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domingo, 6 de setembro de 2020

Entrevista - José Vicente - "Há uma verdadeira limpeza étnica contra os negros"

 O professor e empresário José Vicente, 61 anos, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, atua de maneira destacada na valorização da educação inclusiva e equânime da população historicamente abandonada. Esse é o tema de sua vida: a condição dos negros brasileiros e tudo que permeia essa questão. “Em todos os espaços de poder, as pessoas negras são minoria, seja dentro do ambiente empresarial, seja nos três Poderes da República, seja em qualquer instituição pública ou privada”, disse José Vicente, em entrevista à ISTOÉ. A estrutura de comando universitário segue essa regra. José Vicente está entre os poucos reitores negros do Brasil e o único de uma instituição privada. Ex-bóia-fria, ex-policial e educador por excelência, ele discorre linearmente sobre o Brasil e os EUA explicando quais são as razões que levaram a ações de barbárie, quase diárias, que o mundo inteiro viu pela imprensa. Para o professor, a selvageria que vitimou George Floyd, em Minneapolis, e a violência que atingiu o menino João Pedro, no Rio de Janeiro, pertencem à mesma matriz ideológica. Ao falar sobre políticas, especificamente a respeito do governo Bolsonaro, ele é contundente. “O governo já tornou público que não tem nenhuma disposição para resolver a questão da discriminação e do racismo. Pelo contrário, tem reservas”, afirma. “Com Bolsonaro não é permitido o livre pensamento. Esse é o governo da negação”.

domingo, 26 de julho de 2020

Resenha / Entrevista - O Cronista do Brasil ( ou coisa parecida )


Reunir as melhores crônicas de Luis Fernando Verissimo publicadas no último ano já seria uma tarefa difícil. Fazer uma seleção entre os textos publicados ao longo dos seus 50 anos de carreira parecia, então, quase impossível. Mas aconteceu: “Verissimo Antológico – Meio século de crônicas (ou coisa parecida)”, coletânea com mais de 300 textos, chega ao mercado em formato e-book

Pensei em escrever esse texto sobre Luis Fernando Verissimo em formato de crônica. Descartei a ideia imediatamente. Por diversas razões, mas principalmente porque a imagem de Verissimo jogando a revista na lareira de sua casa me atormentaria até o final dos meus dias. Ou pior: talvez a própria lareira rejeitasse o escrito. Afinal, não é uma chaminé qualquer que aconchega a residência de Petrópolis, arborizado bairro de Porto Alegre, onde o autor mora desde a infância e há 57 anos divide a casa com a mulher, Lúcia. Aquela é a lareira ao lado da qual seu pai, Érico Verissimo, escreveu seus clássicos. Para se ter uma ideia, no relógio da escrivaninha e pela janela, ele acompanhava, respectivamente, o tempo e o vento. É de se supor que o fogo, ali, esteja acostumado a ser alimentado com palavras mais saborosas.

O livro “Verissimo Antológico — Meio século de crônicas (ou coisa parecida)” reúne mais de 300 textos publicados em jornais e revistas de todo o País. A carreira como cronista começou precisamente em 19 de abril de 1969, quando o autor estreou em uma coluna no “Zero Hora”, o mais gaúcho dos jornais de Porto Alegre. A referência nominal à cidade faz sentido porque só assim podemos compreender por que Verissimo escreve como ninguém. Como ninguém, não: como um único alguém. Ele mesmo. Os gaúchos são brasileiros elevados à enésima potência. São mais difíceis de agradar, no bom sentido. Um governador nunca se reelegeu no Rio Grande do Sul. As condições e contradições do País são, para eles, um verdadeiro banquete onde podem degustar suas opiniões e regurgitar suas críticas. Verissimo é um gaúcho da gema, se é que existe isso. Em seu pequeno refúgio no Sul, longe das árvores da Amazônia, do sertão nordestino ou dos arranha-céus da Avenida Paulista, ele é o mais brasileiro dos cronistas. Ou o mais cronista entre os brasileiros. Não precisa sair por aí para decifrar ou devorar o zeitgeist do País: o Brasil entra por suas janelas e vai parar em suas palavras, tornando-se seu.

Ao longo de 50 anos, as crônicas de Verissimo passeiam pela nossa história como um registro bem humorado de tempos leves e pesados. Durante o regime militar, era obrigado a caprichar nas sutilezas para que os censores não as captassem; no processo de redemocratização, narrou a esperança pela qual estamos esperando até agora. Do início da revolução digital à polarização dos dias de hoje, Verissimo tem sempre algo inteligente a dizer. Essa capacidade de síntese é um de seus 534 maiores talentos. Às vezes seus textos são engraçados, mas é porque o brasileiro é um povo divertido mesmo. Em outras, o humor pelo menos ajuda a varrer nossos problemas para baixo do sorriso. Apesar das crônicas nesse e-book serem separadas por décadas, o leitor pode abrir em qualquer página virtual e dar de cara com o mesmo País. Os problemas podem até ser outros, mas Verissimo encontrou uma forma única de transformar cinco décadas da história de um povo em uma coleção de crônicas – ou coisa parecida.

ENTREVISTA
Luis Fernando Verissimo, escritor

“Uma boa crônica é lida e entendida em qualquer contexto”

Istoé – Nesses 50 anos de carreira, o senhor já escreveu milhares, talvez milhões de crônicas. Como foi possível escolher entre elas? O que torna uma crônica melhor que as outras?
Luis Fernando Verissimo – O critério da escolha deve ser a atualidade da crônica, mas isso nem sempre vale.
Às vezes a qualidade do texto independe da sua atualidade. Mas, em geral, uma boa crônica é lida e entendida em qualquer contexto. Você lê hoje as crônicas do Rubem Braga ou do Antonio Maria escritas há 50 anos
com o mesmo prazer de antes, por exemplo.

Antes de a música existir, ela é apenas silêncio. Antes de a crônica existir, é apenas um papel em branco. Qual é a diferença entre tocar e escrever? Para o senhor, que também é músico, o que seria o equivalente, na escrita, ao improviso no jazz?
Tentativas de escrever com o mesmo abandono com que se toca jazz não deram certo até agora, na minha debatível opinião. Estou pensando na literatura do Jack Kerouac e outros da sua geração. Um improviso de jazz permite uma liberdade que um texto que tenta simulá-lo, e ao mesmo tempo ser coerente e pensado como deve ser um texto literário, não consegue.

Qual é o assunto que sempre rende crônica? Há algum assunto sobre o qual é impossível dedicar
uma crônica?
Numa crônica cabe tudo. Qualquer assunto é assunto. O que se pode ou não se pode escrever é outra história. Depende do regime vigente. O regime vigente exerce grande influência sobre cronistas.

O Brasil de hoje rende uma crônica engraçada, triste ou absurda?
Triste, a caminho de absurda.

Se o senhor pudesse escolher apenas uma crônica, qual seria ela?
Essa eu vou passar. As crônicas são, mais ou menos, filhas da gente. Você pode ter uma filha favorita, mas não pode dizer qual é.

Há muita gente que acredita em ‘fake news’ – às vezes nem é por má fé, mas porque elas fingem ser as verdades que essas pessoas querem acreditar. Como se proteger das ‘fake news’? Como separar as ‘fake news’ das ‘news’?
Não há o que fazer contra “fake news” ou textos apócrifos. Só confiar que pessoas com um mínimo de informação ou discernimento saberão identificar o “news” real. No caso de crônicas com assinatura falsa, muitas vezes você se surpreende com a qualidade de um texto cujo autor não quis se identificar, ou preferiu atribuí-la a outro. Talvez por modéstia exagerada. Está tão difícil fazer algo que preste que nenhum elogio deve ser desperdiçado.

ara um escritor conhecido pelo bom humor, como competir com as notícias que se lê nos jornais?
Quem quer fazer humor profissional hoje em dia tem que competir com uma realidade cada vez menos engraçada e, principalmente, com os humoristas amadores, que tomaram o poder.

Com a pandemia, o esporte parou totalmente. Como o senhor tem sobrevivido sem futebol?
Não tem sido fácil. Nosso consolo é que, graças ao coronavírus, nenhum time está ganhando mais do que o Internacional, atualmente.

O senhor vê grandes cronistas brasileiros atualmente? Alguém que chame a sua atenção?
O melhor que apareceu nos últimos anos é o Antonio Prata. Também gosto muito do Gregório Duvivier, do Marcelo Adnet, do Fernando Caruso e da turma do Porta dos Fundos.

Saindo das crônicas e indo para a política: imagino que a escolha seja difícil, mas qual é o pior ministro do governo federal? E por quê?
Escolha difícil. Me dá mais um tempinho?

O senhor vê alguma liderança jovem e inspiradora na política? Como avalia até agora o trabalho
do governador Eduardo Leite?
O Eduardo Leite está indo bem, dentro dos limites do possível. Os limites do possível é que não estão ajudando ninguém.

Já que não entraram no livro, é bom perguntar: o que a Velhinha de Taubaté, o Ed Mort e o Analista de Bagé achariam do Brasil de hoje?
Todos estão fazendo a mesma pergunta: como é que se chega na Nova Zelândia?

“Não há o que fazer contra ‘fake news’ ou texto apócrifo. Só confiar que pessoas com um mínimo de informação ou discernimento saberão identificar o ‘news’ real”

Revista IstoÉ 


sexta-feira, 3 de julho de 2020

Entrevista - José Vicente - reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares

O professor e empresário José Vicente, 61 anos, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, atua de maneira destacada na valorização da educação inclusiva e equânime da população historicamente abandonada. Esse é o tema de sua vida: a condição dos negros brasileiros e tudo que permeia essa questão. “Em todos os espaços de poder, as pessoas negras são minoria, seja dentro do ambiente empresarial, seja nos três Poderes da República, seja em qualquer instituição pública ou privada”, disse José Vicente, em entrevista à ISTOÉ. A estrutura de comando universitário segue essa regra. José Vicente está entre os poucos reitores negros do Brasil e o único de uma instituição privada. Ex-bóia-fria, ex-policial e educador por excelência, ele discorre linearmente sobre o Brasil e os EUA explicando quais são as razões que levaram a ações de barbárie, quase diárias, que o mundo inteiro viu pela imprensa. Para o professor, a selvageria que vitimou George Floyd, em Minneapolis, e a violência que atingiu o menino João Pedro, no Rio de Janeiro, pertencem à mesma matriz ideológica. Ao falar sobre políticas, especificamente a respeito do governo Bolsonaro, ele é contundente. “O governo já tornou público que não tem nenhuma disposição para resolver a questão da discriminação e do racismo. Pelo contrário, tem reservas”, afirma. “Com Bolsonaro não é permitido o livre pensamento. Esse é o governo da negação”.

O informativo de desigualdade social por cor e raça, do IBGE, indica que entre 2012 e 2017, houve 255 mil mortes de pessoas negras por assassinato no Brasil. Os negros têm 2,7 mais chances de morrer assassinados do que pessoas brancas. Como o senhor vê essa situação?

Na Faculdade Zumbi dos Palmares temos o Observatório da População Negra que abrange vários temas e um deles é a violência contra essa população. Nós acompanhamos, debatemos e fazemos as mais diversas ações para tentar mudar esse estado de coisas que se apresentam como genocídio pré-ordenado à população negra. É uma verdadeira limpeza étnica, já que em nenhum local do mundo se matam tantos jovens negros dessa forma. Lembra um túnel do tempo. Isso sempre foi assim. Temos que ter um discurso que denuncie o racismo e a discriminação estrutural e institucional e motivar intervenções do Estado e da sociedade no sentido de terminar com essa matança. Ainda não conseguimos criar um caminho para produzir soluções.

Não sei quem é mais destrutivo: Bolsonaro ou o coronavírus. Tinha que se fazer no Brasil algo parecido com o Plano Marshall para vencermos essa crise sanitária 


No Brasil há letargia e falta mobilização contra o racismo? Por quê?

Porque todos nós fomos vitimados pela perversidade do nosso sistema político, que nega a existência do racismo e também nega que os números que refletem a violência e a desigualdade, pontuadas pelos indicadores sociais, sejam fruto do racismo e da discriminação. Há uma negação permanente.

Mas os números da discriminação saltam aos olhos.

Há cem anos que os indicadores são os mesmos e em nenhum momento, nem à esquerda, nem à direita, na Ditadura Militar, no milagre brasileiro, nem quando nós éramos um País atrasado, nem quando éramos a quinta economia do mundo, nós conseguimos mexer uma vírgula desses indicadores. Seja por essa desqualificação do racismo como realidade, como algo que separa e distingue pessoas, seja porque não se trata de uma prioridade da agenda política, econômica e social. Nós estamos há anos-luz do Apartheid sul-africano e do americano, mas nem assim as parcelas da sociedade, que exercem o poder, têm interesse, disposição ou determinação para intervir. Preferem o silêncio, a indiferença e a negação. Dizem, “o que acontece nos EUA é racismo, matar um negro com o joelho no pescoço, aqui no Brasil não é assim”. Atender essa demanda requer colocar a mão no bolso e tirar o dinheiro de alguém, e jamais a elite brasileira vai permitir que os recursos que atendem seus interesses, suas necessidades, saiam do seu bolso para resolver esse problema.

Então, o caminho é elegermos pessoas negras para o Executivo e o Legislativo? Isso vai permitir minorar o impacto do racismo?

Não resta dúvida. Veja qual foi à resposta da sociedade e como foi a resposta da elite dirigente para a não presença das mulheres no ambiente político. Eles criaram uma lei em que todo o partido político tivesse 30% de mulheres. Não houve questionamentos ou resistência, todos compreenderam. Há uma distorção que deslegitima e desconfigura a presença e a perspectiva democrática e, por conta disso, vamos construir uma política pública, mas ninguém até hoje teve disposição e coragem para dizer que existe uma distorção maior, que não existem negros no sistema político. É um sistema perverso. Nós temos um senador negro, dez deputados federais negros, um vereador negro em São Paulo e duas deputadas estaduais negras, num País em que 54% da população é negra. Se fossemos uma República verdadeiramente democrática, seguramente isso não seria assim.

Há outro caminho?

O Estado tem meios, mecanismos e obrigação de fazer, já que é para isso que ele existe: para diminuir as desigualdades e distorções. Por exemplo, as cotas raciais em universidades públicas são uma ferramenta que têm capacidade de transformação. Agora falta termos a gestão universitária com negros na administração, mais professores negros, como pesquisadores na pós-graduação e no ambiente de produção de tecnologia. Precisamos de 50% de cotas em toda estrutura. Fora disso, temos desigualdade.

A violência contra a população negra está espalhada por todo Brasil?

A nossa gênese é a da violência. Nós somos um país construído sob a escravização, o extermínio e o vilipendio do índio, o estupro da mulher indígena, a destruição da família indígena, depois toda a barbárie sobre o negro e a violência e a brutalidade que se estabeleceu a todos aqueles que não fizessem parte da elite no poder. E essa elite vem desde então construindo sua milícia oficial, que tem como metodologia o extermínio puro e simples. A violência é o recorte. É só ver Datena e Sikêra Júnior para se ter noção de como a violência está embrenhada na vida social. O Estado terceiriza a violência formal e informal. Veja os casos das milícias e da polícia na periferia, daquele menino, por exemplo, que foi abordado numa escada na favela pela polícia aqui em São Paulo.

É como antigamente, quando o jovem negro não podia sair de casa sem os documentos?

Ainda bem que alguém teve a coragem de filmar. Mas aquilo é rotina, trivial, faz parte da rotina do jovem de periferia, principalmente negro, em qualquer lugar do País. No Judiciário também há problemas. Nós temos 900 mil presos no Brasil, dos quais 50% não foram denunciados. Não tem Direitos Humanos, não tem Ministério Público, não tem política, não tem mídia, não tem padre, não tem um filho de Deus que consiga fazer a Justiça cumprir a lei. Porque uma pessoa só pode ser mantida presa por noventa dias, sem denúncia. E quem são esses presos? Se fosse o Sérgio (Machado) da Transpetro, ficaria com uma tornozeleira eletrônica em casa esperando a pena passar.

Gostaria que o senhor analisasse a situação nos EUA e o assassinato de George Floyd.

Havia um policial com o joelho em cima do pescoço do Floyd, com a mão no bolso, quase como quem vai pegar o celular para enviar uma mensagem. Mas havia mais três policiais que estavam ao lado dele, olhando aquela cena horripilante, acompanhando a morte que estava se materializando, e todos continuaram na mesma posição sem nenhum tipo de constrangimento, sem preocupação que ali no chão havia um ser humano. Só ficaram dessa forma porque, em sua compreensão, a pessoa negra não é um ser humano, mas sim um ser inferior. É esse sentimento de superioridade que embasa a polícia e grande parte dos americanos e suas instituições. Trata-se de uma justificativa para se agir dessa forma. Essa é a essência do racismo.

O racismo está acima dos ensinamentos na academia de polícia?

Sim. Está no chip do indivíduo. Desde que a pessoa vem ao mundo, que tem um passado e uma estrutura racista, é isso que ele aprende.

Mas no caso dos EUA houve o fortalecimento do movimento antirracista, o Black Lives Matter.
Essa é uma diferença significativa entre Brasil e EUA. O slogan Black Lives Matter é uma nova nomenclatura para algo que já existia com outros protagonistas como Martin Luther King, Rosa Parks, Angela Davis, Panteras Negras, Malcolm X, entre outros. A trajetória do negro americano foi de luta e embate nas ruas e em todos os espaços sociais, enfrentando Ku Klux Klan, com suas patrulhas incendiárias, que invadiam as casas das famílias negras e tocavam fogo. São movimentos que os participantes acreditam na justiça, com capacidade de repercussão mundial. O dado novo foi que dessa vez vimos que a força letal do Estado, a polícia, se colocou de joelhos para se solidarizar com o movimento e no limite com o próprio George Floyd. Nunca imaginei essa cena, a polícia se desculpar por sua selvageria. E também foi resolutiva no sentido de fazer com que os municípios e estados mexessem no protocolo e no orçamento da polícia para que ações do tipo não aconteçam novamente. Sem contar uma meia dúzia de estátuas que foram para o rio. Quisera que isso acontecesse no Brasil. Aqui, 50 policiais entram na favela metralhando tudo, mesmo com gente dentro das casas, e não acontece nada.

Qual é a sua analise a respeito do governo Bolsonaro, principalmente em relação ao Ministério da Educação?

Essa pasta foi cooptada pelo governo Bolsonaro para fazer um recorte ideológico. Fica o tempo todo criando factóides, que é uma das marcas da gestão. O primeiro a assumir o cargo, Ricardo Vélez, era um desconhecido que estava totalmente perdido. Weintraub, não tinha capacidade e envergadura técnica para gerir o Ministério. Transformou-o num palanque, no qual fez a construção de um inimigo, o marxismo cultural, algo imaginário. E agora, o presidente tirou da cartola um novo ministro que também não tem capacidade técnica. Aliás, nem assumiu, por ter um currículo questionável. Esse governo não está pautado para construir um novo projeto educacional para o Brasil. Ele preza pela destruição.



Abraham Weintraub não tinha capacidade e envergadura para gerir a educação. E, agora, o presidente tirou da cartola um novo ministro sem condições técnicas e que nem assumiu
Esse momento de pandemia acentua esse projeto do governo?

Não sei quem é mais destrutivo: Bolsonaro ou o coronavírus. Tinha que se fazer algo parecido com o Plano Marshall para vencermos essa crise.

Mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, não aprova. Ele já disse isso publicamente.

Sim, eu sei. Paulo Guedes é um representante do capitalismo rentista dessa gestão. Até por isso que o governo propôs R$ 200 de auxílio emergencial e foi preciso muita articulação política para chegar aos R$ 600.

Como a crise sanitária impactou o setor empresarial universitário? Como a Zumbi dos Palmares está lidando com esse momento?

A crise é forte. Estamos trabalhando remotamente, mas tivemos uma queda de 50% na demanda, deve demorar de dois a três anos para retomarmos o antigo patamar. Se tivéssemos uma gestão mais técnica no Ministério da Educação, conseguiríamos sair dessa crise melhor. Pois ninguém tem uma resposta pronta. A solução vai se dar ao longo do processo.

A educação é uma das formas de minorar o racismo. As empresas associadas à Faculdade Zumbi dos Palmares estão disponibilizando mais vagas de emprego aos candidatos negros oriundos da instituição?

O movimento cresceu e se fortaleceu. Atualmente são 60 empresas que de uma forma mais transparente têm demonstrado interesse nesse processo de valorização do negro. Muitas delas construíram políticas importantes, mas ainda muito aquém do necessário. Essas ações podem encorajar outras empresas a participar do nosso esforço, num espaço curto de tempo.

Qual a empresa que mais emprega candidatos da Zumbi dos Palamares?

Só da Faculdade Zumbi dos Palmares o Bradesco tem 500 trabalhadores negros efetivados. É a empresa mais avançada nesse tema, é a empresa que mais contratou negros na história. Mas eles têm 100 mil funcionários e os negros não representam nem 10% do total. O banco pode fazer mais.

No contexto das manifestações antirracistas, a Zumbi dos Palmares está lançando um manifesto. Do que se trata?

Trata-se do Movimento AR – Vidas negras Importam. É uma ação nacional de mobilização e colaboração gratuita e voluntária, com o propósito de promover mudança e transformação social, através de ações práticas, efetivas e objetivas de combate ao racismo, ao preconceito e à discriminação racial contra negros. Nosso objetivo é promover mudança e transformação nas atitudes pessoais, comunitárias e sociais para eliminação da discriminação racial contra os negros e todas demais pessoas no Brasil.

Zumbi dos Palmares se tornou um dos personagens mais criticados no governo Bolsonaro. Como o senhor vê a atitude de Sérgio Camargo, presidente da Fundação que leva o nome do líder negro?

O País transformou esse homem num herói nacional. Zumbi dos Palmares foi reconhecido e reverenciado pela sociedade brasileira, através dos seus representantes no Congresso, como um herói nacional. E mais: duas mil cidades e alguns estados reconheceram o valor da luta de Zumbi dos Palmares e declararam o dia de sua morte como feriado, além de nomear ruas, praças, avenidas e escolas em sua homenagem. Como pode um desqualificado desse dizer essas coisas? O governo Bolsonaro já tornou público que não tem nenhum tipo de disposição para resolver a questão da discriminação e do racismo. Pelo contrário, tem reservas. O presidente exige que todos que estão no governo operem na mesma sintonia. É um governo que não permite o pensamento. No caso da Fundação Palmares, quem conhece o pai do Sergio Camargo, o Oswaldo, um dos maiores escritores brasileiros, sempre defendendo a bandeira da negritude, isso não faz qualquer sentido. A Fundação Palmares foi criada para tratar do patrimônio cultural e artístico, além de fomentar políticas públicas para a inclusão dos negros brasileiros. A gestão atual revela um desvio de finalidade. Isso só poderia acontecer nesse governo da negação e do absurdo.

Qual foi o caso de racismo que mais lhe marcou?

A Faculdade Zumbi dos Palmares existe há quinze anos e todas as vezes que chego a bons hotéis para participar de seminários, debates, cerimônias, a pessoa fala: “Para aguardar a chefia você tem que estacionar o carro lá na frente”, mesmo o meu carro sendo novo e bonito. Aí tenho que dizer: “Eu não vim aguardar a chefia. Eu sou a chefia”. Aí o cara fica todo constrangido, todo sem graça. Pois bem, após participar das atividades, ao voltar para pegar meu carro, enquanto estou na porta aguardando, todas as pessoas que chegam colocam as chaves na minha mão. “O senhor pode pegar meu carro, por favor”. Então, preciso falar todas as vezes que não sou o manobrista e que estou, como as outras pessoas, também esperando meu carro.


Revista Isto É - 03 de julho de 2020


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Entrevista - Antônio Pitanga - "Represento uma multidão que tem um grito sufocado"


Ele desafiou até mesmo a mãe ao nascer. Ela planejava para o dia 13 de junho para homenagear Santo Antônio, mas ele veio antes, no dia 6 de junho de 1939. Hoje, Antônio Pitanga está em isolamento social, junto com a esposa Benedita da Silva, deputada federal e ex-governadora do Rio de Janeiro. Morador das proximidades do aterro do Flamengo faz sua caminhada matinal e depois se organiza para os afazeres em casa. Também ajuda a esposa com as tarefas do gabinete. Pitanga tem um currículo de sucesso na TV, no teatro e no cinema. Aos 81 anos, participou de mais de 50 filmes e continua na ativa. Seu último filme “Casa de Antiguidades” representa o Brasil no Festival de Cannes e tem como tema principal o racismo. O seu próximo projeto é o filme “Males” que fala sobre a revolta do povo africano e será gravado pós-pandemia com elenco 99% negro. Crítico ao governo Bolsonaro, Pitanga é um entusiasta da juventude e acredita que o movimento negro tende a se organizar melhor. “Sou representante de uma multidão que tem um grito sufocado”, disse, em entrevista à ISTOÉ.


A arte no Brasil passou por vários momentos, foi até marginalizada. Como estão hoje: a arte e os artistas?
Nós éramos equiparados às prostitutas, e sem desmerecê-las, nós artistas não fazemos parte dessa profissão. As elites tiveram que nos engolir. O povo é a cultura! O governo é que não tem a sensibilidade e visão de nos reconhecer como profissionais. Mesmo hoje nós não estamos classificados como trabalhadores. Não dá para pensar que todos são Antônio Fagundes, Lázaro Ramos, Tony Ramos, Sônia Braga. Por trás das grandes estrelas existe um exército de invisíveis que faz o show acontecer. E agora durante a pandemia deixaram todos fora do auxílio emergencial. A cultura é um braço importante da economia nacional que movimenta R$ 24 bilhões por ano. São mais de 5 milhões de pessoas envolvidas na cultura em todo o País.

O seu trabalho mais recente, o filme “Casa de Antiguidades”, foi indicado ao Festival de Cannes. Qual a importância do reconhecimento dessa obra que fala de racismo?
É muito importante. É um personagem muito próximo de todo o início da minha carreira. Ele é um segundo “Barravento” na minha vida. Nele, lutamos contra todo tipo de preconceito, todo tipo de perseguição, seja religiosa, de cor de pele ou contra nordestinos. Eu estava nas ruas na década de 50 e 60 vendo nascer o Black Panther, Malcolm X, Martin Luther king, Patrice Lumumba. Esse personagem do “Casa de Antiguidades” está cicatrizado na minha alma. Como dizia o Waly Salomão, “o cérebro é uma ilha de edição”. Eu só puxei, já estava tudo ali. Essa obra é especial nesse momento que todas as mãos negras e brancas estão nas ruas. Porque nós negros já estamos há décadas sem conseguir respirar.

O senhor já sofreu discriminação racial?
Claro e quantas vezes. Imagina o negro que quer ser artista. Quer viver da arte. Cuja arte nem era reconhecida. Foram muitos os caminhos para poder resgatar minha autoestima, sem ter ódio, sem ter qualquer tipo de azedume, sem sentimento de vingança. Mas nessa estrada eu fui registrando quantos impedimentos tive, quantas porteiras fechadas. Sempre respondendo e não perdendo o foco no objetivo da minha caminhada. Na escola em que estudei no Ipiranga, onde estudou Castro Alves na Bahia, eu era o único negro. Existe um processo subliminar covarde para que você se renda, fique de joelhos e não tenha força para continuar. É a arte da guerra. A gente precisa ter uma fortaleza para compreender o outro e criar uma terceira ou quarta pele pra poder suportar: sem ceder e sem achar que isso é maravilhoso. Eu sou representante de uma multidão que tem um grito sufocado.


Porque o governo Bolsonaro mantém um distanciamento da classe artística?
Porque é proibido pensar. A cultura é um instrumento socializador de qualquer civilização e alcança multidões. Com voz e vez ela pode dar esclarecimento ao povo e isso não serve para o atual governo.
A atriz Regina Duarte ficou muito pouco tempo no comando da Cultura. Qual foi o papel que ela desempenhou no governo?
A Regina é uma pessoa que eu conheço há quase 50 anos. Surpreendeu-me ela assumir um cargo e dizer que era a noiva do Bolsonaro. Eu não conhecia essa Regina. Ela esteve sem nunca ter estado. Fez um desserviço à cultura. Até hoje eu quero entender o que a Regina teve na cabeça. Ela traiu seus irmãos, traiu uma categoria. É como se ela dissesse que a carreira dela é uma mentira. Porque ela representou um governo que não tem o menor respeito pelos artistas.
Onde o senhor acha que o presidente quer chegar com os ataques às instituições e aos seus opositores?
Ditadura né! Só ele tem voz. Só ele decide. Ele mesmo disse que sabia onde estava o corpo do pai do presidente da OAB, o Felipe Santa Cruz. O Bolsonaro diz que a Ditadura não fez o serviço completo, tinha que matar e esquartejar. O que me surpreende é que ele não é uma mentira. Ele falou para uma deputada no Congresso: “eu não te estupro porque você não merece”. Disse que não gosta de mulher, de gay, de negro, de índio. Que movimento raivoso é esse dos eleitores que o escolheram? Poderiam ter escolhido Ciro Gomes, Alckmin, Haddad, qualquer um.
Desde a redemocratização dos anos 80, este é o período mais difícil para a democracia brasileira?
É. Porque você vivia na democracia mais longa, 30 anos. Houve um golpe democrático, porque o Bolsonaro foi eleito pelo voto. Mas a história não mente, porque o Mussolini foi eleito pelo voto. O Hitler também foi eleito com o voto. É um golpe mais pesado para a democracia. Porque o Bolsonaro é um civil, mas que mostra bem as garras ao sentar na cadeira de presidente da República. Ele dizia no Congresso que usava a verba de gabinete para comer mulher. É uma dor grande o atual momento.
De onde virá uma solução que responda às questões de miséria e desenvolvimento social do Brasil?
Ela virá no momento em que a esquerda tiver a capacidade de sentar, tirar os seus egos, esquecer as disputas ideológicas, ter humildade de enxergar o tamanho de nação com 212 milhões de habitantes, com um povo ávido para que os políticos apresentem uma nova maneira de agir. A esquerda ainda tem um discurso democrático seja com Brizola, Lula, Fernando Henrique ou Arraes. A direita não tem nada além de um pensamento fascista.

Bolsonaro desrespeita os mais necessitados?
Ele diz que é só uma gripezinha. Ele classifica os filhos como 01, 02, 03, 04. Ele não tem coração, Bolsonaro não tem comportamento humano. Ele não tem um senso de família. Quem tem senso de família teria uma extensão da família ao lidar com o povo. Não existe o povo para ele. Os melhores amigos já estão se afastando.
A Covid-19 deixou claro que o barco Brasil não está preparado com botes salva-vidas para todos. Depois da pandemia o senhor acredita que as pessoas terão uma postura mais solidária frente à miséria.
Eu espero, mas isso não é uma questão brasileira, é uma questão mundial. O povo só se une a partir da tragédia. A solidariedade nasce com o combate ao sarampo, a gripe espanhola, na Segunda Guerra Mundial. Nesse momento a gente está tendo tempo de fazer uma revisitação aos nossos pensamentos para sermos melhores. O presidente esconde o resultado diário de mortes. Espero que a gente adquira uma consciência e saia dessa quarentena melhor.
A educação de jovens pobres no ensino público é de imensa desigualdade frente aos jovens do ensino privado. O isolamento mostrou a distância tecnológica?
Total distância. Entendo que quando você utiliza meios de comunicação, redes sociais para que o jovem com tablet e computador possa ter o direito de ter aula em casa. Mas milhões de jovens não tem esses instrumentos. É preciso que essa consciência possa emergir de nós nessa situação. Do mesmo modo que eu vivi, que eu senti por ser negro. Como você sai e constrói a partir da negação, do isolamento, da invisibilidade, do preconceito, de todo tipo de discriminação e emerge criando dignidade e autoestima? Estamos com a oportunidade de ver como a educação é realmente tratada apenas para alguns e não para a maioria.
É possível para o jovem das comunidades mais pobres, independentemente das questões raciais, competir em grau de igualdade no ensino público superior ou mesmo disputar uma vaga no mercado de trabalho?
Acredito que sim. Porque as oportunidades nascem mesmo num processo em que te negam. Aí é que você cria condições para moldar o ser humano que pretende ser. É a superação. Nós vamos sair desse processo superando muitas adversidades. Eu sou romântico. Vamos construir com a adversidade uma nova nação. Não acredito que a gente saia de tudo isso mais pobre.
Qual a expectativa das pessoas mais pobres, em especial da população negra com a atual crise econômica?
É mergulhar na fonte da educação. Independentemente de ser negro ou branco. Tem que trazer a educação para ser o pilar número um. Para, a partir da educação, crescer. Esse foi o legado que os meus pais me deram. O negro precisa disso. Nós precisamos disso. Os governantes não precisam nos dizer isso. Os nossos pais nos dizem isso desde muito cedo. O momento que o negro detém o conhecimento ele se torna muito importante. Sou fã do Luiz Gama, uma criança que nasceu livre. Com dez anos se tornou escravo, depois do pai, um fidalgo português, perder a liberdade num jogo de cartas. Ele só foi aprender a ler e escrever aos 17 anos. E esse cara virou um dos maiores advogados da causa negra. A educação é o conhecimento da alma humana.
O preconceito tende a aumentar?
Claro que vai aumentar. No momento que você detém o conhecimento ele é uma arma, uma força, é uma potência. Há um movimento no mundo que brota, para acordar. Para que os negros tenham voz e vez. Parece que surpreende esse preconceito, mas sempre esteve ali guardado. Estamos conquistando espaços que nos foram negados por centenas de anos. É uma reação visceral.
A reação da população brasileira à morte do garoto negro de 14 anos João Pedro foi proporcional ao tamanho da violência?
Não foi e é muito preocupante. Somos uma população formada por mais de 50% de pessoas negras. Nós estamos tendo uma reação muito maior com a morte do americano George Floyd do que as nossas crianças. Não só o João Pedro, assassinado com 70 tiros na sua residência, como outros 80 tiros do Exército no carro de uma família negra que ia para um chá de bebê. Não é normal. Eu fico muito espantado. Não existiu reação, não aconteceu e eu cobro isso. Precisa ter uma reação humana em se ver uma tragédia dessas. Me assusta ver como o braço do poder ainda metralha crianças negras.
Por que nos Estados Unidos a reação foi tão impactante?
Porque nos Estados Unidos você tem um componente de liderança muito forte, que é a igreja evangélica. Eu fui com a Benedita a Washington conhecer a igreja frequentada pelo Obama. A igreja evangélica americana traz pela religiosidade um calor, uma presença de organização e defesa do povo negro muito evidente. No Brasil, você tem na colonização um número de africanos sequestrados em mais de 54 países e que foram dizimados ao chegar ao maior interposto de escravos. As famílias que chegavam com conhecimento eram dizimadas ou classificadas como lotes e enviadas para distintos locais. Essa foi a realidade de fundação. Essa foi a grande manobra do colonizador para governar. O candomblé que poderia ser o guia religioso do negro do Brasil, perdeu esse elo com a causa. Nos Estados Unidos são 13% de negros, mas como uma força de organização muito maior que a nossa.

O governo Bolsonaro atrapalha no combate ao racismo?
Ele bota um presidente negro na Fundação Palmares que não se reconhece como tal.
O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, chamou o movimento negro de: “escória maldita, que abriga vagabundos”. O que senhor responderia a ele?
É um negro que é um capataz. Ele acha que é loiro de olhos azuis. Ele não se enxerga. Ele não se olha no espelho? Que pobreza de alma desse homem! Ele está a serviço de quem, para quem? Eu tenho dificuldade de entender essa família negra que tem vergonha dele. Essa mãe que pariu esse cara tem que dizer que ele não é loiro de olhos azuis: você é negro. Sua pele grita do chicote que dobraram nas costas dos seus antepassados. O Sérgio é a avacalhação de uma raça, de um povo. Que chicote bateu nesse cara. Ele nega a Fundação Palmares que foi criada pela Benedita no governo do presidente José Sarney para dar dignidade e voz ao povo negro. Negar isso é negar a cultura brasileira. É negar dança, música, culinária, jeito de ser. Ele nasceu no coração do Brasil, não foi na Áustria. Não há muitas palavras para tentar classificar esse cidadão.
A atual geração está melhor educada para se defender dos preconceitos sociais.
Está sim. Na minha época a gente tinha a informação por cabo submarino. Por acaso até trabalhei nessa área na Uespa, uma empresa de telégrafo inglês. Você mandava a informação e só duas horas depois chegava. As notícias vinham de navio, demoravam. Hoje com tantas ferramentas tecnológicas que a globalização traz de presente dá para se comunicar com o mundo. Então tem uma juventude seja negra, branca, homens, mulheres que tem uma fonte de conhecimento para se libertar e tem condições de se organizar como nós não tivemos. A gente tem a luz do futuro. Quando eu sai do Brasil em 1964, em 16 de abril, no início da ditadura de Castelo Branco, eu fui para a África e fiquei quase dois anos por lá. Eu podia ter me exilado na Europa ou no Chile. Fui para a África porque eu queria conhecer mais, saber da minha origem, ter mais informação. Aprofundei-me na discussão racista. Entendi a importância de James Meredith, o primeiro negro que se formou numa universidade dos EUA, em 1963. Essa consciência eu tive a partir da leitura.
Em 80 anos de vida o que, essencialmente, mudou nas relações humanas no Brasil que pode nos deixar otimistas em relação ao futuro?
Mudou para melhor, eu olho no retrovisor da minha caminhada e vejo muita esperança nos olhos dessa juventude negra. O sucesso de representantes do povo negro como Thaís Araújo, Lázaro Ramos, Camila Pitanga, Fabrício Boliveira, Maju Coutinho me emociona. Porque eu vejo em cada um o resultado de uma trajetória que deu frutos. Sinto como se todos fossem meus filhos. Hoje vem uma juventude que não é racista, que não é alienada, que tem vigor e um olhar promissor. Também em relação à política essa nova juventude não é radical, ela faz política com mais generosidade. Eu tenho dito muito para a minha mulher e meus filhos que eu vou retardar a minha morte porque eu quero assistir o resultado desse projeto de humanidade. É um novo olhar que me dá força para continuar vivendo.

Revista IstoÉ - 17 de junho de 2020


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Entrevista - Leandro Karnal

Historiador fala como o mundo virtual influencia na vida real



O historiador Leandro Karnal está rodando o país com a palestra “Felicidade e Liberdade: a Busca por um Mundo de Significados Reais”. Para o pensador pop, que tem mais de um milhão de seguidores no Facebook, as redes sociais criam modelos para serem seguidos semelhantes aos estabelecidos por religiões. Em entrevista, o escritor classificou como ‘cafona’ a ‘obrigatoriedade’ de felicidade constante, afirmou que a tristeza faz parte da caminhada para ser feliz e refutou a ideia de felicidade plena. Aos 55 anos, Karnal se considera mais feliz e admite que a grande vantagem de envelhecer é adquirir sabedoria.

Como pode ser definido o conceito de felicidade nos dias atuais?
Onde houver seres humanos, o conceito vai variar. Temos vivido a ascensão de dois valores fortes que regulam certo padrão de felicidade: o consumo e a popularidade via redes sociais. Sou adepto da ideia clássica de que a felicidade não é aleatória, mas deriva de opções e ações efetivas e de como lidamos com fracassos e sucessos. A velha ideia de que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional contém parte da crença da nossa participação ativa nas coisas.

E o conceito de liberdade?
Hamlet (personagem do dramaturgo inglês William Shakespeare) define como independente do espaço: posso ser livre em uma casca de noz. Há coisas que limitam minha liberdade, como os vícios, por exemplo, e por isso devem ser combatidos. Drogas, álcool, excesso de qualquer coisa que se imponha à minha vontade é algo complexo. Apesar de parecer contraditório, por vezes, o controle de si garante mais liberdade. Somos sempre livres, mas gostamos de atribuir limitações.

Como as redes sociais influenciam ideais de felicidade e liberdade?
Criam modelos, como grandes religiões e pensamentos criam. Estabelecem um tempo líquido (conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman) no qual “ser” é ser notado. É difícil saber se é bom ou ruim, porque a minha geração, mais velha, ainda distingue perfeitamente entre um amigo real, de carne e osso, e um amigo virtual. Isso não ocorre mais (nos dias atuais) e a própria percepção do real está ligada a redes. Temos um outro paradigma, um novo modelo. As redes formaram outra percepção de mundo e, como toda novidade, encontra detratores, especialmente entre adeptos da velha ordem.

Qual é a importância da tristeza para nossa vida?
A tristeza é um estado natural e não indesejável. Não se confunda tristeza com depressão, esta última é uma doença que escapa ao controle do indivíduo e que necessita de atenção profissional. A tristeza é parte essencial ao projeto de felicidade. Por exemplo, não importa o que você faça, você perderá alguém importante na sua vida. O luto mostra a importância das pessoas e é um amor com vetor trocado. Sou feliz porque já estive infeliz. A tristeza marca um ponto a partir do qual você estabelece a perspectiva da felicidade. Desejar que todos os momentos sejam de êxtase total é infantilidade. Perder meu pai e minha mãe rasgou meu coração e mostrou o quanto eu os amava. Hoje sou melhor como pessoa pelo amor deles.

Como a liberdade e a felicidade influenciam em nossa vida como sociedade?
Estabelecemos projetos públicos de felicidade. Todos querem a selfie do momento perfeito e com alguém famoso. Todos publicam e esperam likes. Ao contrário do que possa parecer, estamos em uma época de fraqueza narcísica. O verdadeiro narcisista não precisa da aprovação de ninguém.

É possível conquistar a felicidade plena?
A palavra plena não condiz com a condição humana. As religiões a projetam, no além paradisíaco. Em primeiro lugar, temos a finitude e, em segundo lugar, o caráter efêmero de tudo, do prazer à saúde. Único animal com consciência da morte, o ser humano vive em uma estrada determinada com fim conhecido. O que fazer antes do fim é o desafio de todo gesto de pensar.

Vivemos em uma sociedade em que somos, praticamente, obrigados a ser felizes o tempo todo, mas, em contrapartida, os níveis de depressão só aumentam. O que está acontecendo?
Isso é a grande cafonice contemporânea. Todos sorrindo o tempo todo, vestindo uma máscara dentária. Estamos com preconceito com a dor, inevitável ao viver. Achamos que a infelicidade é um acidente quando ela é inevitável em determinados momentos. Ter de parecer feliz sempre e postar sempre como estamos bem é algo muito, mas muito cafona.

De que forma a crise financeira e moral que enfrentamos no Brasil influencia na percepção de felicidade e liberdade das pessoas?
Temos uma época de pessimismo dominante, como a primeira década do século 21 foi de otimismo. Esse movimento é pendular na história. Mas essa é uma condição sociológica geral. Pode ser que você esteja muito bem hoje em meio ao pessimismo sobre as eleições de 2018. Pode ser que, no momento em que o Brasil parecia prosperar, em 2005, por exemplo, você estivesse mal. O pessimista, em geral, recolhe do real o que reforça sua posição pessimista.

Como você analisa a mudança de valores no Brasil ao longo da nossa história?
Toda época histórica constitui valores. Não apenas no Brasil, mas em todos os lugares, cada época ditou suas regras e sempre houve adaptados e transgressores. Cada rebelde e cada ajustado pagam um preço por aceitar ou não as molduras. Não existem pessoas integralmente livres e felizes, mas algumas olham pelas grades, outras lamentam e outras decoram a cela.

A população brasileira está envelhecendo. Muitos enxergam isto como algo ruim. Como envelhecer feliz?
Sou muito mais feliz aos 55 do que eu era com 18. Isso é subjetivo. A velhice tem mazelas, como a juventude tem. Quem anseia pela infância é o adulto, nunca a criança. A cor da morte combina com a cor da vida: jovens otimistas e estratégicos podem gerar, com mais facilidade, velhos otimistas e estratégicos. Há belezas e problemas no crepúsculo. Você tem mais dinheiro, menos colágeno, passa à frente nas filas, tem mais dores etc. Cada época é acompanhada de novas consciências. Pelo menos, o amadurecimento vem acompanhado de mais chance de ficar sábio. Ninguém é sábio com 15 anos.

Em um de seus vídeos, você fala que a solidão é o ‘lugar onde estou comigo mesmo’. Na sua concepção, isto é bom?
Solidão não depende de estar ou não com pessoas. Há solitários acompanhados e pessoas muito felizes sem ninguém. Solidão vista como defeito é a falta que eu sinto, uma ausência, um vazio insuperável. Solidão como virtude é estar consigo, bem, pensando ou fazendo coisas: absorvendo um livro, um chá, um vinho, um quadro ou uma música. Os diálogos do meu eu com o mundo não dependem dos outros. Se você nunca pode estar com ninguém e nunca pode ficar sem outra pessoa, temos um problema que não é com a solidão, mas com você.


Jornal Extra

quinta-feira, 29 de março de 2018

Você sabia disso ? - O legado da Semana de 22

O legado da Semana de 22


Da Semana de Arte Moderna, em 1922, para cá, Brasil amadureceu em relação à produção e ao consumo da arte. A análise é da ensaísta e professora titular de literatura brasileira do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, Maria Eugênia Boaventura. Ela é autora do livro "22 por 22 : A Semana de Arte Moderna" (Editora Edusp). Em entrevista exclusiva à Folha da Região, a ensaísta comenta o legado deste movimento de vanguarda e diz que o povo brasileiro, hoje, recebe bem a produção de seus artistas.

A Semana de Arte Moderna, realizada entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, contou com a participação de escritores, artistas plásticos, arquitetos e músicos. Seu objetivo era renovar o ambiente artístico e cultural da cidade. Os artistas queriam a produção de uma arte brasileira, afinada com as tendências vanguardistas da Europa, sem, contudo, perder o caráter nacional.

Maria Eugênia orienta inúmeras pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado, além de supervisão de projeto de pós-doutorado.

Suas pesquisas, bem como as de seus orientados, são assiduamente contempladas com financiamento de agências de fomento nacional, como CNPq, Capes, e Fapesp. Sua especialidade é a literatura brasileira como um todo, embora seja referência fundamental nos estudos sobre o modernismo e a literatura contemporânea. É pesquisadora relevante também sobre fontes primárias e arquivos privados.

O Livro

O livro"22 por 22" é uma coletânea de textos publicados originalmente em jornais de São Paulo e Rio de Janeiro ao longo daquele ano-chave e recupera o calor da polêmica que envolveu escritores, artistas, críticos e jornalistas num verdadeiro tiroteio verbal entre passadistas e futuristas - com destaque para nomes como os de Oswald e Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet, Plínio Salgado e Lima Barreto -realçado por caricaturas de Belmonte e Voltolino.

Para a escritora, a Semana de 22 não teria tanta importância sozinha. O que a tornou importante, afirma a pesquisadora, foram as mudanças que o evento provocou na vida cultural e intelectual de São Paulo.

"A semana teve sentido a partir do momento em que estimulou uma vida cultural interessante". A Semana, para a escritora, foi um marco na vida intelectual de São Paulo. O Ano de 1922 foi responsável pela construção da modernidade no Brasil ao instaurar efetivamente a vida cultural na cidade.

Leia trechos da entrevista:

O que motivou a senhora a selecionar esses textos e reviver o tema da Semana da Arte Moderna?

O que me levou a reunir este conjunto de textos foi a constatação da impossibilidade de encontrar este material reproduzido em qualquer livro sobre o Modernismo, impedindo assim que o interessado pudesse conhecer detalhes do processo de atualização da linguagem artística em geral. Em particular, o leitor tomará conhecimento das principais polêmicas fundadoras daquele movimento.

Quais textos e ideias a senhora destaca do livro como ponto de partida para novas discussões quase um século depois?

Os textos dos dois primeiros capítulos revelam de um lado o período de preparação da Semana, a escolha do nome, as pessoas envolvidas, a repercussão, a forma como se divulgou o evento, os temas preferidos, o nível de informação, o tom do debate. Acabam-se com as dúvidas sobre o processo de modernização da literatura brasileira.

Como foi o processo de pesquisa? A quem se destina o livro?

A Pesquisa procurou rastrear nas revistas e jornais do Rio e de São Paulo, exclusivamente em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, textos sobre o citado evento, quer de autores favoráveis, quer de pessoas contrárias ao movimento em prol da atualização da cultura brasileira, ou do seu processo. O livro se destina a qualquer pessoa que deseje conhecer os bastidores do Modernismo, ou pelo menos de sua primeira festa. É uma pequena amostra do jornalismo da época. Portanto, também uma bibliografia para cursos de Letras, Jornalismo, Comunicação, História, etc.

A senhora acredita que o Brasil reconhece a valorosa contribuição dos artistas que participaram deste movimento?

Claro, não tem como não reconhecer. Basta observar como se produzia arte no Brasil do início do século 20 e comparar com o cenário que se descortinaria depois de 1922.

Hoje o Brasil carece de novas polêmicas e produções de vanguarda nas artes?

Isto acontece de modo cíclico, pelo menos no mundo ocidental. Movimentos artísticos surgem e revitalizam a vida cultural, desaparecem quando sua produção se torna convencional.

De 1922 para cá, o povo brasileiro progrediu ou regrediu na discussão e produção artística?

Acho que nem uma coisa, nem outra. Os artistas procuram rotineiramente manter a produção local atualizada, sobretudo em termos de técnica e linguagem. No mínimo, acho que o país amadureceu.

Como a senhora analisa a relação do brasileiro com sua história e sua arte?

Quando tem oportunidade o povo recebe muito bem: as exposições, os cinemas, os teatros estão lotados. Publica-se muito mais hoje no País. Tudo isso acontece, por enquanto, em zonas urbanas privilegiadas, ou seja mais ricas.

As escolas cumprem o seu papel de ensinar os estudantes sobre produção cultural?

Na medida do possível sim. Para que a situação melhore, o professor precisa ser mais valorizado, isto é, o seu salário tem que ser aumentado, muitíssimo. E as instalações escolares devem ser aprimoradas.

Obras ajudam a entender anseios do movimento artístico modernista

A Semana da Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922, é um dos períodos das história da arte brasileira mais retratados em livros. Vários especialistas investigam este movimento, destacando desde a sua importância para a criação de uma identidade artística nacional até sua influência nas políticas culturais do País.

Além de "22 por 22 : A Semana de Arte Moderna" (Editora Edusp), da professora Maria Eugênia Boaventura, os leitores interessados em conhecer mais sobre o tema podem buscar informações em publicações como "A Semana de Arte Moderna" (Editora Ática), de Neide Rezende; "Semana de 22 - Entre Vaias e Aplausos" (Boitempo Editorial), de Márcia Camargos; "A Semana de 22 - Coleção História em Aberto" (Editora Scipione), de Francisco Alambert.

MAIS

Também são consideradas obras importantes sobre este período os livros "Artes Plásticas na Semana de 22" (Editora 34), de Aracy A. Amaral; "Entre o Escândalo e o Sucesso - A Semana de 22 e o Armory Show" (Editora Unicamp), de Eliana Bastos; "A Ausência Lilás da Semana de Arte Moderna" (Editora Letras Contemporânea), de Tereza Virgínia de Almeida, e ainda "A Semana de Arte Moderna - Série Princípios" (Editora Ática), de Neide Rezende. J.o.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Entrevista - Mary Del Priore

Com mais de 30 livros publicados, a historiadora Mary Del Priore está lançando o primeiro volume de uma ambiciosa tetralogia: “Histórias da gente brasileira – Vol.1: Colônia” (Leya, 432 pgs. R$ 54,90). Menos preocupada com os grandes fatos, feitos e nomes, vitórias e fracassos que marcaram a nossa nação que com aspectos esquecidos da vida cotidiana, ela investiga os códigos da vida de personagens anônimos e esquecidos. Busca, assim, registrar as verdadeiras histórias de pessoas comuns, mostrando como elas se vestiam, onde moravam, o que comiam, o que faziam para se divertir, como se relacionavam.  Nesta entrevista, Mary fala sobre a sua pesquisa, que lança luzes sobre a formação da nossa identidade como brasileiros.

sábado, 16 de setembro de 2017

“Vários desses traficantes foram formados em lares evangélicos”, diz pesquisadora

As recentes imagens da violência intolerante contra religiosos de matriz africana escancararam um problema recorrente desde pelo menos a década passada: a ameaça de grupos armados aos cultos afro em favelas e bairros populares do Rio. Além do horror e indignação frente a tudo que os vídeos mostraram, eles também fizeram ressurgir questões a respeito de como o ódio religioso pode ter chegado a tal ponto.