senta-se ao piano no salão de baile no Recife:

“A fisionomia, cuja expressão habitual era toda modéstia, ingenuidade e candura, animou-se de luz insólita; o busto admiravelmente cinzelado ergueu-se altaneiro e majestoso; os olhos extáticos alçavam-se cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavam como as ondas de um lago em tranqüila noite de luar, começaram de ofegar, túrgidos e agitados, como oceano encapelado; seu colo distendeu-se alvo e esbelto como o do cisne, que se apresta a desprender os divinais gorgeios. Era o sopro da inspiração artística, que, roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotisa do belo, em intérprete inspirada das harmonias do céu.”

O AMOR E A DONZELA INEXPUGNÁVEL

“Os motivos que compõem romance”, segundo Cavalcanti Proença, “são filiados nos velhos e perenes topos” – ou temas – “da literatura popular. O amor à primeira vista é um deles. Ver e amar é um verbo só. E isso porque a narrativa não é a história de um amor, mas dos sofrimentos do amor. (…) Para isso se entretecem os conflitos de escrava que não tem direito de amar, os do homem casado que não deve trair a esposa. (Amor verdadeiro só o primeiro.)”
Entre esses temas, há um que remonta à literatura medieval e que domina a narrativa como um todo, a partir da descrição de Isaura como pura e virtuosa, lutando contra a luxúria do seu senhor. É o da donzela inexpugnável, que defende sua pureza com todas as forças de que dispõe, preferindo arriscar-se à morte na fuga a se entregar sexualmente.
Entre os precursores da literatura folhetinesca está o romancista e tipógrafo inglês Samuel Richardson (1689-1761). A sua novela Pamela, ou a Virtude Recompensada, publicada em 1741, certamente é uma das fontes de inspiração mais contundentes para a composição do romance de Bernardo Guimarães. Nessa obra, Richardson narra as desventuras de Pamela Andrews, filha de camponeses que é educada por uma senhora nobre que, ao morrer, a entrega aos cuidados de seu filho, o Conde de Belfart. Esse jovem inescrupuloso atenta contra a virtude de Pamela, assediando-lhe com ameaças vis e acaba por entregar-lhe a uma vulgar alcoviteira. Mas Pamela, como Isaura, consegue defender-se, mantendo intacta a sua honra. Acaba por comover com suas lágrimas abundantes o Conde de Belfart que, arrependido, termina se casando com a heroína.
Bernardo Guimarães acrescenta à trama romanesca inventada por Richardson a figura do cavalheiro salvador Álvaro e a temática bem brasileira da escravidão.
Também Castro Alves, o maior dos nossos escritores abolicionistas, refere-se à defesa da virtude das escravas, em poemas como Súplica, do livro Os Escravos (1883):

“Que a donzela não manche em leito impuro A grinalda do amor. Que a honra não se compre ao carniceiro Que se chama senhor.”



por Frederico Barbosa e Sylmara Beletti

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Pequena África, joia do Rio, pode ter proteção da lei

Texto, que aguarda análise do prefeito, prevê a demarcação da região e ações como a criação de um memorial
Renan Rodrigues
26/05/2019 




A História Pouco Conhecida da Pequena África na Zona Portuária do Rio de Janeiro



A Pequena África é o lar histórico da comunidade afro-brasileira na Região Portuária do Rio de Janeiro. A região ficou conhecida como Pequena África depois que o comércio de escravos se tornou ilegal no Brasil em 1831 (ainda que a abolição da escravatura só viesse a acontecer 50 anos depois). Entre 1850 e 1920, escravos libertos permaneceram trabalhando na região. Negros e africanos libertos da Bahia ou do interior viajaram para a Pequena África a procura de trabalho e de um senso de comunidade. A Pequena África frequentemente acolheu negros de todo o país, onde se ergueram casas, locais de convívio cotidiano e centros religiosos.

domingo, 2 de junho de 2019

Você sabia disso ? - As fazendas de Sexo no período da escravidão negra no Brasil

Para compreender o escravismo no Brasil e suas consequências nefastas na  vida do povo preto.



1 - A fertilidade das mulheres escravizadas era examinada pelos senhores de escravos para se certificarem de que elas eram capazes de procriar e ter tantas crianças quanto possível. Secretamente, proprietários de escravos estupravam as mulheres escravizadas e quando a criança nascida crescia e alcançava uma determinada idade onde já pudesse trabalhar nos campos, eles tomavam seus próprios filhos e transformavam em escravos.

sábado, 20 de abril de 2019

Você sabia disso ? - Por que 19 de abril é dia do índio ?


Entenda de onde veio a data, comemorada nesta sexta-feira

LETÍCIA YAZBEK PUBLICADO EM 19/04/2019, 



Em abril de 1940, os principais líderes indígenas do continente americano se reuniram para o 1º Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México. O objetivo era discutir ações que zelassem pelos direitos dos índios. Porém, muitos líderes boicotaram os primeiros dias do evento, acreditando que não teria qualquer efeito. Depois de algumas reuniões, eles decidiram que o Congresso representava um importante momento histórico, e resolveram participar.

O Congresso aprovou uma recomendação de delegados indígenas do Panamá, Chile, Estados Unidos e México, que pedia a adoção do Dia do Índio pelos governos de todos os países americanos. O dia proposto foi 19 de abril, data em que foi realizado a reunião.

O Brasil não adotou a data comemorativa imediatamente. Somente em 1943 instituiu o Dia do Índio em 19 de abril, cumprindo a proposta do Congresso. A data foi ratificada em 2 de junho de 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas, por meio do decreto-lei 5.540, e passou a ser comemorada no ano seguinte.

Desde então, nosso país celebra a data com atividades educacionais e divulgação sobre o povo indígena. Escolas e instituições culturais promovem ações e palestras para lembrar a importância desses povos para a formação da cultura brasileira e preservar as tradições e a identidade dos índios.

Mas a data não colou pelo mundo. Somente Argentina e Costa Rica adotaram. Em 1994, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) instituiu o Dia Internacional dos Povos Indígenas, comemorado em 9 de agosto.

In Aventuras na História 

Você sabia disso ? - Moreno - a palavra nasceu como uma grave ofensa


No século 16, ser chamado assim era ser classificado como classe inferior inimiga da fé, com sangue “poluído” e alvo da Inquisição

FÁBIO MARTON PUBLICADO EM 04/05/2018

sábado, 23 de março de 2019

A História que a História não conta - Dirley Fernandes

O samba da campeã Mangueira cita fatos, pessoas e modos de ver a trajetória do Brasil que são diferentes da visão consagrada pela historiografia clássica. O DIA traça um mapa para  compreensão desse país construído por "heróis de barracões".


História para ninar gente grande

Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Rone Oliveira e Danilo Firmino





Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis (1), jamelões (2)
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento (3) 
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres (4), tamoios (5), mulatos (6) 
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara (7)
E a tua cara é de cariri (8)
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati (9)

Salve os caboclos de julho (10) 
Quem foi de aço nos anos de chumbo (11) 
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias (12), Mahins (13), Marielles, malês

(1) - Leci Brandão é cantora e compositora com 50 anos de carreira. Foi a primeira mulher a integrar a gloriosa Ala dos Compositores da Mangueira. Sua carreira é marcada por canções de forte cunho social, retratando a realidade das comunidades e a condição do negro, o que a levou a ter problemas com gravadoras que dificultaram, mas não impediram a sua trajetória. O samba dela mais conhecido das novas gerações é "Zé do Caroço" , de 1981, que fala da reorganização das associações de moradores, nos finais do regime militar. 

(2) Jamelão foi cantor de orquestras, com carreira iniciada nos anos 1930, conhecido pela voz tão bela quanto poderosa. Mas entrou para a história da Mangueira e do samba como o maior dos intérpretes da avenida. Começou a cantar nos desfiles de 1949 e foi até 2016. É autor de sambas como "Cântico à Natureza" ( de 1955, em parceria com Nelson Sargento e Alfredo Português), talvez o mais belo da Verde e Rosa. José Bispo dos Santos, conhecido por seu proverbial mau humor, faleceu em 2008, coberto de glórias e como presidente de honra da escola. O surdo sem contratempo da Mangueira acompanhou o seu funeral. 

(3) A noção de que o Brasil foi 'descoberto' em 1500 é uma forma de contar a História a partir do ponto de vista europeu. Na verdade, quando a frota de Cabral chegou ao litoral, com a missão de tomar posse da terra em nome do Rei e da Igreja, havia mais de 3 milhões de índios de etnias e organizações diversas, que poderia ser chamadas de nações, no território. Os portugueses invadiram e ocuparam o país, negociaram com algumas das nações e fizeram guerras com outras, como contou o padre Anchieta louvando os feitios do general Mem de Sá. "Quem poderá contar os gestos heroicos do Chefe à frente dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta as aldeias incendiadas, mil casas arruinadas pela chama devoradora."

(4) Entre as várias mulheres cuja história é pouco conhecida e não está em grande parte dos livros didáticos, o carnavalesco Leandro Vieira lembrou duas em particular:
Tereza de Benguela e
Esperança Garcia. A primeira liderou o Quilombo do Quariterê, o maior do Mato Grosso, entre 1750 e 1770 e se destacou pela habilidade política . O dia 25 de julho foi estabelecido como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Benguela é um  porto angolano de onde partiram muitos escravos para o Brasil. A segunda é uma mulher escravizada que vivia no Piauí e, em 1770, escreveu uma carta ao governador denunciando os maus tratos dos senhores de engenho aos cativos. A madrinha da bateria Evelyn Bastos encarnou, majestosamente, aquela que foi consagrada, mais tarde, como a primeira advogada do Piauí. 


(5) O termo, que significa ' o mais velho', designa os tupinambás, índios que ocupavam vastas áreas do litoral brasileiro ao tempo do descobrimento. Uma das alas do desfile da Mangueira homenageava Cunhambebe, o mais famoso de seus guerreiros. Aliados dos franceses, ele era o chefe de uma aldeia onde hoje é Angra dos Reis e reuniu dezenas de tribos na chamada ' Confederação dos Tamoios', que deu combate feroz à invasão da terra pelos portugueses, tendo devorado muitos inimigos. O embate terminou com a vitória lusitana, quando o grande chefe já tinha morrido, vitimado pela varíola. Em seguida, deu - se a ocupação da Guanabara, com a morte de todos os tamoios que por aqui viviam - com exceção de poucos escravizados. Na batalha decisiva, a de Uruçumirim, na atual Glória, mais de 600 índios, inclusive o chefe Aimberê, pereceram. 

(6) - São muitos os mulatos que fizeram história no Brasil. A Mangueira destacou em uma ala um dos mais ilustres e esquecidos: o poeta e advogado abolicionista Luiz Gama 


(1823 - 1882). Apesar de se dizer filho de uma liberta ( a mítica Luiza Mahin ) , ele foi vendido pelo pai português e cresceu como 'escravo da casa', em São Paulo. Mais tarde, conseguiu ser libertado na Justiça - caminho seguido por muitos negros no século XIX. Virou escrevente e estudou até tornar - se rábula ( advogado sem diploma ). Especializou - se em defender escravos, tendo conseguido a libertação de centenas. Como poeta, foi pioneiro em assumir a negritude. E defendeu o fim do cativeiro até a morte.

(7) - A história da mulher de Zumbi é envolta em lendas e fatos difíceis de comprovar. Mas ela é símbolo da resistência das mulheres negras. Do que se sabe como verdade histórica, Dandara foi criada no Quilombo dos Palmares, atual estado de Alagoas, e se tornou mulher do grande chefe militar as comunidades agrupadas na serra da Barriga e por um século resistiram à escravização. Ao lado de Zumbi, e muitas vezes no comando de tropas com homens e mulheres, participou de embates até 1694, quando Palmares foi dizimada pelo bandeirante Domingos Jorge Velho e seus homens. Teria se suicidado logo após a derrota, para escapar da morte pela mão inimiga ou do cativeiro. 

(8) -  Chico da Matilde era um barqueiro que ganhou o epíteto de 'Dragão do Mar' por ter, na condição de prático, se recusado a guiar diante do porto de Fortaleza navios que levavam escravos na direção do sul do país. A greve liderada por Francisco José do Nascimento paralisou o mercado escravista e fortaleceu o movimento abolicionista, o que levou o Ceará a ser  a primeira província brasileira a abolir a escravidão, em 18884. 

(9) - Os indígenas da nação Kariri resistiram por 30 anos à ocupação de suas terras e à captura para fim de escravização, no Nordeste, entre 1683 a 1713. A série de revoltas ficou conhecida como a Confederação dos Cariris e só foi sufocada com o assassinato em massa dos indígenas. 

(10) - O Caboclo, figura mítica que tem estátua em Campo Grande, em Salvador, representa os índios, sertanejos e negros que lutaram nas batalhas pela independência do Brasil que ocorreram na Bahia após a declaração de 1822 e que culminaram com a vitória sobre os portugueses, em 2 de julho de 1823. Os caboclos são celebrados na Bahia durante os grandes festejos da data cívica. A cabocla, representando Catarina Paraguaçu, foi inserida nos festejos nos anos de 1840, depois de seu par. 

(11) - Referência aos anos do regime militar, entre 1964 , durante o qual houve "crimes contra a humanidade" e "graves violações dos Direitos Humanos", segundo relatório da Comissão da Verdade, com 434 mortes e desaparecimentos de opositores, entre os quais Stuart Angel, morto sob tortura, e irmão da jornalista Hildegard Angel, que foi destaque de um dos carros da Mangueira , e filho da famosa estilista Zuzu Angel. 

(12) - Maria Felipa é heroína popular da Independência. Moradora de Iparica, na Bahia, marisqueira, negra, comandou um grupo de 40 mulheres que destruiu 42  barcos da esquadra portuguesa, em ação determinante para a vitória brasileira. Figura mítica cuja existência histórica é pouco provável.

(13) Luíza Mahin foi participante, com posto de liderança, na Revolta dos Malês, em 1835, em Salvador. Era, segundo os relatos, egressa da Costa da Mina ( mahin é uma das tribos locais ) e tinha a profissão de quituteira. Participou das revoltas que aconteciam quase em ritmo anual , em Salvador, até 1935. A cidade tinha quase 80% da população formada por negros e mestiços. 

(14) - Vereadora, Marielle Franco era conhecida pela desfesa dos Direitos Humanos, das mulheres e das comunidades faveladas. Foi assassinada há um ano. Não se sabe ainda quem mandou matá - la.