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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Conto - Eis - me - Rita Lee



Eis–me
Eis‑me aqui viva, mera mortal, filosofando sobre a vida, sobre Deus, sobre a crise mundial. Vem‑me à cabeça minha herança e lembro de mim criança, depois adolescente e assim como todos, carente. Muito antes que depois fui mutante, mulher e amante. Eis‑me aqui perdida no futuro do presente, neste mundinho esquisitão, sobrevivente da bobalização. Meio insatisfeita sou a sujeita do verbo ser star, estrela perdida no índigo do céu, pés no chão, cabeça na lua, coração ao leo. Homens não sabem como dizer adeus, mulheres não sabem quando. Posso resistir a tudo, menos à tentação, e descobri que sou quem eu estava esperando. Eis‑me aqui dia seguinte profissa, espreguiça, lava a cara, escova dente e cabelo, dá uma piscada pro espelho e parte pra rotina de dar bons‑dias. Trabalho como se não precisasse do dinheiro, danço como se ninguém estivesse me olhando e perdoo meus inimigos, nada os deixa mais putos. É uma pena que estupidez não cause dor. Eis‑me aqui caidaça no meio da naite, birinaite, cachaça, me levo pra casa depois de muito blá‑blá‑blá, chego e ainda como um resto de pizza com guaraná. Dou um suspiro, respiro, me inspiro e piro na maionese de mim mesma, esta lesma lerda que não sabe por que caiu, nem onde escorregou. Eis‑me aqui confusa, uma estúpida com raros momentos de lucidez, minha consciência limpa é sinal de memória fraca, um boato que entra pelo ouvido e sai por muitas bocas, depois eu é que sou louca. Tusso na frente de um fumante para ele se sentir culpado, depois queimo meu baseado na calada da noite, lá fora o frio é um açoite, então fecho os olhos, não se preocupe comigo, eu apenas estou morrendo. Ei‑me aqui odiando o amor, me abrace por favor, chego à conclusão de que talvez esteja errada, na esperança nada permanece, só a mudança. Estranhos são amigos esperando eu os encontrar, hay mucho que hacer, calo a boca e sorrio, seria engraçado se não tivesse acontecido comigo. Eis‑me aqui na mesmice, nunca vou perdoar as palavras que não disse, não tenho preconceito, neste mundo odeio tudo igualmente e quando não consigo convencer eu confundo, melhor te amar, se tenho medo da solidão melhor não me casar. Eis‑me aqui bem‑amada, Houston, we have a problem, minha namorada é homem, sou o oposto da puta porque estou pouco me fodendo, não estou podendo tanto assim, ai de mim que não sei se acendo uma vela ou se xingo a escuridão, ando tão sem tempo de tanto assistir televisão. Eis‑me aqui falada, mal‑bem‑amada, o vestido mais bonito uso para ser despido, a vida é tão tranquila que devia emitir atestado de óbito, é óbvio que uma das coisas que me dão mais prazer é fazer o que não devo, vou comer e aproveitar até a última mastigada. Eis‑me aqui me despedindo de mim depois de vomitar a alma, felicidade é a minha direção não meu destino, me peça para ter calma, antes de rezar vou me perdoar, antes de desistir vou tentar, antes de falar vou escutar. Eis‑me aqui renascendo, sendo mais eu do que jamais fui, de que me adianta falar bem se estou errada no que digo, não me ofereça sua sabedoria, me dê apenas um copo d’água, uma fatia de pão e um pouco de circo. Só não posso viver com quem não consegue conviver comigo, nessas eu tive foi sorte. E se você não salvou minha vida, pelo menos não arruíne minha morte.


Rita Lee 

Entrevista - Rita Lee - "Uma palhaça que faz graça até da desgraça"

POR CRISTINA FIBE 13/08/2017 


 RIO — Ela anunciou a aposentadoria dos palcos, se isolou em sua casa em São Paulo, reduziu o contato (presencial, ao menos) com imprensa e público. Mas a cantora e compositora Rita Lee, que chega aos 70 no último dia do ano, não parou de trabalhar. Primeiro, viu sua “Autobiografia” virar fenômeno de vendas ao ser lançada, em novembro passado. Meses depois, leva às lojas mais uma obra, “Dropz” (Globo Livros), desta vez uma reunião de 61 contos que misturam ficção e realidade e acompanham pequenos desenhos da própria autora.

Sobre o tom descrente e sarcástico com que aborda, no livro, temas como terrorismo, feminismo e política, Rita diz que é preciso ter uma “boa dose de humor, ou a velhice pode ficar amarga demais”. Em entrevista por e-mail, ela conta ainda que gostaria de se aventurar num romance policial (“sou boa em desvendar crimes, meu autor predileto é Rex Stout”), anuncia um filme para breve, escondendo qualquer detalhe, e não descarta voltar a lançar um disco de inéditas (“nunca parei de compor”), se a “preguiça de aposentada deixar”.

Quando foram escritos os contos de “Dropz”? Você sempre teve o hábito de escrever ou o seu afastamento dos palcos é que gerou o tempo para a nova atividade?

Depois que escrevi a bio bateu um vazio tipo pós-parto, e naturalmente minha cabeça começou a imaginar um novo filho. Foi só pegar meu iPad que os contos foram saindo sem que eu soubesse o final deles, uma surpresa até para mim. Sempre tive o hábito de escrevinhar, mas depois que me afastei dos palcos pude extravasar mais o côté escritora.

O sucesso comercial da autobiografia te estimulou a lançar o novo livro?

Muito antes da biografia, eu escrevia historinhas pelo Twitter. Algumas acabaram saindo num livrinho com ilustrações de Laerte (“Storynhas”, de 2013). Séculos atrás (nos anos 1980 e 1990), lancei três livrinhos infantis sobre as aventuras de dr. Alex, um ratinho que defende os direitos dos animais. E, sim, a biografia me deu mais segurança para escrever o “Dropz”.

O livro traz desenhos seus. Qual o espaço que a Rita artista plástica ocupa na sua vida?

Veja você que além de ter a cara de pau de me pretender escritora também me meti a fazer as ilustrações do “Dropz”. Estou sempre envolvida com tintas e pincéis, me faz passar o tempo com mais leveza.

Qual é a história por trás do quadro que ilustra a capa do livro?

A capa é um autorretrato que fiz para Roberto (de Carvalho, seu marido) há 20 anos e é como sempre me vi: uma palhaça que faz graça até da desgraça.

Você já disse que os contos são historietas reais num mundo paralelo. Depois de uma autobiografia de sucesso, quanto de sua própria experiência ainda há nessas linhas?

Algumas delas são meditações cotidianas, outras são loucuras que passaram pela cabeça, outras ainda sou eu querendo imitar La Fontaine.

Nos contos, você aborda temas como terrorismo e violência e fala em um país que é o “reino da putaria”. Esses contos refletem a sua maneira de ver o mundo e o Brasil hoje?

Aos 70 anos, observo o mundo ao redor e os paralelos com mais desapego, hay que tener uma boa dose de humor e sarcasmo, ou a velhice pode ficar amarga demais.

Um conto como “Ateu” reflete a sua própria descrença do mundo? A raça humana não deu certo, como escreve no texto?

Psicografei a cabeça de um ateu no mundo de hoje: ele ia me contando como enxergava algumas questões sobre o assunto e eu apenas anotei. Sou uma ateia que coleciona santinhos de todas as religiões e que percebe o divino através dos animais; nós, humanos, somos apenas coadjuvantes.

Como vê a crise política que o Brasil enfrenta? Há solução em vista?

A polarização tá muito chatinha, não confio em nenhum dos lados. O voto obrigatório é o grande vilão do Brasil.

Quem seria o presidenciável que teria o seu voto no ano que vem?

Nenhum dos pré-candidatos até agora me fará sair de casa para votar.

Em entrevista ao GLOBO, Ney Matogrosso comentou, sobre as homenagens que recebeu no Prêmio da Música Brasileira, que a convidou para estar no palco da festa, mas você recusou. Ele chegou a dizer que o Rio estava mesmo muito perigoso para você vir. Foi o medo da cidade que a motivou a dizer não? Qual é a sua relação com o Rio hoje?

Cara, eu só saio da minha toca em caso de incêndio, coisas de uma velhinha que ficou cansada de agitos. Homenageio Ney nas minhas meditações, nas minhas orações, Ney é meu Bowie tropical. Faz um bom tempo que não vou ao Rio, no século passado tive a honra de ganhar cidadania carioca, sou uma paulista que não deixa falarem mal do Rio. #voltacapitalparaorio


O seu afastamento dos palcos prevê uma exceção para comemorar seus 70 anos, em dezembro? Há algum plano para a data?

O plano é lançar em março um coffee table book me auto-homenageando com fotos e curiosidades da minha vida. Vou passar meu aniversário quietinha com minha família, meus bichos e minhas plantas.

Uma exposição de itens seus seria possível? Como preserva seu acervo?

Tenho um sótão abarrotado de lembranças, dia desses faço uma expo-baú do arco da velha.

O que mais há para brotar dos seus escritos? Você anda compondo também?

Nunca parei de compor; dia desses, se minha preguiça de aposentada deixar, posso até lançar um disquinho de inéditas... Pensando bem, um single é bem menos trabalhoso e mais objetivo. E ainda vem aí um filme... Ah, são tantas emoções...



Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/depois-do-best-seller-autobiografia-rita-lee-lanca-livro-de-contos-21700333#ixzz4rzm2OoRq
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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Olhares sobre dois contos machadianos

Por Renata Rodrigues

Este estudo de minha autoria, reflete as mazelas da escravidão no Brasil tendo como pano de fundo os dois contos machadianos. A figura do "escravo" é comparada à figura do "inimigo" sob a concepção teórica do Direito Penal do Inimigo, idealizada pelo jurista alemão Günther Jakobs. Machado de Assis, de maneira irônica e genial, revela ao seu leitor as fraquezas, o egoísmo, o individualismo, e demais mazelas concernentes a nossa condição humana.  

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Quem conta um conto ... - O enfermeiro - Machado de Assis

O ENFERMEIRO


Parece-lhe então que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com a condição única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser que oito dias, se não for menos; estou desenganado.

sábado, 11 de junho de 2016

Conto - Pai contra mãe - Um outro olhar

Resumo: Este trabalho analisa a estética machadiana no conto Pai contra mãe, uma pequena parcela da produção deste grande autor, mas que é rica em dados que mostram como ele constrói a sua ironia. Essa construção pode ser percebida através dos subsídios que estruturam essa narrativa. Machado ao construir este conto utilizou elementos que acentuam o tom irônico de suas palavras, isso se torna necessário, uma vez que o conto, enquanto gênero, é caracterizado por ser uma narrativa breve e cuja ação é inerentemente curta. Através da análise dos elementos semânticos, da ambivalência no texto machadiano, responsável pela comparação com o Cândido de Voltaire, do pessimismo e dos aspectos da estrutura narrativa como a perspectiva do narrador, a construção do nome das personagens e a função que a protagonista desempenha dentro do enredo, mostramos como o autor consegue a apresentação de uma ironia rica, trabalhada minuciosamente, a fim de que nenhum aspecto do texto se desvie do propósito dele, que é criticar as várias facetas do ser humano e do sistema social vigente na época em que a narrativa foi escrita.


Conto - Pai contra mãe , uma análise

Por Ana Célia Coelho


Neste trabalho faz-se uma abordagem sobre alguns aspectos encontrados no conto 
Pai contra Mãe de Machado de Assis (1839-1908), publicado no volume “Relíquias de Casa Velha” em 1906. Sabe-se que tanto os romances quanto os contos machadianos faz-nos refletir sobre o espírito humano e suas fraquezas (a crueldade, a ingratidão, a deslealdade, o adultério, a soberba, a mesquinharia, a corrupção, a sensualidade e outros demônios da alma), com o intuito de mostrar que “a mais eficaz consolação em toda desgraça é descobrir que sempre há mais desgraçados do que nós”.

No conto Pai contra Mãe focaremos a ironia e a crueldade presentes nas atitudes do núcleo protagonista da trama: Cândido, Clara e Tia Mônica. Entende-se por ironia, segundo o dicionário Houaiss (2009), como figura caracterizada pelo emprego inteligente de contrastes, usado literariamente para criar ou ressaltar certos efeitos humorísticos; uso de palavra ou expressão sarcástica; qualquer comentário ou afirmação irônica ou sarcástica; crueldade, entende-se por característica ou condição do que é cruel; prazer em fazer o mal; impiedade, maldade, ato, procedimento cruel; crueza.

Sabe-se que uma obra literária que resiste ao tempo é um clássico e, é certamente o caso da prosa de Machado de Assis, sobretudo depois de 1880, quando ele publicou Memórias póstumas de Brás Cubas. Pois, poucos autores brasileiros foram e são tão estudados, analisados e lidos como Machado de Assis. A extraordinária produção analítica sobre os romances, contos, crônicas e teatro de Machado, além dos livros sobre a vida e a obra do autor, é uma prova de que a leitura crítica da obra machadiana está longe de ser esgotada. Segundo o escritor Hatoum (2008), como ocorre com todos os clássicos, a obra de Machado é um emplastro poderoso para desintoxicar o leitor viciado em palavras fáceis e fúteis, em receitas de bem viver, em fórmulas de sucesso, em relatos sobre um cachorro amado, ou essa ou aquela celebridade. Bem-aventurados os que ainda não conhecem o Machado contista, pois nas narrativas breves do Bruxo vão encontrar os temas dos grandes romances: a loucura, o adultério, o jogo de sedução e poder, os carreiristas e alpinistas sociais, e a combinação de falta de escrúpulos e crueldade nas atitudes de determinada elite brasileira do século XIX. Um século depois da morte de Machado, alguns desses temas perduram, porque fazem parte constitutiva da natureza humana. Quanto à crueldade de uma elite que cultiva privilégios [...]. Até nisso Machado acertou em cheio, e com um pessimismo e uma ironia que nos deixam sem fôlego1 .

Todavia, como estamos conhecendo bem o Machado contista, através da

Disciplina Literatura Brasileira I, analisaremos, modestamente, um de seus contos que expressa bem, com muita ironia, a falta de escrúpulos e a crueldade nas atitudes humanas. De modo sintético, o conto “Pai contra mãe” de Machado de Assis, aborda o século XIX, trazendo a história de um capitão-do-mato (Cândido Neves) que captura uma escrava fugitiva (Arminda), que está grávida e, após entregá-la ao seu dono, a escrava aborta o filho que espera. Desse modo, o capiturador de escravos obtém dinheiro para sobreviver e salvar seu filho da Roda dos Enjeitados. O conto termina com a frase: “Nem todas as crianças vingam”, expressando, assim, o pessimismo machadiano.

Logo no começo do conto, temos a narração sobre os maus tratos que os escravos negros recebiam no século XIX, os quais eram métodos correcionais aplicados para se garantir a honestidade e sobriedade, pois perdiam o vício de beber e consequentemente o instinto para roubar, ou como método preventivo contra as fugas dando para os reincidentes uma estimulação a humildade e a subserviência. Era como se fosse natural torturar um seres humanos, como se houvesse uma justificativa aceitável para aquilo. Se tivéssemos a informação correta, moral e ética, diríamos que o escravismo foi um regime criminoso contra a humanidade, de leis e fatos, imorais, antiéticos, condenáveis em qualquer sociedade que fizesse bom juízo dos fatos.

Como os escravos não aceitavam sua condição desumana, fugiam com frequência, sedo caçados por um capitão-do-mato e devolvidos aos seus respectivos donos, que recebia por seu trabalho uma gratificação, “algum dinheiro” pela caça. É aí que entra a história de Cândido Neves ou Candinho que segundo a narrativa, “cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos” e tinha um grave defeito “não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade”.

Candinho casa-se com Clara, uma órfã que morava com uma tia, Mônica, e ambas costuravam para sobreviver. Clara fica grávida, piorando, assim, a situação de pobreza em que viviam. Segundo a narrativa, tudo era motivo de graça para o casal, “não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço”. Tia Mônica, por sua

1 HATOUM, Milton. Machado de Assis: um século depois. São Paulo, 2008 (ONLINE). Disponível em:


vez, era pessimista e alertava-os “vocês verão a triste vida” que terão quando essa criança nascer. Tia Mônica, visando seu próprio benefício, pois ela era agregada do casal e não queria ceder seu espaço para a criança que estava para nascer, aconselha o casal a entregar o filho à Roda dos Enjeitados para não morrer de fome. Mas o casal rejeita piamente seu conselho.

Candinho vê-se desesperado com a situação e sai em busca de algum “preto fujão”. No entanto, os “escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves”. Mas, por ironia do destino, ele se depara com Arminda, a “mulata fujona” e logo a reconhece e a captura. Vale à pena transcrever este trecho:

Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus. — Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!2

Aí está a grande ironia do conto que culmina em crueldade: o fato da escrava fugitiva reforçar em Candinho a vontade de capturá-la. Arminda, ao implorá-lo por sua liberdade porque estava grávida e não queria ter um filho escravo, faz com que Candinho se lembre de seu filho recém nascido que se ele não ganhar dinheiro urgentemente terá que perdê-lo, deixá-lo à Roda dos Enjeitados para não morrer de fome. Portanto, Candinho obstinamente agarra a escrava e entrega ao seu dono, sem se importar com sua gravidez. A crueldade resulta da morte de uma criança (do filho da escrava), para sobrevivência de outra (do filho de Candinho).

Por isso, Candinho, afirma no final do conto: “Nem todas as crianças vingam”, tentando justificar sua ação tirana, sua crueldade. Com isso, o autor mostra a miséria humana, através dos dramas paralelos de um pai contra mãe, lutando por duas vidas, onde o indivíduo é capaz de aplacar sua consciência, mesmo tendo cometido o maior dos crimes, justificando a troca de uma vida pela outra.

Esta frase assemelha-se a de Brás Cubas em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881): “Não passei para ninguém o julgo da minha miséria”. Ambas refletem o pensamento da época, o pensamento pessimista do século XIX, de que “nada de grandioso se pode esperar do homem”. É notório que o sistema sócio-econômico de cada época, obriga as pessoas a se “engafiarem” pela sobrevivência, pela comida, pelo

2ASSIS, Machado de. “Pai contra mãe”. In: _ Relíquias de Casa Velha. Rio de Janeiro: Ed. Garnier, 1990, p. 17-27.

pão de cada dia. E, isto é retratado excelentemente neste conto. Pois, a narrativa analisa a capacidade que alguns homens têm de persuadir (como a Tia Mônica) o próximo, humilhar e matar (como o fez Candinho com Arminda) para se dar bem na vida, para sobreviver numa sociedade desigual e excludente. Afinal, “ao vendedor as batatas”.

Esta narrativa reforça também o lado grotesco ligado à escravidão que segundo o narrador, no momento da escrita, já passara. Além do mais, um dos principais ofícios que a escravidão levou foi o de capturar escravos. Segundo o autor, este ofício está ligado à reprodução da pobreza gerada pela escravidão, por não ser nobre, nem exigir estudos e muito menos oferecer glórias futuras, a submissão a essa atividade era própria do seu tempo e das necessidades de permanência da escravidão através do grotesco, do chocante, do violento e por meio da submissão de pessoas que precisavam preservar a própria existência. Segundo Moraes (2009):

Machado de Assis ao retratar a luta do pai, branco, com uma mãe, negra e escrava, traçou um paralelo nas condições de miséria e pobreza existentes durante a escravidão e que permaneceriam após o seu fim. Ao escrever 50 anos depois, o autor discutiu a situação do trabalho no Brasil após o fim da escravidão, assim como as situações precárias da vida de uma parte da sociedade que não se inseria nem no quadro dos proprietários e nem no de escravos. Cândido, Clara e Tia Mônica compõem esse quadro. Mais que isso, ao iniciar o seu texto mostrando os ofícios e os aparelhos que a escravidão levara, o autor também mostra o quê a abolição não deu cabo: da miséria e das diferenças sociais. Apenas encerrou o uso de alguns aparelhos tão fortemente retratados no início do conto3 .

Segundo a autora, a vida de Cândido e sua luta pela sobrevivência é também uma história do trabalho livre no Brasil durante a vigência da escravidão. Ao mostrar as dificuldades de Cândido em conseguir o sustento para a sua família através do trabalho dando a entender, muito por causa das interpretações de tia Mônica, que eram provocadas pelo próprio Cândido que escolhia seus trabalhos, Machado de certa forma indica as reais dificuldades desses homens em trabalhar nessa sociedade escravista.

Percebe-se que essa dificuldade dos homens livres e as relações de dependência que eles vão traçar para a sua sobrevivência foram temas dos romances de Machado de Assis. Porém, no conto “Pai contra mãe”, Machado liga os três universos dessa sociedade brasileira esquematizada por Schwarz4 . Cândido, homem livre e pobre, serve

3 MORAES, Renata Figueiredo. Pai contra mãe: a permanência da escravidão nos contos de

Machado de Assis. In: 4º. Encontro de Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, 2009. (ONLINE) Disponível em: <http://w.labhstc.ufsc.br/ivencontro/pdfs/comunicacoes/RenataMoraes.pdf>. Acesso

4 Roberto Schwarz é um crítico literário e professor aposentado de Teoria Literária. Um dos principais continuadores do trabalho crítico de Antonio Candido, redigiu estudos sobreMachado de Assis elencados entre os mais representativos na fortuna crítica sobre o autor das Memórias Póstumas de Brás Cubas. O a classe de proprietários à medida que captura os escravos. Esse trabalho só poderia ser mesmo feito por homens livres que cedessem à pobreza, segundo diz o próprio Machado, de capturar homens e mulheres em condições piores que as deles. No entanto, o autor, através da fala da tia Mônica, dá a entender que Cândido era o responsável pela sua condição ao querer ser livre para escolher a qualquer momento o seu trabalho quando na verdade ocorre o contrário. Cândido irá escolher aquele que oferecer maiores rendimentos. E capturar escravos fugidos se mostra o auge do trabalho livre naquela história principalmente na passagem que Machado cita os desempregados que recorreram a esse ofício.

Machado vive os momentos republicanos olhando para o passado escravista do país e expondo as diferentes liberdades. Ao tratar de um tempo da escravidão ocorrido há meio século, Machado expôs as permanências dessa sociedade nos tempos republicanos através do problema do trabalho e a sua transição do escravo para o livre, das condições de miséria existentes não apenas no período republicano mas que nasceram dessa sociedade escravista, representado no conto pela família de Cândido e dos sonhos de futuro representado pelas crianças. Tanto Arminda quando Cândido vê nos seus filhos a possibilidade de mudança, de retomada de alguns valores afetivos que antes não haviam gozado. Ter o filho em segurança era projetar um futuro distinto do que eles tinham até então. (MORAES, 2009)

Assim é Machado de Assis: irônico, pessimista, melancólico. Sua grandeza está em sua capacidade de ir ao ponto nevrálgico, reservando sempre desenlaces enigmáticos, jamais suspeitados por quem o lê. É por isso que para conhecê-lo não basta uma leitura, mas várias, pois são muitos os disfarces e armadilhas que espalha pelo caminho. Talvez venha daí à sedução que exerce ainda nos leitores de hoje. E, não é sem merecimento que Machado de Assis é hoje reconhecido como o maior romancista brasileiro de todos os tempos.

pensamento de Schwarz sobre literatura é inseparável da reflexão mais ampla sobre política e sociedade, e, nessa linha, podem-se mencionar os ensaios “Cultura e política, 1964-1969” (originalmente publicado em Les Temps Modernes, 1970, recolhido em O Pai de Família).

ASSIS, Machado de. “Pai contra mãe”. In: _ Relíquias de Casa Velha. Rio de Janeiro: Ed. Garnier, 1990, p. 17-27.

ASSIS, Machado de. 100 anos de uma cartografia inacabada. Rio de Janeiro, RJ: Ministerio da Cultura, 2008.

MORAES, Renata Figueiredo. Pai contra mãe: a permanência da escravidão nos contos de Machado de Assis. In: 4. Encontro de Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, 2009. (ONLINE) Acesso em: 02/05/2010. Disponível em:

<http://w.labhstc.ufsc.br/ivencontro/pdfs/comunicacoes/RenataMoraes.pdf>

HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

HATOUM, Milton. Machado de Assis: um século depois. São Paulo, 2008 (ONLINE). Disponível em: <http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3198423- EI6619,0 Machado+de+Assis+um+seculo+depois.html>. Acesso em: 08/05/2010.

LISBOA, Marcia. O Negro no Brasil: a dura luta pela inserção social. In: revista Rumos: economia e desenvolvimento. Ano 25, nº 183, p. 24-32, abr. 2001.

Conto - Pai contra mãe , uma leitura

Já de início o autor/narrador se justifica no conto como sendo a escravidão e a vida uma forma grotesca e cruel.  “Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e alguma vez o cruel”. E continua contando que “pegar escravos fugidios era um ofício do tempo”. Lembra também que “ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem”.

Quem conta um conto - Pai contra mãe

PAI CONTRA MÃE

A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres.  A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Conto - A Cartomante de Machado de Assis, uma análise crítica

O presente trabalho trata se de uma análise do perfil psicológico dos personagens principais do Conto “A Cartomante” de Machado de Assis, a luz das Teorias Fenomenológica Existencial utilizando-se para tanto uma analise subjetiva das situações ocorridas e atitudes de cada personagem durante sua trajetória na trama.
            No conto ”A Cartomante”, Machado de Assis, mostra a visão objetiva e pessimista da vida, do mundo e das pessoas (não existe final feliz). O autor faz uma análise psicológica das contradições humanas na criação de personagens imprevisíveis, jogando com insinuações em que se misturam a ingenuidade e malícia, sinceridade e hipocrisia.
            Crítica humorada e irônica das situações humanas, das relações entre os personagens e seus padrões de comportamento. Utiliza-se de uma Linguagem sóbria que, entretanto, não despreza os detalhes necessários a uma análise profunda da psicologia humana.

Conto de Escola - uma leitura

“Conto de escola”, de Machado de Assis, narra o primeiro contato de um menino, Pilar, com a corrupção e a delação. Tudo começa quando Raimundo, o angustiado corruptor, filho do mestre, oferece uma moeda a Pilar, seu colega de classe, em troca de umas lições de sintaxe. Curvelo, o delator que era um pouco levado do diabo (MACHADO, 1997, p.105), os denuncia ao professor e ambos, Raimundo e Pilar, são violentamente castigados com doze bolos de palmatória cada.  

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Quem conta um conto ... - Conto de Escola - Machado de Assis

A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia - uma segunda-feira, do mês de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar amanhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão. 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Contos Machadianos - A Cartomante

A Cartomante

Machado de Assis


Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Quem conta um conto .... Se eu fosse Esqueleto

Se eu fosse esqueleto não ia poder tomar água nem suco porque ia vazar tudo e molhar a casa inteira. 

Tirando isso, ia acordar e pular da cama feliz como um passarinho. 

É que ser uma caveira de verdade deve ser muito divertido. 

Por exemplo. Faz de conta que um banco está sendo assaltado. Aqueles bandidões nojentões, mauzões, armados até os dentões, berrando: 

- Na moral! Cadê a grana? 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Contos Machadianos - O caso da vara

O CASO DA VARA

Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano, foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava, finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não, lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:
Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Quem conta um conto - Filosofia de um par de botas - Machado de Assis

Uma destas tardes, como eu acabasse de jantar, e muito, lembrou-me dar um passeio à Praia de Santa Luzia, cuja solidão é propícia a todo homem que ama digerir em paz. Ali fui, e com tal fortuna que achei uma pedra lisa para me sentar, e nenhum fôlego vivo nem morto. — Nem morto, felizmente. Sentei-me, alonguei os olhos, espreguicei a alma, respirei à larga, e disse ao estômago: — Digere a teu gosto, meu velho companheiro. Deus nobis haec otia fecit.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O humor machadiano em O Alienista


Encontrar e entender as tiradas bem (ou mal)- humoradas de Machado de Assis é um trabalho ardiloso, mas ao menos é recompensa do com boas risadas.


por José Maria Boutckosky da Silva

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Artigo de Opinião - As lições de "A Cartomante "



Machado de Assis, antes de tudo artista, é um grande fazedor de tramas, que embaralha maliciosamente as cartas e o leitor


por David Oscar Vaz

Artigo de Opinião - Notas sobre contos machadianos


Nem tudo da farta produção de Machado de Assis, quase uma centena e meia de narrativas breves, merece ser lido


por David Oscar Vaz

Machado, seus relicários e raisonnés



Os contos de Machado de Assis carecem não apenas de edições adequadas, mas também e principalmente de estudos condizentes com sua relevância literária, que inclusive forneçam uma visão completa do conjunto


por Mauro Rosso