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terça-feira, 30 de junho de 2020

Resenha - Febre da Selva - Felipe Machado

Em seu novo filme, “Destacamento Blood”, o diretor Spike Lee usa a guerra do Vietnã para reforçar seu contundente discurso contra o racismo

No início dos anos 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, o músico e ativista Woody Guthrie trazia em seu violão a seguinte inscrição: “essa máquina mata fascistas”. Nos dias de hoje, Spike Lee poderia trazer em sua câmera uma mensagem semelhante: “essa máquina mata racistas”.

Nenhum cineasta é tão relevante hoje quanto Spike Lee. Os protestos contra o racismo que se espalharam pelo mundo desde o assassinato de George Floyd aumentaram a expectativa em torno do novo filme do cineasta negro mais importante de todos os tempos. E Lee não decepciona: desde “Faça a Coisa Certa”, de 1989, ele constrói uma carreira artística sólida e coerente baseada em um discurso contundente contra o racismo. Nesse épico de guerra com duras horas e meia de duração não é diferente. O filme, que estreia na sexta-feira 12, na Netflix, conta a história de quatro veteranos americanos que voltam ao Vietnã atual em busca dos restos mortais de um antigo companheiro e um tesouro enterrado na época da guerra. A premissa é perfeita para Spike Lee criticar a desigualdade racial e o modo como o conflito americano no sudeste asiático foi mostrado pelo cinema. Nomes como Rambo e Chuck Norris, típicos estereótipos dos veteranos do Vietnã, são abertamente ridicularizados. Há uma ironia mais sutil em relação à própria identidade do esquadrão que dá nome ao filme, “Bloods”: é o mesmo nome da principal gangue de Los Angeles. Na metáfora com a guerra urbana, a população negra se enfrenta entre si e se torna o próprio inimigo.

No Vietnã atual, onde se passa o filme, o fantasma da “guerra dos americanos” está em toda a parte, mas escondido na hipocrisia que aos poucos é escancarada pela narrativa. Em um bar, o telão exibe “Apocalypse Now”, clássico de Francis Ford Coppola sobre a guerra do Vietnã. Não é uma piada gratuita: é uma alfinetada nos filmes sobre o conflito, que costumam realçar apenas o valor dos heróis brancos. Em outra cena, quando os veteranos passeiam de barco por um rio, há uma trilha incipiente da “Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner, outra citação irônica a Coppola. Aqui, porém, não há nenhum traço do glamour apresentado pelo personagem de Robert Duvall, que “ama o cheiro de Napalm pela manhã”. Os personagens de Lee não amam nada naquele pedaço esquecido do mundo, a não ser uns aos outros.

A trilha sonora é um personagem à parte. A combinação da orquestra de Terence Blanchard com as canções de Marvin Gaye imprimem à produção um caráter nostálgico e emotivo. Difícil dizer o que é mais impactante, se são as cenas de ação — ao melhor estilo Tarantino— ou o elenco. Clarke Peters (Otis), Norm Lewis (Eddie) e Isiah Whitlock, Jr. (Melvin) estão bem, mas Delroy Lindo (Paul) está excepcional. A transformação de seu personagem ao longo do filme remete ao Rei Lear, de Shakespeare — a loucura se infiltrando pouco a pouco no vácuo deixado pela razão. Nem o carinho entre os ex-companheiros salvam Paul de seu destino. Spike Lee aprimorou sua linguagem e se torna um cineasta ainda mais autoral a cada filme. Em meio à ficção, fica à vontade para inserir a foto de uma vítima real da guerra ou diálogos que sustentam sua visão de mundo. “Lutamos uma guerra imoral que não era nossa, e por direitos que não tínhamos”, afirma Paul. O conflito no Vietnã acabou em 1975, mas a batalha contra o racismo segue viva nos corações e mentes de todo o mundo.

Revista IstoÉ - 17 de junho de 2020 

domingo, 9 de junho de 2019

Você sabia disso ? - "Aladdin" e a febre da live - action


A técnica que mistura atores reais e animação, criada pela Disney, virou a saída para lotar as salas de exibição diante da concorrência das séries de televisão e dos videogames

terça-feira, 1 de maio de 2018

Crônicas do Dia - Diálogos com Ivone e Nelson - Por Ricardo Cravo Albin, Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

Rio - Em espaço exíguo de uma semana, nós, os que nos curvamos com paixão frente aos trabalhadores-anjos (como chamo aqueles artistas capazes de irradiar criação e arte), fomos abatidos duplamente. As mortes de Dona Ivone Lara e Nelson Pereira dos Santos me atingiram severamente. Ambos me foram muito próximos ao coração por mais de cinco décadas. E íntimos do meu espírito, do meu gozo estético, do meu querer bem.

domingo, 4 de março de 2018

Crônicas do Dia - ' Gabriel e a montanha'

Rio - Levado pela minha esposa, que é prima do Gabriel Buchmann, fui assistir ao filme que focaliza as suas aventuras na África, passando por países como Zâmbia e Malawi, entre outros. Foi uma viagem de quase um ano, com cenas que nada ficam a dever aos melhores filmes dos últimos tempos, inclusive as que se referem ao seu tórrido romance com a jovem Cris.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Resenhando - Marcados para morrer

Há filmes que, pela importância do tema, justificam alguns excessos. No caso de “Martírio”, a marca de 160 minutos constitui um provável empecilho para chegar ao circuito comercial e ao espectador em busca de diversão. É uma pena, porque sua duração é plenamente justificada e necessária, sobretudo quando um candidato à Presidência da República já antecipa uma de suas plataformas: não demarcará um centímetro de terras indígenas, ou seja, sem meias-palavras, ele (e muitos outros) defende um plano de extermínio de seres humanos, com sua história, religião e cultura.

Com direção do documentarista e indigenista Vincent Carelli — realizador de “Corumbiara” e criador do projeto Vídeo nas Aldeias, com o qual deu equipamentos, imagens e voz aos “selvagens” deste país —, “Martírio” oferece um quadro político e histórico impactante.

De um lado, sobreviventes da tribo guarani kaiowá, em marcha pela retomada de seus territórios no Mato Grosso do Sul. Um movimento iniciado há 20 anos, filmado por Carelli e interrompido por massacres, mortes e suicídios. O diretor retomou o projeto (em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita Almeida) e ouviu as várias partes da questão. De um lado, sobreviventes maltrapilhos, muitos sem dentes ou sem visão, alguns “armados” com pedaços de pau e dispostos a morrer (e tantos morreram) pelo direito de existirem como povo e cultura, viverem da natureza, abrindo mão de qualquer cesta básica. Em um país com a dimensão do Brasil, difícil imaginar que tamanha ambição fosse travar a economia nacional protegida com tanto zelo pelas autoridades.

Carelli também é generoso com o outro lado, e ouviu, com extrema paciência, representantes do agronegócio, defendidos por caciques da bancada ruralista no Congresso Nacional, que clamam pela paz através do extermínio desses “invasores de terra contrários ao progresso o país”. Pois é.

Muitas vezes, as falas dos índios não têm tradução. E não é necessário. A indignação, a revolta, a tristeza, e também a dignidade e a resistência estão expressas em cada depoimento de velhos e jovens — e no olhar das crianças.

Para fundamentar seu manifesto explícito sobre uma injustiça histórica, Carelli recupera trechos de filmes e cinejornais e retrocede à Guerra do Paraguai para contar avanços e retrocessos da convivência entre índios e brancos, até chegar a Brasília nos dias atuais. Sua intenção (ou ilusão) é contribuir para modificar um final tristemente previsível: aqueles índios estão marcados para morrer. 

Jornal O Globo

domingo, 25 de setembro de 2016

Resenhando - Feridas abertas



Filme sobre escravização de crianças negras nos anos 1930 remete à permanência do racismo no Brasil
Eduardo Seabra

terça-feira, 7 de junho de 2016

Resenhando - Que horas ela volta? - um filme para se pensar a estratificação social no Brasil

“Que horas ela volta?”: um filme para se pensar a estratificação social no Brasil

Se existe algo que o cinema brasileiro é pródigo em apresentar, é justamente sua capacidade de ser uma janela, um espelho ou uma lente para nossa realidade. Nesse aspecto, o longa-metragem Que horas ela volta? (Brasil, 2015), de Anna Muylaert, brilha. Em uma trama centrada nas interações familiares, no serviço doméstico e nas relações de poder do âmbito privado, o filme gira em torno de três mulheres que muito nos dizem não apenas sobre as/os brasileiras/os deste país, como também sobre as desigualdades e hierarquias persistentes em nossa sociedade.

Crônica do dia - Charles Chaplin - Manuel Bandeira


Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fernando Pessoa e o Cinema

PEDRO JOSÉ BARROS, DE LISBOA


Se você pensa que a obra de Fernando Pessoa já não pode surpreendê-lo, ai, pense de novo. Patricio Ferrari e Claudia J. Fischer mergulharam no oceânico espólio do escritor português e trouxeram à tona documentos que comprovam o interesse de Pessoa pela sétima arte. Essa ligação não seria a de um cinéfilo, mas é visível na poesia, na correspondência, em apontamentos soltos e na escrita de argumentos.
O livro Argumentos para Filmes (lançado em Portugal pelo selo Ática, do grupo Babel), que os editores dão a conhecer nesta entrevista à CULT, reúne todo esse material e mostra também a faceta comercial pessoana, latente em projetos como a empresa Cosmopolis e a produtora Ecce Film. Pessoa queria afirmar Portugal, mas também não se esqueceu da “propaganda da boa literatura e arte brasileira na Europa”.