O desconhecimento sobre o continente africano é brutal. Em um nível ampliado, ajuda a fomentar o racismo e a violência contra populações estigmatizadas por anos a fio, caracterizadas como pouco criativas e sem importância histórica na formação moderna do homem. Um dos exemplos mais famosos está em uma obra clássica nos estudos da arqueologia, de 1949, escrita pelo jornalista alemão C.W. Ceram, utilizando o pseudônimo de Kurt Wilhelm Marek. “Deuses, túmulos e sábios” já foi traduzida para mais de 28 idiomas e, ao longo das últimas sete décadas, tem perpetuado um conhecimento vago sobre a África, diminuindo a história da região às pirâmides do Egito Antigo. Isso, no entanto, está mudando.
Este Blog é uma ferramenta de trabalho do Projeto Espaço de Cultura desenvolvido e ministrado pelo professor José Henrique da Silva
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quarta-feira, 25 de março de 2020
segunda-feira, 9 de julho de 2018
Você sabia disso ? - Urucungo
Faz parte dos poemas considerado "negros", em que o poeta lança seu olhar rumo às questões relacionadas ao Brasil, sua formação e seu sincretismo racial. O espaço é dedicado à reflexão acerca da condição dos negros no país. Os poemas de Urucungo abarcam desde o início da escravização, a viagem nos navios negreiros, o trabalho nas fazendas e a migração em tempos de libertação para a margem das cidades, para os morros que se delinearam favelas. As histórias e as descrições que compõem esses poemas são em grande parte perpassados pela memória dos narradores que retornam pela contação ao passado anterior e atual à escravidão, sendo esse o toque original que o poeta dá a esse itinerário da condição negra. Raul Bopp explora as “solidões da memória/ coisas que ficaram no outro lado do mar”(BOPP, 1998.p.198), e assim como na memória os tempos e espaços se confundem, nos poemas os tempos da África vem visitar as fazendas e cidades, as lembranças marcam de forma mais aguda a dor pelas violências sofridas e a nostalgia percorre toda a narração, todo poema.
"Pai-João, de tarde, no mocambo, fuma
E as sombras afundam-se no seu olhar.
Preto velho afoga no cachimbo as lembranças dos anos de trabalho
que lhe gastaram os músculos.
Perto dali, no largo pátio da fazenda,
umbigando e corpeando em redor da fogueira,
começa a dança nostálgica dos negros,
num soturno bate-bate de atabaque de batuque.
Erguem-se das solidões da memória
coisas que ficaram no outro lado do mar.
Preto velho nunca mais teve alegria.
Às vezes pega no urucungo
e põe no longo tom das cordas vozes que ele escutou nas florestas africanas.
Dói-lhe ainda no sangue as bofetadas de nhô-branco.
O feitor dava-lhe às vezes uma ração de sol para secar as feridas.
Perto dali, enchendo a tarde lúgubre e selvagem,
a toada dos negros continua:
Mamá Cumandá
Eh Bumba.
Acubabá Cuebé
Eh Bumba."
Obra esta que só foi publicada pela insistência dos amigos Jorge Amado e Echenique. Bopp a eles enviou os poemas-negros juntamente com uma carta na qual fica expressa a decepção do poeta acerca da recepção de suas obras.
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FONTE: http://www.blogtribuna.com.br/ ;
sábado, 12 de maio de 2018
Você sabia disso ? - 130 anos da abolição da escravatura no Brasil
Em 10/05/2018
Em 13 de maio de 1888, foi assinada a Lei Áurea, que aboliu a escravidão do Brasil. Passados 130 anos, o racismo permanece como um grave problema na sociedade brasileira.
Por Daniel Neves Silva
Em 2018, completam-se 130 anos da abolição da escravatura no Brasil. Uma data tão importante gera debates e reflexões acerca da inserção do negro na sociedade brasileira naquele período do final do século XIX e também sobre os desafios atuais que a nossa sociedade ainda possui nas questões que envolvem a desigualdade racial que existe em nosso país.
Uma série de dados reforça a existência do racismo no Brasil. Isso é resultado de todo o processo histórico que aconteceu por aqui, que não promoveu políticas públicas efetivas no sentido de inserir os negros na sociedade. Essa situação reflete-se na condição atual do nosso país em índices que evidenciam uma desigualdade racial alarmante.
Sobre essa discussão cabe também algumas reflexões acerca da continuidade do trabalho escravo no nosso país (de maneira ilegal, claro) mesmo após os 130 anos da proibição desse tipo de trabalho no Brasil. A respeito dessa discussão cabe também uma contextualização sobre como aconteceu o processo que causou o fim da escravatura na década de 1880.
Abolição da escravatura no Brasil
A causa abolicionista no Brasil ganhou força a partir da década de 1870, sobretudo após o fim da Guerra do Paraguai. O fortalecimento da causa abolicionista refletiu-se diretamente no Brasil a partir da fundação de organizações que debatiam ações para promover essa causa nos meios políticos brasileiros e foi acompanhado de algumas leis, como a Lei do Ventre Livre.
A transição do Brasil para o fim da escravatura foi, no entanto, lenta e gradual de uma maneira que atendia os interesses dos grandes defensores desse tipo de trabalho no nosso país: os grandes proprietários do Sudeste brasileiro. A postergação de reformas que caminhassem nesse sentido (da emancipação dos negros) era uma prática brasileira desde o Primeiro Reinado.
Podemos começar pelo fato de que o Brasil, após a sua independência, não apenas manteve como reforçou a importância da escravidão, o que, em geral, foi bastante diferente do que aconteceu na América Espanhola, uma vez que grande parte da América Latina aboliu essa modalidade de exploração do trabalho antes da década de 1860.
A própria proibição do tráfico negreiro ocorreu apenas em 1850 (apesar de existir uma lei de 1831 que já proibia esse comércio) e após grande pressão da Inglaterra sobre o nosso país para que isso acontecesse. Essa lei ficou conhecida como Lei Eusébio de Queirós e só foi decretada após a Inglaterra pressionar o nosso país a partir do Bill Aberdeen.
De toda forma, mudanças práticas nesse sentido só aconteceram a partir de 1870, pois, conforme mencionado, a partir dessa década a causa abolicionista ganhou força no Brasil. Além disso, surgiu uma preocupação entre membros do governo monárquico acerca das tensões que o embate entre abolicionistas e escravocratas poderia gerar.
Essa preocupação ocorria, em grande parte, pela tensão que existia nos EUA entre o Norte abolicionista e o Sul escravocrata. Lá essa tensão foi tão grande que foi em parte responsável pela Guerra de Secessão, que se estendeu durante quatro anos, o que gerou muita destruição material e foi responsável pela morte de 600 mil pessoas.
Além da preocupação em evitar um conflito nesse sentido no Brasil, o governo monárquico preocupava-se também com a reputação internacional do Brasil, pois havia grande pressão internacional para que o país acabasse com a escravidão. Essa pressão intensificou-se depois que Rússia e EUA colocaram fim ao trabalho escravo em 1861 e 1863, respectivamente.
A pressão internacional justificava-se também em parte porque a escravidão, além de ser vista de maneira negativa pelos novos padrões civilizacionais que já despontavam, era enxergada em determinadas partes do globo como um entrave para a modernização do capitalismo, que estava em curso nas nações europeias e nos EUA.
De toda forma, o fortalecimento desse debate fez com que, em 1871, fosse aprovada a Lei do Ventre Livre. Essa lei decretava que o fruto do ventre de todas as escravas do Brasil seria considerado livre, desde que exercesse um período de trabalho como forma de compensação ao dono dos escravos. Assim, o dono que libertasse seu escravo aos oito anos de idade teria direito a uma indenização, mas caso optasse por ficar com o escravo até os 21 anos, não seria indenizado.
Essa lei gerou um debate muito grande na época. Até os abolicionistas ficaram com muitas desconfianças. No entanto, as historiadoras Lilian Schwarcz e Heloísa Starling apontam um elemento importante que evidenciava uma mudança de mentalidade no Brasil e que desagradou consideravelmente aos grandes proprietários:
Havia na lei outro detalhe que desgostou os grandes proprietários e os indispôs com a monarquia. A medida reconheceu formalmente a existência de famílias escravas. Organizaram-se, então, listas de matrícula criadas a partir de um fundo de emancipação, que separava famílias de indivíduos escravos. As decorrências da lei de 1871 não foram, nesse sentido, desprezíveis, uma vez que se invertiam antigos procedimentos: se até ali os chamados “homens livres de cor” é que precisavam se fazer socialmente reconhecidos, agora o ônus da prova ficava com o senhor, que era obrigado a apresentar a matrícula do seu escravo. Sem ela, qualquer pessoa “de cor” era considerada juridicamente livre|1|.
Esse debate seguiu dividindo a sociedade brasileira, e a atuação dos grupos abolicionistas durante a década de 1880 intensificou-se, mas não sem uma reação conservadora. Nessa questão da reação conservadora nesse período, podem ser destacadas a Lei Saraiva, de 1881, e a Lei Saraiva-Cotejipe, de 1885, e também conhecida como Lei dos Sexagenários.
A Lei Saraiva de 1881 criou dispositivos que reorganizaram o sistema eleitoral brasileiro, promovendo a redução dos quadros eleitorais do nosso país. Com essa lei, estipulavam-se eleições diretas no país, mas se exigia o dobro para ter direito ao voto (a renda mínima passou a ser de 200 mil réis), bem como a assinatura do votante (uma estratégia para excluir os analfabetos).
Essa lei pode ser entendida como uma estratégia dos conservadores brasileiros para impedir que o perfil do eleitorado brasileiro se alterasse radicalmente com a aceleração do processo emancipatório do nosso país naquele momento. Além disso, estipulava que o eleitor ideal para essa ala política seria um grupo muito restrito, composto pela elite econômica e branca do nosso país. Assim, os grupos conservadores anteciparam-se às mudanças que poderiam acontecer e tomaram medidas que visavam a restringir o acesso do negro ao voto.
A Lei dos Sexagenários ou Saraiva-Cotejipe, de 1885, decretava que os escravos com idade superior a 65 anos seriam libertos de sua condição de escravos desde que trabalhassem por mais um período de três anos como compensação. A lei foi bastante criticada pelos abolicionistas, pois era considerada uma proposta tímida e conservadora e que tinha como objetivo retardar a abolição.
Apesar dessa reação conservadora, a força do abolicionismo cresceu. Diversas organizações abolicionistas começaram a agir e criar ações para promover a causa e garantir a defesa dos escravos no Brasil. Eventos e manifestações públicas tornaram-se comuns após 1885, e o fortalecimento dessa causa refletiu-se diretamente na postura dos escravizados.
Surgiram, principalmente no Sudeste brasileiro (região que concentrava a maioria dos escravos brasileiros), rebeliões e fugas de escravos. Ao redor do Rio de Janeiro, além de regiões no Vale do Paraíba e no litoral paulista, surgiram diversos quilombos, que abrigavam os escravos que haviam fugido de seu cativeiro. O decreto da abolição no Brasil então, segundo Lilian Schwarcz e Heloísa Starling, foi resultado dessas múltiplas lutas travadas no país:
O fato é que conviviam modalidades, muitas vezes concomitantes, de luta abolicionista: a ação dos próprios escravos, a movimentação dos abolicionistas e a batalha política em nível nacional. O abolicionismo se convertia, portanto, em outra grande causa forjando o sentimento e a imaginação dos brasileiros|2|.
Assim, todo esse processo resultou no que ocorreu em 13 de maio de 1888, dia em que a Princesa Isabel realizou a assinatura da Lei Áurea, ratificando a abolição da escravatura no Brasil de maneira imediata e sem indenização para aqueles que possuíam escravos. Estima-se que cerca de 700 mil escravos tenham conquistado sua liberdade com a lei.
Um dado importante a ser destacado é que o Brasil foi o último país de todo o continente americano a abolir o trabalho escravo em seu território (Cuba foi o penúltimo, abolindo em 1886). Isso deixou evidente o alto grau de conservadorismo do nosso país, que postergou o fim da escravidão até quando fosse possível.
Por fim, vale dizer que a abolição da escravatura não foi acompanhada de políticas que promovessem a integração dos negros libertos na sociedade e muito menos para que obtivessem um meio de subsistência. Isso foi o grande responsável pelo abismo social existente entre negros e brancos no nosso país, visto que medidas racistas foram tomadas durante as décadas seguintes e mantiveram esse quadro de desigualdade social.
O que mudou após a abolição?
Na prática, o que mudou foi que a escravidão enquanto prática institucionalizada e legalizada pelo Estado deixou de existir. O racismo e a exclusão do negro da sociedade permaneceram enquanto práticas da nossa sociedade, e isso pode ser percebido ao longo de todo o processo histórico do Brasil a começar pela própria Primeira República.
Primeiramente, uma questão muito importante ao se pensar em abolição é analisar as formas de integração econômica que deveriam ter sido realizadas. Joaquim Nabuco, por exemplo, afirmava que era de vital importância que a abolição fosse acompanhada de uma reforma agrária para garantir ao liberto uma forma de subsistência e para que o ciclo de dependência do negro não se perpetuasse. Isso não aconteceu, e os negros tiveram poucas oportunidades de se desenvolver economicamente.
O que houve foi exatamente a perpetuação desse quadro de exploração, desigualdade e racismo, pois, conforme relata o historiador Boris Fausto, os escravos no Nordeste, em grande parte, continuaram dependendo dos antigos proprietários para sobreviver. No caso de São Paulo e no Rio Grande do Sul, os ex-escravos tiveram pouco acesso a oportunidades de empregos melhores, pois os empregadores preferiam contratar os imigrantes europeus|3|. Por fim, Boris Fausto sentencia:
Apesar das variações de acordo com as diferentes regiões do país, a abolição da escravatura não eliminou o problema do negro. A opção pelo trabalhador imigrante, nas áreas regionais mais dinâmicas da economia, e as escassas oportunidades abertas ao ex-escravo, em outras áreas, resultaram em uma profunda desigualdade social da população negra. Fruto em parte do preconceito, essa desigualdade acabou por reforçar o próprio preconceito contra o negro. Sobretudo nas regiões de forte imigração, ele foi considerado um ser inferior, perigoso, vadio e propenso ao crime; mas útil quando subserviente|4|.
Além disso, podem ser destacados episódios da história brasileira que ressaltam o preconceito e a violência contra o negro no Brasil. No período da Primeira República, podem ser destacados os eventos relacionados com a Revolta da Vacina (1904), que se iniciou por causa da postura arbitrária das autoridades da época, as quais expulsaram os negros que habitavam no centro do Rio de Janeiro e impuseram a campanha de vacinação obrigatória.
Além disso, a Revolta da Chibata (1910) também foi fruto do racismo que existia na sociedade, o que se refletia no violento trato que o negro recebia na Marinha. Os negros, com poucas oportunidades de ascensão na corporação e vítimas de castigos físicos, rebelaram-se e foram duramente reprimidos pelo governo. Outro exemplo de como o racismo gerou violência foi na própria Guerra de Canudos (1896-1897).
Cabe o destaque também ao desenvolvimento do racismo científico no Brasil. Como o próprio nome sugere, o racismo científico apropriava-se de discursos e linguagens científicas para promover o racismo no Brasil. Esse discurso manifestou-se principalmente a partir da defesa do “aprimoramento da raça”, também conhecido como eugenia, que visava evitar a miscigenação e promover o embranquecimento da população a partir de ações organizadas pelo próprio Estado.
Desafios atuais
Atualmente, o racismo ainda é um grave problema da sociedade brasileira, pois, o negro, em grande parte, ainda ocupa uma posição marginalizada. A desigualdade racial existente no Brasil é evidenciada a partir de diversos estudos e estatísticas que comprovam que a violência contra populações negras é maior e que a disparidade salarial entre brancos e negros também é grande. A camada da população negra que tem acesso ao ensino superior também é menor em comparação com a população branca.
Claro que mudanças sensíveis nesses aspectos aconteceram no Brasil, principalmente no século XXI, mas o caminho a ser percorrido é bastante longo. Esse quadro de desigualdade, como mencionado, é uma herança do histórico racista do nosso país e também de décadas de ausência de políticas de inclusão.
Diversas pesquisas divulgadas recentemente mostram que a parcela da população negra com acesso a mais de 12 anos de estudo é de aproximadamente 12%, enquanto a da população branca é de 25,9% em dados de um estudo de 2015 |5|. Além disso, o acesso de lares negros a saneamento básico é de 55,3%, e o de lares brancos é de 71,9% em dados que também são de 2015 |6|.
Pode ser destacada também a questão da violência policial, a qual atinge principalmente os negros. Outro dado de uma pesquisa recente feita no Rio de Janeiro afirma que o medo de ser vítima de violência policial na cidade é maior entre os negros e habitantes de favelas|7|. Isso sem falar nos dados que mostram que a maioria da população carcerária brasileira é composta por negros.
Os exemplos que evidenciam a desigualdade racial no nosso país são muitos. Todos, de uma maneira ou outra, já presenciaram alguma situação que foi fruto desse preconceito racial. Os 130 anos da abolição fazem de 2018 um ano de intenso debate, que, inclusive, pode ser questionado nos vestibulares e Enem.
Pensando nisso, é importante estar por dentro dos principais acontecimentos que envolveram a abolição da escravatura, bem como dos eventos históricos que evidenciam a continuidade do racismo em nosso país. O debate é extenso, e o caminho para promover mais igualdade é longo e difícil.
|1| SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 300.
|2| Idem, p. 310.
|3| FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2013, p. 188.
|4| Idem, p. 189.
|5| Brasil mantém históricas desigualdades raciais e de gênero. Para acessar, clique aqui.
|6| O tamanho da desigualdade racial no Brasil em um gráfico. Para acessar, clique aqui.
|7| Medo da violência policial e de acusações injustas é maior entre a população negra do Rio. Para acessar, clique aqui.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
Artigo de Opinião - Consciência Negra e Religiosidade - Nei Lopes
Na década de 1880, o filósofo francês Louis Bergson elaborava e difundia o conceito de “força vital”, impulso criador que dá forma à vida no universo e consubstancia a evolução.
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
Crônicas do Dia - Para além da árvore do esquecimento - Gabriel Chalita
Navios negreiros trouxeram dores inconfessáveis. O último contato com a terra-mãe, a África, se dava no "portal do não retorno"
Crônica do Dia - O conselho do Baobá - Gabriel Chalita
Baobá começou por dizer que era bom estarem juntos
11/11/2017
O DIA
Rio - Lá estava ela, a árvore gigante, a que guarda segredos e sabedorias, a que enfrenta as intempéries e continua crescendo, a que não se apressa a não ser para não desperdiçar os tempos da infância. Sim, ela, a árvore, gosta das crianças. Ela as vê com raízes de esperança. Ela as aguarda com sombras preciosas para o tempo do aconchego. E com elas conversa.
sábado, 9 de setembro de 2017
Artigo de Opinião - Museu da Liberdade
ausência de políticas públicas inclusivas e decisões judiciais nitidamente preconceituosas demonstram que ainda não estamos libertos dessas práticas dos capitães do mato
09/09/2017
O DIA
domingo, 26 de março de 2017
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Crônicas do Dia - Saudades de Clementina
'Quelé, A voz da cor’ é uma homenagem não só à cantora, mas também a milhares de pessoas humildes que fazem a nossa cultura ganhar o mundo e nem sempre são reconhecidas por isso
03/02/2017
O DIA
Rio - Na falta de questões relevantes a resolver, cabeçudos intelectuais querem proibir que blocos toquem clássicos como ‘Cabeleira do Zezé’ e ‘Maria Sapatão’. Dizem eles que as letras são preconceituosas e induzem o povo a não aceitar as diferenças. Besteira.
As marchinhas apenas revelam um humor bobo, infantil, típico de outros carnavais. O erro não está nelas, mas no ser humano. Aliás, acho curioso, nesse contexto, que ninguém se manifeste contra excrescências que hoje emporcalham nossos ouvidos, como “Meu pau te ama”.
Por essas e por outras, preferi fugir do Facebook por uns dias e mergulhar em dois livros que ocuparam muito bem o meu tempo. O primeiro foi a biografia da Clementina de Jesus, uma das vozes mais legítimas da música brasileira. ‘Quelé, A voz da cor’ é uma homenagem não só à cantora, mas também a milhares de pessoas humildes que fazem a nossa cultura ganhar o mundo e nem sempre são reconhecidas por isso.
Clementina nasceu em 1901. Ganhava a vida como doméstica, até ser descoberta, aos 62 anos, numa festa na Glória. A partir daí, levou para os palcos um tesouro em forma de sambas, jongos, curimbas, partidos-altos e outros tantos ritmos esquecidos. Seu canto é inconfundível. E tem poder.
Baseado em pesquisa intensa e muitas fotos, ‘Quelé’ é assinado pelos jovens Raquel Munhoz, Luana Castro, Janaína Marquesini e Felipe Castro. Um trabalho impecável. Merece até um CD com os grandes momentos da intérprete.
A segunda sugestão é para quem tem nervos fortes — tanto que está impresso na capa: “Se você tem medo de avião, não leia este livro”. Trata-se de ‘Voo cego’, de Ivan Sant’Anna e Luciano Mangoni. É uma história real. E tensa. Em outubro de 1990, avião com 158 pessoas saiu de Bogotá, na Colômbia, rumo a Nova York. Seriam apenas cinco horas de voo, mas série de erros provocou uma tragédia que marcou a aviação.
É praticamente o roteiro de um filme de suspense. Ivan é mestre nessas narrativas, costurando emoção, curiosidades e informações técnicas. Essa habilidade tornou-o referência no país quando se trata de livros sobre acidentes, como em ‘Bateau mouche’ e ‘Caixa-preta’. Impossível desgrudar das páginas, por mais que a gente conheça o fim da conversa.
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‘Voo cego’, a propósito, já estava quase na gráfica quando houve a tragédia com o avião da Chape, em novembro. O livro acaba mostrando que erros se repetem à exaustão. Em ambos os acidentes, falta de comunicação e pane seca fizeram dezenas de vítimas.
Nelson Vasconcelos é jornalista
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quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Perseguido por décadas, o samba chega ao centenário amado pelos brasileiros
Francisco Edson Alves
– O preconceito contra o samba não se materializou somente na repressão policial das primeiras décadas. No fim dos anos 70, as emissoras de rádio e TV praticamente só tinham espaço para músicas americanas –
Um século da História atravessada do samba
Na introdução, a letra já diz que “o chefe da folia/pelo telefone manda avisar/que com alegria/não se questione para se brincar”. E é nesse ritmo que, há exatos cem anos, “Pelo telefone” é considerado o primeiro samba. Foi no dia 27 de novembro de 1916 que Ernesto dos Santos, o Donga, registrou a canção na Biblioteca Nacional. Mas questionamentos não faltaram, ao logo desse século. A obra até hoje é alvo de contestações diversas. E é essa a história “atravessada”.
sábado, 1 de outubro de 2016
Você sabia disso ? - 9 expressões populares com origens ligadas à Escravidão Negra no Brasil
A única foto que se tem notícia de um navio negreiro brasileiro / Foto: Marc Ferrez - Hypeness
Certas expressões populares se tornam de tal forma parte de nosso vocabulário e repertório que é como se sempre tivessem existido. Dor de cotovelo, chorar as pitangas, dar com os burros n’água, engolir um sapo ou salvo pelo gongo, tudo é dito como se fosse a coisa mais natural e normal do mundo.
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segunda-feira, 25 de julho de 2016
Você sabia disso ? - Palavras de origem africana no vocabulário brasileiro
Afora o Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Equatorial, que adotou o idioma como oficial recentemente. Timor-Leste é o único a ter o Português como língua oficial na Ásia. Nossos irmãos africanos fazem parte do PALOP, acrônimo que significa justamente Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Tudo obra de Portugal, responsável por essa bagunça chamada lusofonia (o conjunto dos países que possuem Português como língua oficial) que acabou dando seu jeito de seguir caminho. Mas, diferente do Brasil, onde línguas nativas ficaram restritas a suas tribos indígenas, nos países euro-colonizados da África, ainda se falam línguas nativas (nagô, ioruba, quicongo, umbundo e quimbundo). Só pra constar.
Rolou uma marmota por parte dos invasores que misturavam africanos de diversos países e culturas (sim, porque África é um extenso continente com 54 países culturalmente diversificados e não um país restrito de miséria como a grande mídia te acostumou a ver) com intenções de que com a confusão cultural, eles não pudessem se unir entre si para se rebelar. Até certo ponto, rolava, como ainda acontece, de haver desunião entre as classes menos abastadas da sociedade, mas isso não significou a morte por abandono dessas línguas. Ao contrário, a partir dali, surgiria uma cultura praticamente nova com os elementos que sobreviveram ao tráfico negreiro. Muita coisa de nossa cultura vem de África e dos africanos que foram sequestrados para cá (dos quais descendemos em maioria, já que no auge do crime da escravidão, a população negra era, como se manteve, maioria).
A linguagem é um dos pontos altos das coisas cotidianas que trazemos do continente-mãe. E como a cultura negra é a essência do Samba, ou seja, é a raiz do Samba, então, não falar necessariamente do samba musical não é fugir do foco, não é mesmo? Então, vamos a um dicionário improvisado que fui reunindo em diversos sites educacionais e culturais internet afora. Você vai notar que muitas dessas palavras, tu tá aí falando adoidado todo dia e nem sabe que vêm de dialetos línguas (valeu a dica, Niyi) africanas. Muito interessante, pois somos acostumados a não buscarmos o passado, como se o jornal da TV já bastasse pra gente estar informado. Mas é pegar num livro, num artigo de internet e a gente voa no conhecimento. Veja aí que nem só dentro do samba e do candomblé estão palavras africanas da diáspora. Use e abuse do CTRL+F e saia buscando suas palavras mais usadas e/ou preferidas, porque tem coisas muito interessantes nesse “dicionário” que eu montei na base do ‘cataqui/catali’. Rá! (Lembrando que como foi uma pesquisa de internet, algumas coisas podem não estar condizentes, mas eu atualizo conforme me avisam, ok?).
A
ABADÁ – Túnica folgada e comprida. Atualmente, no Brasil, é o nome dado a uma camisa ou camiseta usada pelos integrantes de blocos e trios elétricos carnavalescos.
ABARÁ – Quitute semelhante ao acarajé. A massa feita de feijão fradinho e os temperos são os mesmos. Os bolinhos envoltos em folhas de bananeira são cozidos em banho-maria.
ACARÁ – Peixe de esqueleto ósseo.
ACARAJÉ – Bolinho feito de massa de feijão-fradinho frito no azeite de dendê e servido com camarões secos.
AFOXÉ – Dança, semelhante a um cortejo real, que desfila durante o carnaval e em cerimônias religiosas.
AGOGÔ – Instrumento musical formado por duas (ou três) campânulas ocas de ferro.
ALUÁ – Bebida feita de milho, arroz cozido ou com cascas de abacaxi.
AMUO – sm. Mau humor passageiro, revelado no aspecto, gestos ou silêncio; arrufo, calundu.
ANGOLA – Nome dado a uma das mais conhecidas modalidades do jogo de capoeira e, também, a um dos cinco países africanos de língua portuguesa.
ANGU – Massa de farinha de milho ou de mandioca. Angu-de-caroço: Coisa complicada.
AXÉ – Saudação; força vital e espiritual.
AZOEIRA – Barulhada, zoeira, bagunça.
B
BABÁ – Ama-seca; pessoa que cuida de crianças em geral; pai-de-santo; a origem é controvertida sendo, para alguns estudiosos originária do quimbundo, e para outros do idioma iorubá.
BABACA – Tolo; boboca.
BAGUNÇA – Baderna, desordem.
BALANGANDÃS – Enfeites,originalmente de prata ou de ouro, usados em dias de festa.
BAMBAMBÃ ou BAMBA – Maioral, bom em quase tudo que faz.
BAMBERÊ – Cantiga de ninar entoada por negras velhas da Região Amazônica. (“Bamberê, bamberá / criança que chora quer mamá / Moça que namora quer casá / Galinha que canta quer botá / Bamberê, bamberá)
BAMBOLÊ – Aro de plástico ou metal usado como brinquedo.
BANCAR – Fazer o papel de; fazer-se de.
BANGÜÊ – Padiola de cipós trançados na qual se leva o bagaço da cana.
BANGUELA – Desdentado. Os escravos trazidos do porto de Benguela, em Angola, costumavam limar ou arrancar os dentes superiores.
BANGULÊ – Dança de negros ao som da puíta, palma e sapateados.
BANTO – Nome do grupo de idiomas africanos em que a flexão se faz por prefixos.
BANTOS – Povos trazidos do sul da África, principalmente de Angola e Moçambique, que espalharam sua cultura, idiomas e modos.
BANZAR – Meditar, matutar.
BANZÉ – Confusão.
BANZO – Tristeza fatal que abatia os escravizados com saudades de sua terra natal.
BAOBÁ – Árvore de tronco enorme, reverenciada por seus poderes mágicos.
BATUQUE – Dança com sapateado e palmas, com som de instrumentos de percussão. É uma variante das rodas de capoeira, praticada pelos negros trazidos de Angola para o interior da Bahia. No sul do Brasil, é sinônimo de rituais religiosos e, no interior do Pará, é uma espécie de samba.
BERIMBAU – Instrumento musical, composto de um arco de madeira com uma corda de arame vibrada por uma vareta, tendo uma cabaça oca como caixa de ressonância.
BIRITA – Cachaça; gole de cachaça.
BITELO – Grande; de tamanho exagerado.
BOBÓ – Um tipo de purê feito de aipim ou inhame.
BOCA-DE-PITO – Pitada; tragada em cigarro, charuto ou cachimbo; disposição para fumar provocada pela ingestão de café ou bebida alcoólica.
BOMBA – Certo doce de forma cilíndrica ou esférica feito de massa cozida e glaçado na parte superior.
BOROCOXÔ – Molenga. Entristecido.
BRUACA – Espécie de mala ou sacola que se levava no lombo de animais.
BUGIGANGA – Objeto de pouco ou nenhum valor ou utilidade.
BUNDA – Nádegas, na língua falada pelos bundos de Angola.
BÚZIOS – Conchas marinhas usadas antigamente na África como moedas e, em nossos dias, em cerimônias religiosas e em jogos de previsão.
C
CAÇAMBA – Balde para tirar água de um poço; local onde se depositam detritos.
CACHAÇA – Bebida alcoólica; pinga; durante muito tempo, os negros escravizados, banhados em suor, giravam manualmente as rodas dos engenhos de açúcar e, do vapor originário da fervura do caldo da cana, escorria pela parede e pingava do teto (daí o porque o nome “pinga”)a bebida de sabor clássico, que ardia nos olhos e foi batizada de “pinga”.
CACHIMBO – Tubo de fumar, com um lugar escavado na ponta para se colocar o tabaco.
CACIMBA – Poço ao ar livre, onde se retém a água da chuva para diversas finalidades. Cova que recolhe água de terrenos pantanosos.
CAÇULA – O mais novo.
CACULÉ – Cidade da Bahia.
CACUNDA – Corcunda. Corcova. Costas.
CAFIFE – Diz-se de pessoa que dá azar.
CAFOFO – Lugar que serve para guardar objetos usados; nos dias atuais, serve também para designar moradia pequena, mas aconchegante.
CAFUÁ – Esconderijo. Casebre.
CAFUCA – Centro; esconderijo.
CAFUCHE – Irmão do Zumbi.
CAFUCHI – Serra.
CAFUNDÓ – Lugar afastado, de acesso difícil.
CAFUNÉ – Coçar a cabeça de alguém.
CAFUNGÁ – Pastor de gado.
CAFUZO – Mestiço de negro e índio.
CALANGO – Lagarto. Dança afro-brasileira.
CALOMBO – Inchaço. Quisto, doença.
CALUMBÁ – Planta
CALUNDU – sm. Mau humor; amuo.
CALUNGA – sf. 1. Coisa qualquer de tamanho reduzido. 2. Boneco pequeno. O mar; boneca carregada pelas damas do paço nos desfiles de reis e rainhas dos Maracatus de nação em Pernambuco; símbolo da realeza e do poder dos ancestrais.
CAMUNDONGO – Rato pequeno.
CANDOMBLÉ – Casas ou terreiros de diferentes nações – Angola, Congo, Jêje, Nagô, Ketu e Ijexá – onde são praticados os rituais trazidos da África. Esses cultos são dirigidos por um Babalorixá (pai-de-santo) ou por uma Ialorixá (mãe-de-santo). Um dos mais tradicionais é o de Gantois,em Salvador, na Bahia. No passado, o candomblé foi muito perseguido.
CANDONGA – Intriga, mexerico.
CANGA – Tecido com que se envolve o corpo. Peça de madeira colocada no lombo dos animais.
CANJERÊ – Feitiço, mandinga.
CANJICA – Papa de milho verde ralado.
CAPANGA – Guarda-costas. Bolsa pequena que se leva a tiracolo.
CAPENGA – Manco. Com andar de bêbado.
CAPOEIRA – Jogo de corpo, agilidade e arte, que usa técnicas de ataque e de defesa com os pés e as mãos. As rodas são acompanhadas por palmas, pandeiros, chocalhos, berimbaus e cânticos de marcação.
CARIMBO – Instrumento de borracha. Marca. Sinal.
Carimbó – Tipo de dança afro-brasileira originária da região norte do Brasil.
CARURU – Iguaria da culinária afro-brasileira, feita com folhas, quiabos e camarões secos.
CASSANGUE – Grupo de negros da África.
CATIMBA – Manha. Astúcia.
CATIMBAU – Prática de feitiçaria.
CATINGA – Fedor; mau cheiro.
CATITA – Pequeno, baixo, miúdo. Nome dado no Nordeste a um ratinho novo.
CATUNDA – Sertão.
CATUPÉ – Cortejo afro-mineiro. As fardas de seus integrantes são enfeitadas de fitas, sendo que dançam e cantam acompanhados por instrumentos de percussão.
CAXAMBU – Grande tambor usado na dança harmônica.
CAXANGÁ – Jogo praticado em círculo. Os versos de uma velha cantiga, baseada nessa brincadeira, são bem populares.
CAXIXÍ – Chocalho pequeno feito de palha.
CAXUMBA – Inflamação das glândulas salivares.
CAZUMBÁ – Negro velho, personagem do Boi-Bumbá paraense.
CAZUMBI – Alma penada.
CHILIQUE – Desmaiar. “Ter um troço”.
CHUCHU – Fruto comestível.
COCHILAR – Breve soneca. Sono leve.
CONGADAS ou CONGOS – Danças dramáticas com enredo e personagens característicos, como reis, rainhas, príncipes, princesas, embaixadores, chefes de guerra e guerreiros, que se despedem, no final das apresentações, cantando.
COQUE – Bater na cabeça com o nó dos dedos. Tipo de penteado onde o cabelo é todo preso num arranjo único no alto da cabeça; há uma corrente que acredita ser o nome proveniente do inglês “cock”, que significa galo, e outra que associa o nome a barulho que é feito e também ao “galo” na cabeça.
CUBATA – Choça de pretos; senzala. Palhoça
CUÍCA – Instrumento musical que emite um ronco peculiar.
CUMBA – Forte, valente.
CUMBE – Povoação em Angola.
D
DENDÊ – Fruto de uma palmeira (dendezeiro), de onde é extraído o azeite.
DENGO – Gesto de carinho. Manha, birra.
DENGOSO – Manhoso. Chorão.
DIAMBA – Um tipo de erva alucinógena.
E
EBÓ – Oferenda feita aos orixás para se resolver os mais diferentes desejos e problemas.
EFÓ – espécie de guisado de camarões e ervas, temperado com azeite de dendê e pimenta.
EMBALAR – Acalentar; balançar; fazer adormecer.
EMPACAR – Não continuar. Não prosseguir. Diz-se quando o animal firma teimosamente as patas para não prosseguir viagem.
ENCABULAR – Envergonhar-se. Ficar vexado por algum motivo.
ENGABELAR – Enganar. Iludir jeitosamente. Trapacear. Engodo. Embuste.
ESCANGALHAR – Desordem. Confusão. Desmantelo. Dano causado por estrago.
ESPANDONGADO – Desajeitado. Defeituoso. Arruinado. Desarrumado. Relaxado. Descomedido. Arreliado.
EXU – Divindade que é considerada o intermediário entre o Céu e a Terra. Aquele que está em todos os lugares. Dono das encruzilhadas. Representa a ambivalência humana, os comportamentos e desejos contraditórios.
F
FAROFA – Mistura de farinha com água, azeite ou gordura.
FOFOCA – Intriga. Mexerico
FUÁ – Briga. Rolo. Desordem. Intriga. Diz-se também do eqüino arisco.
FUBÁ: Farinha de milho.
FULEIRO – Reles. Ordinário. Sem Valor. Farrista.
FULO: Irritado. Zangado.
FURDUNCIO – Também pronunciado e escrito como “Forduncio”, significa festança popular. Divertir-se com alarido. Barulho. Desordem.
FUNGAR – Fazer ruído com o nariz ao inspirar o ar. Assoar o nariz. Coriza na fossa nasal. Fuçar.
FUTUM – Mau cheiro. Fedor. Peixe morto na superfície da água.
FUXICO – Falar mal dos outros. Artesanato popular feito com pedaços de panos. Costurar superficialmente. Alinhavar. Amarrotar.
FUZARCA – Farra. Desordem. Bagunça.
FUZUÊ – Festa. Confusão. Turbilhão nas águas de um rio.
G
GALALAU – Pessoa muito alta.
GAMBÉ – Designação de um policial na gíria dos travestis, menores e delinqüentes em geral.
GANDAIA – Farra. Bagunça. Vadiagem. Ofício de trapeiro. Pessoa sem préstimo. Inerte.
GANGA ZUMBA – Título dado aos chefes guerreiros. Um dos mais famosos líderes da confederação de Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas.
GANZÁ – Chocalho.
GARAPA – Caldo da cana. Bebida formada pela mistura de mel-açúcar-água.
GERINGONÇA – Coisa malfeita e de duração precária. Objeto ou coisa estranhos cujo nome e finalidade não se conhece.Ginga – Bamboleio. Balanço com o corpo. Dançar com o corpo ao som de uma música ou instrumento. Movimento corporal na capoeira, na dança e no futebol. Sacerdotisa do culto Omolocô. Remo que se usa para fazer a embarcação balançar.
GINGA – Movimento corporal na capoeira, na dança e no futebol.
GOGÓ – Pomo-de-Adão. Garganta. Laringe
GONGUÊ – Instrumento musical semelhante ao agogô.
GOROROBA – Comida feita com restos de diversos alimentos. Diz-se também do indivíduo lento, molengão ou covarde.
GRIGRI – Amuleto que protege o seu possuidor.
GUANDU – O mesmo que andu (fruto do anduzeiro), ou arbusto de flores amarelas, tipo de feijäo comestível.
GUIMBA – Resto ou ponta do cigarro.
H
HÃ – Interjeição de surpresa, espanto ou de admiração entre os Iorubás. Manifestação de incompreensão. Não entendimento.
I
IAIÁ – Tratamento dado às moças e meninas na época da escravidão. Na Luanda antiga, era o tratamento respeitoso que as filhas e netas dos escravos davam às patroas.
IEMANJÁ: deusa africana, a mãe d’água dos iorubanos.
IMPALA – Espécie de antílope africano. O nome batizou também um modelo de automóvel da Chevrolet.
IMPLICAR – Provocar. Amolar. Intrometer. Contender. (Atualização, a etimologia da palavra vem do Latim).
INHAME – Designação comum de um tipo de tubérculo comestível menor que a mandioca; homem de corpo defeituoso. Coisa ou objeto disforme ou deformada.
IORUBANO – Habitante ou natural de Ioruba (África).
J
JABÁ – Suborno oferecido a programador de emissora de rádio ou televisão para que inclua na programação determinada obra musical. Certo tipo de abóbora.
JABACULÊ – Gorgeta. Propina. Dinheiro.
JAGUNÇO – Capanga. Combatente das forças de Antonio Conselheiro na Guerra de Canudos. Cangaceiro.
JEGUEDÊ – Dança negra.
JERERÊ – Nome dado ao cigarro de maconha. Faísca. Centelha.
JERIBATA – Álcool; aguardente.
JILÓ – Fruto verde de gosto amargo.
JONGO – Dança tradicional afro-brasileira.
L
LAMBADA – Golpe dado com o chicote, tabica ou rebenque. Copo ou gole de bebida alcoólica. Dança de salão de origem amazônica. Significa bater, castigar, ferir, atingir com golpe ou pancada.
LAMBANÇA – Desordem. Sujeira. Serviço malfeito. Embuste. Trapaça em conversa ou jogo.
LAMBÃO – Indivíduo que não sabe lidar com as coisas sem sujar-se.
LAMBUJA – Vantagem que um jogador concede ao parceiro ou rival. Aquilo que se ganha ou dá além do combinado.
LAPADA – Lambada. Bofetada. Espécie de pá semelhante ao remo.
LARICA – Apetite desenfreado após a ingestão da maconha. Dificuldade. Aperto. Apuro.
LENGA-LENGA – Conversa, narrativa ou discurso enfadonho.
LERO-LERO – Conversa fiada. Palavreado vazio.
LIBAMBO – Bêbado (pessoas que se alteram por causa da bebida).
LUNDU – Primitivamente dança africana.
M
MAASSAGANA – Confluência, junção de rios em Angola.
MACULELÊ – Folguedo popular de origem baiana, misto de jogo de dança com bastões ou facões.
MACUMBA – Nome pejorativo dado aos cultos afro-brasileiros. Audaz. Ousado. Certo tipo de reco-reco. Cada uma das filhas de santo nos terreiros de origem Banta. Antigo jogo de azar. Antiga denominação que se dava à maconha.
MACUMBEIRO – adj. sm. Diz-se de, ou praticante da macumba. .
MALUCO – Alienado mental. Endoidecido.
MALUNGO – Título que os escravos africanos davam aos que tinham vindo no mesmo navio; irmão de criação.
MAMONA – Fruto da família das esforbiáceas. Rícino.
MAMULENGO – Fantoche. Teatro de fantoches.
MANDINGA – Bruxaria. Feitiço. Talismã. Qualidade de jogo de capoeira.
MANGAR – Zombar. Caçoar.
MANGUE – Comunidade geográfica localizada em áreas onde o solo é formado por uma lama escura e mole. Terreno lamacento.
MANHA – Choro infantil sem causa. Birra. Malícia. Ardil. Artimanha. Habilidade manual.
MARACATU – sm. Oriundo da região do Estado de Pernambuco (PE), é um cortejo carnavalesco que segue uma mulher que, num bastão, leva uma bonequinha enfeitada, a calunga. 2. Certo tipo de dança afro-brasileira. Em Recife/PE, os maracatus de nação representam embaixadas africanas com todo o séquito real.
MARACUTAIA – Trapaça. Embuste. Engodo. Golpe.
MARAFA(O) – Vida desregrada. Licenciosa. Cachaça. Vinho. Diz-se também do tipo de vida, por exemplo: “Viver na marafa…”, viver entregue ao vício da bebida e da vadiagem.
MANO – Tratamento respeitoso entre os antigos sambistas cariocas (“Mano” Elói, “mano” Décio etc.). Irmão.
MARIMBA– Peixe do mar. 2. Artifício de amarrar uma linha a algum objeto (pedra, garrafa, etc) para resgatar pipas onde não se alcança com as próprias mãos (RJ).
MARIMBONDO – Certo tipo de vespa.
MATUTO – Indivíduo que vive no mato. Na roça. Pessoa ignorante e ingênua.
MAXIXE – Fruto do maxixeiro. Certo tipo de chuchu espinhoso. Dança brasileira de salão.
MIÇANGA – Conta de vidro miúda. Ornatos feitos com esse tipo de conta. Colar.
MILONGA – Desculpas descabidas. Manhas. Dengues. Mexericos. Intrigas. Feitiço. Sortilégio Bruxedo. 2. Música e dança de origem platina.
MINGAU – Papa de farinha de cereais com leite, açúcar e outros ingredientes. Em língua oeste-africana, era um tipo de milho cozido em água e sal. Na linguagem Banta, é o ato de molhar o pão no pirão ou molho. (Retificação: Esta palavra vem do Tupi).
MOCAMBO – Cabana. Palhoça. Habitação miserável. Couto de escravos fugidos na floresta.
MOCHILA – Alforge. Bornal que se leva às costas.
MOCORONGO – Mulato escuro. Caipira. Indivíduo natural de Santarém/PA. Palhaço da folia de reis. Mosquito transmissor do impaludismo.
MOCOTÓ – Pata de bovino utilizada como alimento. Tornozelo.
MOLAMBO – Trapo. Pano velho rasgado ou sujo. Roupa esfarrapada. Indivíduo fraco e sem caráter. Corpo velho, cansado, moído.
MOLENGA – Mole. Indolente. Preguiçoso. Medroso e covarde.
MOLEQUE – Negrinho. Indivíduo irresponsável. Canalha. Patife.
MONDONGO – Indivíduo sujo e desmazelado. Boneco de pano sem governo.
MONGO – Sujeito bobo. Moleirão. Débil mental.
MOQUECA – Guisado de carne ou peixe tradicional da culinária afro-brasileira.
MORINGA – Garrafão ou bilha de barro para conter e refrescar água potável. Cântaro.
MUAMBA – Cesto ou canastra para transporte de mercadorias. Furto de mercadorias nos portos. Contrabando. Negócio escuso. Do Quimbundo: Carga.
MUCAMA – Escrava doméstica. Concubina. Escrava que era amante do seu senhor.
MULUNGA – Árvore.
MUNGUZÁ – Iguaria feita de grãos de milho cozido, em caldo açucarado, às vezes com leite de coco ou de gado. O mesmo que canjica.
MUQUIFO – Lugar sujo e em desordem. Palavra ligada ao Kicongo, significa também latrina. Casebre. Choupana
MURUNDU – Montanha ou monte; montículo; o mesmo que montão.
MUTAMBA – Árvore.
MUTRETA – Trapaça. Confusão.
MUVUCA – Confusão. Algazarra.
MUXIBA – Pelanca. Pedaços de carne magra. Retalhos de carne que se dá aos cães. Mulher feia. Bruxa. Seios flácidos de mulher.
MUXINGA – Açoite; bordoada.
MUXONGO – Beijo; carícia.
N
NENÊ – Criança recém-nascida ou de poucos meses. Provém do Umbundo “nene”, que quer dizer pedacinho, cisco.
O
ODARA – Bom. Bonito. Limpo. Branco. Alvo.
OGUM ou OGUNDELÊ – Deus das lutas e das guerras.
ORIXÁ– Divindade de religiões afro-brasileiras. Divindade secundária do culto jejênago, medianeira que transmite súplicas dos devotos suprema; divindade desse culto; ídolo africano.
P
PAMONHA – Certo tipo de iguaria derivada do milho. Diz-se também da pessoa molenga. Inerte. Desajeitada. Preguiçosa. Lenta.
PATOTA – Turma. Grupo.
PENDENGA – Litígio. Rixa. Contenda.
PERRENGUE – Dificuldade ou aperto financeiro. Diz-se também da pessoa fraca. Covarde. Animal imprestável.
PIMBA – Pênis de menino
PINDAÍBA – Falta de dinheiro. Miséria feia. (Atualização: Esta palavra é de origem Tupi).
PINGA – Aguardente extraída do caldo da cana.
PIRÃO – Papa grossa de farinha de mandioca. (Atualização: Esta palavra é de origem Tupi).
PITO – Cachimbo. Cigarro. Repreensão. Censura. Dar bronca.
PITOCO – Objeto ou utensílio o qual já falta uma parte essencial. Parte amputada ou a restante no corpo humano.
PUITA: corpo pesado usado nas embarcações de pesca em vez fateixa.
Q
QUEIMANA – Iguaria nordestina feita de gergelim .
Quenga – Guisado de quiabo com galinha. Mulher prostituída. Meretriz.
QUENGO – Cabeça. Região próxima da nuca.
QUIABO – Fruto de forma piramidal, verde e peludo.
QUIBEBE – Papa de abóbora ou de banana.
QUIBUNGO – Invocado nas cantigas de ninar, o mesmo que cuca, festa dançante dos negros.
QUILOMBO – Valhacouto de escravos fugidos. 2. Quer dizer acampamento ou fortaleza. Folguedo popular alagoano em forma de dança dramática.
QUIMBEBÉ – Bebida de milho fermentado.
QUIMBEMBE – Casa rústica, rancho de palha.
QUIMGOMBÔ – Quiabo.
QUINDIM – Doce feito com a gema do ovo, côco e açúcar. Na Bahia significa também meiguice, dengo, encanto, carinho.
QUITUTE: Comida fina, iguaria delicada. Iguaria. Acepipe. Canapé.
QUIZÍL(I)A – Antipatia ou aborrecimento. Ojeriza. Aversão. Implicância.
QUIZUMBA – Confusão. Briga.
R
REQUENGUELA – Engelhado. Encolhido. Tímido. Fraco. Sem substância.
S
SAMBA – Dança cantada de origem africana de compasso binário (da língua de Luanda, semba = umbigada). Nome genérico de um ritmo de dança afro-brasileiro.
SAPECA – Diz-se de moça muito namoradeira ou assanhada. Diz-se também da criança muito arteira.
SARAPATEL – Guisado feito com sangue e miúdos de certos animais, especialmente o porco.
SARARÁ – Alourado. Arruivado.
SARAVÁ – Palavra usada como saudação nos cultos afro-brasileiros, significa “salve”.
SENZALA: alojamento dos escravos.
SERELEPE – Vivo. Buliçoso. Astuto. Esperto.
SOBA – Chefe de trigo africana.
SONGAMONGA – Pessoa dissimulada. Sonsa. Débil. Boba.
SOVA – Dar pancadas com a mão. Espancar.
T
TAGARELA – Pessoa que fala muito e à toa.
TANGA – Pano que cobre desde o ventre até as coxas.
TANGO – Dança argentina popularizada no Brasil, proveniente do espanhol “tango” e do Kimbundo “tangu” (pernada), que era uma forma de bailado de negros ao som de tambores e outros instrumentos.
TRAMBIQUE – Negócio fraudulento. Vigarice. Logro.
TRIBUFÚ – Maltrapilho. Negro feio.
TU – Diz-se do negro tido como sendo bruto. Boçal. Grosseiro. Oposto ao negro bom e passivo; “…Este samba/que é misto de maracatú/é samba de preto velho/ samba de preto TÚ…”; Pode ser também uma redução de Bantú.
TUNDA – Surra. Sova. Crítica severa.
TUTANO – Substância mole e gordurosa no interior dos ossos.
TUTU – Maioral. Manda-chuva. Indivíduo valente e brigão. Feijão cozido e refogado ao qual se vai adicionando farinha até dar a consistência de pirão. Dinheiro. Grana.Suborno. 2. Iguaria de carne de porco salgada, toicinho, feijão e farinha de mandioca.
U
URUCUBACA – Azar. Má sorte. Diz-se também de uma praga rogada por pessoa inimiga.
URUCUNGO – sm. Berimbau (instrumento musical).
V
VATAPÁ – sm. Da culinária (comida), iguaria de origem africana, à base de peixe ou galinha, com camarão seco, amendoim etc., temperada com azeite de dendê e pimenta.
X
XARÁ – Pessoa que tem o mesmo nome que outra.
XENDENGUE: magro, franzino.
XEPA – As últimas mercadorias vendidas nas feiras livres, mais baratas e de qualidade inferior. Sobras. Coisa inferior.
XODÓ – Amor. Sentimento profundo que se demonstra por algo ou alguém. Carinho.
Z
Zabumba – Tambor grande. Bumbo.
ZAMBI ou ZAMBETA: cambaio, torto das pernas. zumbi: sm. Fantasma que vaga pela noite, segundo lenda afro-brasileira. Nota: Nome do herói nacional Zumbi dos Palmares.
ZANGAR – Causar zanga (de zangado). Mau humor. Birra. Irritação. Diz-se também de coisa estragada ou azeda.
ZANZAR – Andar à toa. Sem destino.
ZIQUIZIRA – Doença ou mal-estar cujo nome não se conhece.
ZOEIRA – Conhece-se também por Azueira. Algazarra. Falatório.
ZOMBAR – Tratar com descaso. Escarnecer. Gracejar.
ZUNZUM – Boatos. Cochichos. Mexericos.
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