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Este Blog é uma ferramenta de trabalho do Projeto Espaço de Cultura desenvolvido e ministrado pelo professor José Henrique da Silva

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Personalidades - Desmond Tutu


Ao longo da sua vida, o antigo arcebispo Desmond Tutu defendeu os pobres e oprimidos e combateu pacificamente o regime de segregação racial apartheid.
"Seremos livres! Todos nós! Pretos e brancos, juntos," gritava, em abril de 1993, para a multidão de mais de 100 mil pessoas, no funeral de Chris Hani, o líder do braço armado do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês) e forte opositor ao regime do apartheid que tinha sido assassinado.
A África do Sul assemelhava-se, na época, a um barril de pólvora. Depois de décadas de opressão da população negra, o Presidente Frederik Willem de Klerk anunciou reformas em 1990 e alguns presos políticos, como Nelson Mandela, foram libertados.
Em momentos difíceis da história do país, Desmond Tutu demonstrou coragem para seguir o ideal de uma nação arco-íris e de paz.
O arcebispo nasceu em Klerksdorp, a cerca de 200km de Joanesburgo. Foi professor, mas abandonou a profissão quando o Governo decidiu implementar um sistema de ensino para os negros pior do que o da população branca.
Desmond Tutu fez uma carreira teológica. Foi o primeiro bispo anglicano negro de Joanesburgo e depois arcebispo da Cidade do Cabo. Politicamente, simpatizava com o Congresso Nacional Africano. Em 1984, recebeu o Prémio Nobel da Paz pela sua ação não-violenta contra o apartheid. Mas mais importante, para Tutu, foram as primeiras eleições livres e democráticas da África do Sul, em abril de 1994.
"É fantástico. É um dia incrível para todo o nosso povo. E digo o nosso povo, pretos e brancos. Porque a partir de agora não vamos dizer o regime ilegal, será o nosso Governo," declarou na época.
Entre 1996 e 1998, Desmond Tutu liderou a Comissão de Reconciliação e Verdade, que abordou os crimes do apartheid. Milhares de vítimas do regime partilharam o seu sofrimento e os culpados pediram perdão. Com a comissão, o arcebispo pretendia alcançar um equilíbrio entre a justiça e a amnistia, o perdão e a reconciliação.
Atento aos desenvolvimentos do país, Desmond Tutu tornou-se também crítico em relação ao ANC.
"Nos primeiros anos da nossa de liberdade, a maior parte da população tendia a votar ANC. Mas agora, já não é exatamente assim. As pessoas tendem a questionar-se o que é bom. É isso que é a democracia," defendeu.
Com o seu modo alegre, sorridente e despreocupado, Desmond Tutu continua a ser muito querido entre os sul-africanos. Mas agora está mais resguardado. A saúde assim o obrigou. Em 1997, foi-lhe diagnosticado cancro da próstata. Três anos depois, aposentou-se. Diz que quer ter mais tempo para beber chá com a mulher.

https://www.dw.com/pt-002/desmond-tutu-uma-vida-de-luta-por-liberdade-e-justi%C3%A7a-social-na-%C3%A1frica-do-sul/a-35987385


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Você sabia disso? - O povo Zulu

Os Zulus são povos que vivem onde hoje se encontra a África do Sul, Lesoto, Suazilândia, Zimbábue e Moçambique. Antigamente, mantinham formas de sobrevivência baseadas em guerras. Lutaram, por exemplo, contra a invasão dos britânicos e dos povos Bóeres, ainda no século XX. Hoje em dia, o poder político dentro da tribo funciona de forma restrita.
Em síntese, o povo Zulu corresponde a um total de 23,4%  da população da África do Sul. Isso significa, aproximadamente, 44,3 milhões de pessoas. São um grupo hegemônico, falam o isiZulu, idioma mais falado no país depois do inglês. Nos outros países africanos, a população dos Zulus correspondem a um toral de 400 mil pessoa.
Um dos costumes cultivados pelos Zulus se refere ao fato dos homens da tribo terem mais de uma mulher. Assim, os homens podem ter quantas mulheres quiserem, desde que possam sustentar cada uma delas. Além disso, uma das formas de medir a riqueza dos homens é observando a quantidades de vacas que dispõe.
Os Zulus, antigamente, eram um clã fundado por Zulu kaNtombhela. Assim, quando Chaka, em 1816, se tornou chefe da tripo, as ordens foram para que o poder se expandisse para outras tribos e clãs. Dessa forma, formou-se o Império Zulu.
Entretanto, a tribo não possuía um exército, muito menos armas e poderio de guerra. Assim, como líder do clã, Chaka organizou formas de treinar e armar os guerreiros da tribo. Dentre os armamentos feitos para os combates estavam grandes escudos produzidos a partir de camadas de pela de vaca. Após treinamentos que incluíam pisar em espinhos, os guerreiros estavam prontos para os enfrentamentos.
Assim, os Zulus se tornaram rápidos e silenciosos em seus ataques, pegando os inimigos de surpresa. Entretanto, a força adquirida pela tribo não foi suficiente para enfrentar os holandeses e ingleses. Assim, em 1887, o povo Zulu foi dominado pelos britânicos que invadiram a Zululândia.
Um dos costumes mais cultivados pelos Zulus está no fato de terem uma refeição e todas as pessoas comerem no mesmo prato. O costume simboliza amizade, partilha e reciprocidade entre os povos da tribo. Além disso, o trabalho fica por conta das mulheres que produzem cerveja, artesanato e comida.
Ainda em relação à mulheres, existe uma divisão feita para identificar as virgens, comprometidas e as casadas. Assim, as mulheres virgens andam com o peito nu, as comprometidas usam uma espécie de top de miçanga. Enquanto isso, as casadas cobrem o corpo com top maior, saia até o joelho e chapéu.
Um ponto interessante é que, antes do casamento, o casal se comunica por meio de um colar de miçangas, denominadas “Love Letter”. Assim, cada miçanga possui uma cor diferente, simbolizando a mensagem que deseja ser passada. Além disso, o ato de se beijar não é praticado pelos Zulus.
Em relação à maneira de se vestir, animais como a cabra e vaca são utilizados para fornecer as vestimentas. Assim, peças de roupas são fabricadas a partir da pele desses animais que, depois de elaboradas, passam a ser finas e confortáveis.
A miçanga é um artefato bastante utilizado pelos Zulus. Com elas produzem desde vestimentas, artesanato e até a utilizam como forma de escrita. Dessa forma, as miçangas simbolizam para esse povo o ato de “falar”. Nesse sentido, as cores representam diferentes significados. Assim, para representar o amor utilizam o branco, o vermelho é a inspiração e o amarelo representa a saudade.
Em relação à religião os Zulus acreditavam em diversos deuses. Entretanto, não possuem uma religião específica e não são adeptos do Cristianismo. Isso porque, acreditam que as ideias desenvolvidas dentro da religião é fortemente influenciada pela política. Hoje em dia, é possível ver o comunismo como a ideologia seguida por eles.
Para a cultura africana, a dança é uma forte representação cultural. Os povos africanos, em especial os Zulus, utilizam desse meio artístico na caça, guerras, casamentos, trabalho e em comemorações consideradas mais simples. A dança sempre está presente.
Assim, para os Zulus a dança significa, além de um rito, conquista, alegria, vitória. Além disso, faz parte de cerimônias fúnebres e em exorcismos. Dessa forma, a dança faz parte de todas as formas de expressão da tribo, sendo, cada uma delas, representação de alguma mensagem.
O que achou da matéria? Se gosta de se aventurar em temas sobre história de viajar pelo mundo sem sair de casa, confira esse outro texto sobre quem foram os Maias, Astecas, Incas.
Fontes: Nota Positiva, Filo Cultural, Ensinar História 

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Você sabia disso? - Machado de Assis era negro?!!!!!!!!!!!!


Máscara mortuária de Machado de Assis, no Instituto Histórico e Geografico Brasileiro / Crédito: Wikimedia Commons

No ano passado, a Faro editorial surpreendeu brasileiros diante da publicação da obra O homem que odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior, que já venceu o prêmio Sesc de literatura. O livro se destacou entre as outras obras já lançada sobre o gênio brasileiro. Além de misturar história e ficção em torno de um dos maiores nomes da literatura, o exemplar apresentou a primeira imagem de Machado de Assis negro em sua capa.

“Quando tomei conhecimento da campanha Machado de Assis real, promovida pela faculdade Zumbi dos Palmares, a capa de meu livro já estava na gráfica. Machado de Assis era mestiço, bisneto de escravos, mas sofreu um processo de embranquecimento ao longo do tempo”, revelou Almeida.

“Retratar o mais importante escritor brasileiro como negro é uma correção histórica, que garante às novas gerações conhecer o Machado de Assis real. Devido à importância da campanha, a editora interrompeu o processo de produção do livro e alterou a foto de Machado de Assis na capa.”

Acontece que, por mais que muita gente lembre Machado como branco, e tenha se convencionado representá-lo assim, muito se debate sobre o tema e a maioria das falas conceituadas afirmam que o escritor era preto, inclusive de pele retinta.
Embranquecimento
A primeira vez em que o Bruxo do Cosme Velho foi tratado como branco foi em sua morte. O obituário do escritor, que faleceu em 1908, o classifica como “branco”, enquanto sua máscara mortuária possui claros traços que se associam a características de afro-brasileiros. Depois, com a fama do autor e disseminação de obras durante a República Velha, sua imagem foi reproduzida de maneira embranquecida.
“O maior escritor da literatura brasileira era um homem negro”, reiterou Ana Flávia Magalhães Pinto, da UnB. A batalha narrativa pela representação da pele de Machado tem grande peso, principalmente por incluir entre os fatores a forte herança do racismo do século 20.
Por anos, o tema foi tratado como menor, até que, em 1957, o escritor Rubens Magalhães Jr, divulgou uma fotografia polêmica que teria sido feita no final da vida de Machado. Descrita como “sem retoques”, ela mostra o autor com pele escura e traços africanos, o que chocou, pois era justamente aquela imagem que fora muitas vezes usada, após edições de cor, como prova de que ele era um homem branco.

Movimentos de pauta racial se apegaram à questão e fizeram dela uma bandeira de respeito à ascendência cultural dos negros no Brasil. O embranquecimento de Machado de Assis, ofensivo, era uma forma de ignorar o papel dos afro-brasileiros na construção da literatura nacional (sendo que Machado é, com poucas ressalvas, o maior escritor de nossa história). O debate se acalorou, e a pauta dos movimentos negros se fortaleceu, finalmente, em 2018.
A foto desconhecida
Isso porque, naquele ano, uma inédita fotografia de Machado de Assis foi encontrada pelo pesquisador Felipe Rissato. Ela estava numa edição de Caras y Caretas, uma revista argentina, e mostrava o autor de pé num jardim, sendo visível uma pele retinta e traços faciais negros. Isso apenas fortaleceu o argumento de que Machado era afro-brasileiro.

“Não há texto ou registro algum de Machado em que ele diz ser branco. Ainda assim, por causa do nosso racismo institucional, a elite sempre fez de tudo para apresentá-lo como tal”, afirma o pesquisador da UFMG Eduardo de Assis ao portal Geledés. Mas, para ele, “esse é um debate que ainda vai durar por muitas gerações”.
As representações de Machado como branco nunca cessaram, o que deu origem a um movimento virtual capitaneado pelo portal machadodeassisreal.com.br, que fornece ao público a mais famosa fotografia do escritor, colorizada e representando ele como preto, para que leitores substituam as imagens embranquecidas pela forma mais verossímil nos livros.
“esse resgate é importante porque ele permite que todos possam se apropriar do que é o personagem, essa personalidade, na sua autenticidade, na sua apresentação genuína. Essa pele escura, essa sua antecedência de filhos e filhas de negros escravos, ela foi ficando e se perdendo pela História”, afirmou José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em entrevista à Band.
A fotografia de Caras y Caretas foi, então, submetida a análises por parte do historiador Joaquim Marçal, curador da Brasilianas Fotográfica da Biblioteca Nacional. Para ele, as variações de luz do local dificultam uma resposta, pois há partes em que a pele parece mais clara que outras. Porém, ele concluiu pelos traços gerais que é possível afirmar que ele era um homem de pele escura, muito mais do que a maioria de seus retratos.
Ele colocou: “Usando a luz, tudo é possível para um fotógrafo, inclusive afinar um nariz [em referência à fotografia divulgada pelo fotógrafo Insley Pacheco]. O retoque pode ter até acontecido, inclusive como um acordo tácito entre Machado e Pacheco, mas não há como saber ao certo”. Porém, ele lembra que a imagem está com uma qualidade bem baixa.
O irônico Bruxo
É importante lembrar que a obra inteira de Machado é composta de uma capacidade de crítica gigantesca, e seu principal alvo é o racismo e o escravismo da sociedade imperial. Com ironia e sarcasmo, ele retratou o encobrimento das relações senhoriais dessa mesma maneira: com a sutileza enganadora. Neto de africanos alforriados e filho de pardos, ele tinha conhecimento direto da vida infeliz da escravidão, e buscou a ascensão social (pois nascera numa área pobre do Rio de Janeiro) pela cultura erudita.
Por último, vale citar novamente a professora Magalhães Pinto, que afirma que os esforços de retratar Machado como branco: “demonstram como a violência racial tem organizado até mesmo as políticas de memória sobre a história do país e de sua gente. O embranquecimento de Machado é produto da apropriação da sua memória por parte de homens que o queriam branco, para legitimar um projeto de país em que pessoas negras seriam apenas resquícios de um passado que se queria esconder e quiçá esquecer”.
https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/machado-de-assis-conheca-o-grande-erro-de-seculos-com-a-imagem-do-bruxo-do-cosme-velho.phtml

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Você sabia disso? - 5 obras de Machado de Assis que denunciavam a sociedade escravista


Por meio de uma linguagem irônica e sarcástica, o precurso do Realismo no Brasil abordava o racismo estrutural de sua época
Machado de Assis é um dos principais autores do Realismo no Brasil, e suas obras criticavam a sociedade escravocrata da época. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, é possível perceber isso no capítulo LXVIII, O Vergalho. O autor retrata a submissão de Prudêncio, ex-escravo de Brás Cubas, que ao ser flagrado agredindo outro homem negro, acata as ordens de seu antigo senhor. A intenção de Machado de Assis é mostrar como os reflexos da escravidão perduraram na vida dos negros.
Lançada após a promulgação da Lei Áurea e sob um pseudônimo, a crônica Abolição e Liberdade foi publicada na coluna Bons Dias!, de Machado de Assis. Na obra, o autor apresenta de forma sarcástica sua opinião sobre a abolição da escravidão no Brasil. Segundo o escritor, a carta de alforria foi ilusória, uma vez que os negros continuaram em condições de exploração e miséria.
O conto Pai contra Mãe, presente na obra Relíquias de Casa Velha, retrata a perseguição de escravos foragidos, em que pessoas eram pagas para capturá-los. A trama se baseia na história de Cândido Neves que se vê desempregado e prestes a perder a guarda de seus filhos. Para arrumar dinheiro, começa a trabalhar capturando escravos. Nesta obra, o autor critica a forma como a sociedade tratar os negros e a desigualdade social.
Considerado um romance de caráter psicológico, o livro Memorial de Aires aborda temas polêmicos, como a sociedade racista e as conflituosas relações amorosas. Com caráter autobiográfico, a obra apresenta, ainda, a vida de um diplomata idoso e das pessoas que conheceu ao longo de sua trajetória.
Quincas Borba critica os costumes e a filosofia da época, além de ser uma paródia do cientificismo e evolucionismo. O romance, assim como os outros, aborda questões sociais da época, a partir das fictícias teorias Humanitistas do personagem principal, o filósofo Quincas Borba .

+Saiba mais sobre o tema por meio de grandes obras:
1. Memórias Póstumas De Brás Cubas – Edição Exclusiva Amazon, de Machado de Assis (2019) - https://amzn.to/2RAiUzF
2. Bons Dias!, de Machado de Assis (2008) - https://amzn.to/2uJ1x6t
3. Relíquias de Casa Velha, de Machado de Assis (2014) - https://amzn.to/38NrtwQ
4. Memorial De Aires, de Machado de Assis (2000) - https://amzn.to/2t40Nsf
5. Quincas Borba, de Machado de Assis (2015) - https://amzn.to/2vpv85j
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https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/historia-5-obras-de-machado-de-assis-que-denunciavam-sociedade-escravista.phtml
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Você sabia disso? - De onde veio a expressão "Sangue Azul"



Há duas explicações para a criação da expressão usada para designar membros de famílias nobres. A mais aceita pelos etimologistas, os estudiosos da língua, é a de que ela tem origem na Espanha do século 6.

“Ela nasceu num contexto de preconceito étnico, religioso e cultural”, diz o etimologista Deonísio da Silva, da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

“Faz referência à cor clara da pele, sob a qual destacavam-se veias e artérias azuis – quase invisíveis na pele de mouros e judeus, constantemente expostos ao sol durante o trabalho.”

Porém, alguns pesquisadores defendem que a origem da expressão seja bem mais antiga e esteja no antigo Egito. Segundo eles, os faraós diziam ter sangue azul como as águas do rio Nilo, contrapondo-o ao vermelho do sangue dos súditos.

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/onde-termo-sangue-azul.phtml
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segunda-feira, 6 de julho de 2020

Artigo de Opinião - Miguel, os 5 anos mortos, e a escravidão



O caso do menininho Miguel, filho da empregada doméstica Mirtes, revela o horror da injustiça de classes no Brasil. E no seu crime, o costume em vigor de morte aos negros entre brasileiros.
Não exagero. Não é possível exagero diante da criança negra que foi desprezada para cair do nono andar até o chão. Dessa morte não podemos nem falar em tragédia, tamanha é a vulgarização de como se anula a vida negra, das favelas no Brasil onde são caçadas, às domésticas que trabalham e servem sob relações “amigáveis”, e portanto falsas. O caso de Miguel Otávio e Mirtes Renata, filho e  mãe, é um modelo de crime que não se pune, crime didático antes do sangue do menino, durante e depois.
Na primeira lição, vemos a confortável felicidade das relações entre patrões e empregadas domésticas. Devo dizer, a felicidade confortável de patrões que a traduzem para a felicidade das suas empregadas. “Não têm do reclamar. Dou tudo a elas”, chegam a falar. “Aqui em casa, empregada é pessoa da família”, sem vergonha se gabam. O curioso é que eles, nessas bondosas falas, são quase sinceros. Eles querem dizer, sem  a ousadia da expressão, que para negrinhas elas têm mais do recebem por aí, de outros cruéis de caricatura. E, de fato, em suas casas as empregadas comem – “e como comem!”, observam. Elas comem feito animais, isso quer dizer, elas têm uma fome secular, que nunca foi satisfeita. As empregadas dormem! Ora, até dormem – “dormem melhor que eu, pobre de mim, pois tenho insônia”. Muito bem. E neste capítulo, nesta lição, vê melhor quem ganhou a visão da experiência do sofrer.
Um motorista de uber já me contou uma vez, assim do nada, como se fosse de repente: “Eu reconheço na rua, só de olhar, quem é e quem não é empregada doméstica”. Mas como assim? perguntei. E ele: “No ponto do ônibus, elas estão sempre de cabelo molhado e com uma sacolinha. Sabe o que é? No fim do dia, tomam banho e levam pra casa os restos do almoço da patroa. Até hoje,  não errei uma. Eu sei, porque minha esposa é faxineira”. E seguiu em frente: “Ela é uma explorada! Muitas vezes, de 7 da noite, na hora de largar, a madame chega e pede pra ela aprontar a janta do patrão. Isso quando não vem com umas amigas pra tomar umas. Aí a minha mulher vai de faxineira a cozinheira. Faz tudo pra dondoca”.
No caso de Mirtes Renata Santana de Souza, e da patroa Sari Corte Real, o afeto, a boa amizade merecia até casa de praia. Em Tamandaré, litoral sul de Pernambuco, onde o patrão Sérgio Hacker Corte Real é prefeito. Acompanham a excelência? Isso quis dizer: para fugir do surto do coronavírus no Recife, a patroa foi para a casa na praia e levou as empregadas e filhinho Miguel. Notem como se reproduz a casa-grande dos bons tempos. Os patrões “empregavam” uma família em sua casa: Mirtes, a sua mãe e Miguel. Que receberam, além do afeto, o coronavírus, pois o prefeito adoeceu e se curou. Enquanto isso, as empregadas contaminadas   seguiam no trabalho, porque a faxina e a cozinha não podem parar. Madame ia trabalhar como uma negra? Era só o que faltava. E que se dane a civilização!   
Segunda lição de sangue. Minutos antes da queda da criança Miguel, madame estava pintando as unhas em casa. Havia ficado com o filhinho da empregada Mirtes, que saíra para a rua com a cadela da patroa. A criança ficou a brincar com a filha da madame. (Lembram dos escravozinhos negros que distraíam os filhos dos senhores de engenho? ) Mas a desgraça de Miguel foi ter amor demais por sua mãe. Quando ela se ausentou, ele se pôs a chorar, a pedir por seu abrigo e colo. Mas por que o menininho, além de amar a mãe, de repente sentiu tanta falta do seu carinho? Só os que sentem e sentiram essa falta saberiam contar. O fato é que o menino, teimoso, rebelde, “cheio de vontades” – como se não fosse filho de negra – incomodou tanto, que outro jeito não teve a patroa a não ser deixá-lo à própria sorte. Azar, azar, azar, azar. Ou seja: quer sua mãe? Vá lá. Boa sorte. Nas imagens do vídeo, a madame aparece levando o condenado a seu destino de menininho negrinho. E volta para as belas unhas. Súbito, um baque, um pequeno estrondo. Ossos quando batem no chão, descidos de boa altura, soam como bombas. Eu já vi o som de um homem que se jogou do alto do Edifício Holiday em Boa Viagem. Mas de um menininho, nunca. Daí que lhe ponho um pequeno estrondo no seu barulho de ossinhos quebrados0.    
E vamos então para a terceira lição didática de um crime de classe em Pernambuco. Na primeira entrevista, um dos investigadores, ao ser perguntado se havia pessoas no apartamento onde a mãe da criança trabalhava, ele respondeu um tanto contrariado: “isso vai depender ainda da investigação”. Pergunta simples, resposta que oculta. Vamos esperar o que o chefe vai dizer, seria o melhor entendimento para o que investigador respondeu. Então o caso passou a ser tratado como uma tragédia, uma fatalidade, vale dizer, um destino de menininhos negrinhos que se metem onde não devem brincar. Então vêm as declarações de familiares da vítima de 5 anos, que falam: “no apartamento estavam a patroa e sua manicure”. Ah, bom, diante do clamor, o diabo de rumo inesperado. Havia que se investigar mais, ir até a inimputável família de elite. Então, é verdade, a patroa foi responsabilizada por crime culposo. Quem não é do mundo das leis até acha que crime culposo é o crime de culpa mesmo. Mas não, é um crime menor, pois nele o autor não teve a intenção de matar. Matou sem querer, por um acidente, uma “fatalidade”, como declarou o delegado em entrevista. Então dona Sari pagou uma fiança de 20 mil reais e foi embora.
Mas a justiça das gentes do Brasil exigem mais investigação e menos morte fatal. Em lugar da tristeza e do ar compungido, todos desejam saber: o que declarou a manicure, testemunha dos “esperneios” da criancinha e das palavras da madame, antes de levar Miguel para o seu cadafalso? Se a manicure foi ouvida, o que declarou? Mais; alguma psicóloga foi chamada para entrevistar a filhinha da madame que brincou com o menininho no apartamento minutos antes da queda? São caminhos que poderiam ser trilhados, anteriores à tipificação menor para o crime da patroa, que poderia receber a pena de um crime de dolo eventual, porque ela assumiu o risco de se desfazer de uma criança, jogando-a para a última viagem em um elevador. 
E por último e por fim, a quarta e terrível lição. As sucessivas entrevistas de Mirtes Renata Santana de Souza revelam uma progressão de luzes na sua consciência. O que no começo lhe pareceu um acidente trágico, revelou-se depois uma estranheza, quase que de piedade, quando a querida patroa lhe falou que ia ser presa. E Mirtes lhe perguntou: “Como a senhora vai ser presa se não cometeu crime?”.  Na pergunta havia uma desconfiança que passava ao longe, mais alta que o nono andar das Torres Gêmeas, de onde Miguel caiu. Mas desconfiança é dor que dá e passa, ainda que deixe umas pistas confusas. Nesse primeiro tempo, Mirtes não quis ver as imagens do último minuto de Miguel no elevador. Mas depois viu, e o que viu lhe causou uma revolta: a madame conduziu o negrinho mais lindo da vida e apertou um andar do elevador. Apertou ou mostrou, o que não diminui o seu crime. E voltou para a sua manicure. Súbito, um pequeno estrondo. Mas não tão súbito, porque era previsível.
20 mil reais por um negrinho foi de graça.

Uraniano Mota 
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domingo, 5 de julho de 2020

Artigo de Opinião - A MORTE E A MORTE Jair Bolsonaro entre o gozo e o tédio - JOÃO MOREIRA SALLES















Quando as vítimas da pandemia passaram de 5 mil, no dia 28 de abril de 2020, Jair Bolsonaro foi a um estande de tiro. No dia em que chegamos aos 10 mil mortos, ele passeou de jet ski no Lago Paranoá. Na cerimônia em que concedeu a Ordem do Mérito Naval a Abraham Weintraub e Augusto Aras, o país havia superado os 25 mil óbitos. Dois dias depois ele andou a cavalo no meio de seus apoiadores. Dali a poucas horas, quase 30 mil brasileiros já não estariam vivos por causa da doença. O presidente desconfiou dos hospitais quando os registros contabilizaram 40 mil mortos: “Arranja uma maneira de entrar e filmar”, comandou. E no fim de semana em que a conta da nossa tragédia chegou a 50 mil vidas perdidas, ele ajudou Weintraub a enganar a imigração americana.
Variações do parágrafo acima vêm sendo publicadas a toda hora na imprensa. Seria impossível não reparar no óbvio: em nenhum momento da tragédia o presidente articulou uma frase de pesar verdadeiro. Não houve nem esforço de marketing político para demonstrar que se compadecia dos que estavam sofrendo. O presidente é honesto. Uma das frases mais sinceras da história política brasileira é a breve: “E daí?” Há muitas outras – “Eu não sou coveiro”, “Quer que eu faça o quê?”, “É o destino de cada um” –, mas nenhuma tem a concisão aforística de “E daí?”. Nenhum substantivo, nenhum adjetivo, nenhum verbo. Os mortos, os doentes, os que perderam pais, mães, filhos e amigos, os que diariamente vão para a linha de frente salvar vidas – uma locução adverbial de quatro letras dá conta de tudo que o presidente tem a lhes dizer.
No início de junho, uma apoiadora de Bolsonaro que o esperava na saída do Palácio da Alvorada mencionou a catástrofe sanitária e pediu “uma palavra de conforto nesse momento”. O presidente voltou a ser honesto. “Pode ter fé e acreditar que a gente vai mudar o Brasil”, respondeu, infenso à compaixão. A apoiadora insistiu: “E para os enlutados, que são inúmeros, o que o senhor diria?” Não disse absolutamente nada, ou ao menos nada que pudesse trazer algum conforto a quem sofria. Lamentava as mortes, mas todos morrem.
Seria o caso de lembrar que, dessa doença, estamos morrendo bem mais do que deveríamos. Mais do que chineses, indianos, indonésios, italianos, tailandeses, espanhóis, japoneses, paraguaios, australianos, argentinos. Possivelmente morreremos mais do que em qualquer outra parte do mundo.


E era assim que estávamos, pelo menos até meados de junho: nenhuma fala sentida à nação; nenhum gesto de solidariedade com as vítimas; nenhuma cerimônia em memória dos mortos. As bandeiras chegaram a ser hasteadas a meio pau, mas em menos de duas horas o governo voltou atrás.
Por outro lado, não haveria dificuldade em encontrar fotografias de Bolsonaro sorrindo, ou mesmo dando risada, nesses meses da nossa agonia. O luto lhe é estranho. Publicamente, sua reação ao sofrimento alheio assume apenas duas formas: júbilo ou indiferença. É preciso reparar nisso para compreendê-lo.

“A
indiferença do presidente ao luto coletivo vai de par com um movimento político que nega nossos laços coletivos, assim como as obrigações que temos com o outro. Ele lidera uma coalizão que rechaça a ação coletiva e nega nossas responsabilidades mútuas como membros de uma mesma entidade política.” Feita em relação a Donald Trump, a observação de autoria do articulista americano Jamelle Bouie é válida também para o presidente do Brasil.

O trauma nacional tem a capacidade de unir, escreve Bouie. Quando choramos juntos os nossos mortos, expomos a fragilidade da nossa condição e explicitamos nosso destino comum, o que põe em relevo um sentimento coletivo que é o contrário do egoísmo. Não há mais indivíduo irremediavelmente só. Todos nos vemos implicados na política, porque não existe solução fora do contrato social e da vida em comum. Ainda que cada dor seja intransferível, essa comunhão em torno do sofrimento “proporciona um alicerce para a solidariedade e a ação coletiva”.
Vimos isso acontecer em países como Espanha, Portugal, Nova Zelândia, Austrália, Itália e Alemanha, e não espanta que nada parecido tenha se dado nos Estados Unidos ou no Brasil. Lá como aqui, a noção de uma coletividade se esfacelou. Trump e Bolsonaro substituíram os norte-americanos e os brasileiros por meus americanos e meus brasileiros. Convocar os cidadãos a compartilhar a dor de tantas mortes seria afirmar que todas têm o mesmo valor. Além disso, ainda que os dois fossem capazes de compaixão, seria desvantajoso demonstrá-la, pois chamariam nossa atenção para o enorme custo humano gerado pela incompetência e pelo descaso com que gerenciaram a crise.
Trump, aqui, não interessa. Entrou na história por ser o modelo de que Bolsonaro se pretende imitador. Gripezinha, vírus chinês, cloroquina – o presidente brasileiro não foi capaz sequer de inventar as próprias fábulas. A coisa é trazida de Washington e aqui piora um pouco mais, como a má tradução de um livro ruim. O que não significa que Bolsonaro seja apenas uma versão abastardada de Trump. Uma das diferenças entre os dois é que a ausência de empatia no norte-americano está associada ao solipsismo radical de seu narcisismo, ao passo que em Bolsonaro ela tem uma origem mais perigosa. É algo anterior a toda convenção, um impulso que corre por baixo, mais primitivo, mais perturbador, e que no entanto, quando se manifesta, parece lógico: a morte o excita.

M
ais precisamente: certas formas de morrer o excitam, enquanto outras o deixam frio. Qualquer antologia das frases que notabilizaram Bolsonaro terá cheiro de sangue e morte. Estupro, tortura, fuzil, exterminou, morra, morrido, matando, pavor, Ustra. Essas são algumas palavras-chave que dão sentido às citações mais conhecidas do presidente. Sem elas, as frases se desfariam. É o sofrimento do outro que as organiza.

A princípio, pode causar espanto a indiferença de Bolsonaro pelos mortos da pandemia, por brasileiros que, em boa parte, morreram em decorrência da forma catastrófica com que ele escolheu enfrentar a crise. Fez vítimas, portanto. A frieza se torna mais compreensível quando se observa o que lhe acelera o coração. Bolsonaro não se comove com a natureza, a arte lhe é estranha, a religião não passa de um adereço político, a ciência o ofende. Até o luxo parece deixá-lo indiferente. A violência, não. É quando fala nela que parece mais vivo e potente.
Tome-se uma imagem de 2018, captada durante um comício da campanha presidencial. Bolsonaro pega um tripé à sua frente, ergue-o a meia altura, aponta para o alto e simula os disparos com os quais promete “fuzilar a petralhada”. Durante dois segundos – precisamente a duração dos coices da simulação, dos avanços e recuos violentos da arma fálica – sua expressão muda por completo. O rosto se crispa num ricto de êxtase. É obsceno e incomodamente familiar: é a cena de um filme pornográfico.
Essa volúpia distingue os seguidores de Bolsonaro de outros grupos da direita mais extremada, a exemplo do Movimento Brasil Livre (MBL). É um traço que separa seus seguidores de políticos como Kim Kataguiri ou Janaina Paschoal.
No dia 31 de maio, o primeiro domingo de manifestações em defesa da democracia, o deputado federal Daniel Silveira, do PSL do Rio de Janeiro, foi para a Avenida Atlântica ficar ao lado dos policiais. Protegido pela tropa, gritava para o outro lado da rua: “Vem um só aqui, seus filhos da puta. Eu quero um de vocês só.” Mais tarde, gravou um vídeo em que advertia: “Vocês vão pegar um polícia zangado no meio da multidão, vão tomar um no meio da caixa do peito e vão chamar a gente de truculento. Eu tô torcendo pra isso. Quem sabe não seja eu o sortudo. Vocês me peguem na rua num dia muito ruim e eu descarregue [sic] a minha arma em cima de um filho da puta comunista que tentar me agredir.”
Não existe bolsonarista sem pulsão de morte. Rodrigo Amorim, o então candidato a deputado estadual que partiu a placa de Marielle Franco no alto de um palanque, é bolsonarista por causa da placa, não por causa de suas teses sobre a organização do Estado. Ou por outra: a violência contra a placa é propriamente a sua ideia, exibida em público como programa político. A seu lado, Wilson Witzel, candidato ao governo estadual, mostrou as credenciais bolsonaristas ao comemorar o gesto; pouco tempo depois, já eleito, reiterou a filiação ao festejar na ponte Rio-Niterói a morte de um bandido. Desde que rompeu com o presidente, o governador não tem dado sinais de se excitar com a dor dos outros. O que significa que era apenas um oportunista, não um bolsonarista raiz.

O
repertório da truculência é bastante limitado. Diz uma coisa só, repetidamente e sempre no volume máximo. Daí a monotonia acachapante dos bolsonaristas. A ameaça e o perigo não são interessantes, são apenas assustadores.

A fala do deputado Daniel Silveira no vídeo aos manifestantes é pedagógica. Com um punhado de frases mal articuladas – e isso também importa –, aprende-se quase tudo sobre o movimento do qual ele é um representante exemplar. O elemento mais característico é a transformação do oponente em inimigo, mecanismo clássico de toda militância antidemocrática, tão banalizado que já nem merece muita atenção. Mais digno de nota é o aspecto da degradação da linguagem. Creio que tem valor funcional, servindo como índice da degradação das normas.
A reunião ministerial de 22 de abril, por exemplo, impressiona igualmente pelo conteúdo e pela forma. Tão importante quanto o que foi dito é como se disse. As concordâncias capengas, as regências erradas, os neologismos cafajestes e a profusão de palavrões são indícios poderosos de que alguma coisa está sendo arrasada. Chame-se de civilidade, de respeito às liturgias democráticas ou simplesmente de compostura, o fato é que a linguagem empregada ali, como lixo, conspurca o entorno – e o entorno é a própria República.
A maioria dos que tomam a palavra é branca e de classe média, brasileiros que tiveram acesso à educação formal. Quem diria. Quantos ali não fizeram graça com algum plural claudicante na fala de quem, antes deles, chegou ao poder vindo de um Brasil mais injusto? Era uma prática comum entre certa gente orgulhosa de seus preconceitos de classe.
Bolsonaristas tratam o idioma como tratam o meio ambiente, o que não é fortuito. O ex-ministro Abraham Weintraub e Ricardo Salles, nesse sentido, são almas gêmeas, dois tarefeiros diligentes que executam a missão de destruir valores civilizatórios caros aos inimigos: o letramento; a cultura; a floresta e todas as suas criaturas. Mas eles vão além: a cada “insitaria a violência”, a cada “haviam emendas parlamentares”, a cada imagem da floresta em chamas a militância se alvoroça, se assanha.
Não à toa, o aforismo mais memorável do corpus de Olavo de Carvalho, ideólogo de todos eles, é “Enfia isso no cu”. Existe um componente erótico nessa ruína. “Vem um só aqui, seus filhos da puta. Eu quero um de vocês só”, implora Daniel Silveira. Isso é a linguagem do gozo. Silveira quer ejacular, e não duvido de que chegará ao paroxismo quando alguém “tomar um no meio da caixa do peito”.
Esse é o componente verdadeiramente monstruoso. Se parece quase inevitável que a violência venha, não é apenas por ela se constituir como instrumento de tomada de poder, mas por ser desejável e prazerosa. “Para mim, para o senhor e para os nossos pares, a paz é hoje uma desgraça”, disse um líder fascista na Itália de Mussolini. Para bolsonaristas, é pior do que isso: a paz é assexuada. Quando Silveira finalmente estiver liberado para bater, avançará para dentro do inimigo e, amparado pelo poder, por sua arma e pelos policiais, ficará maravilhado com a facilidade com que espanca. A amoralidade é libertadora.
Nos últimos doze meses, foram registradas 72 mil novas armas no país. Cada companheiro de Daniel Silveira que comprou a sua poderá adquirir 550 munições por mês. Segundo O Globo, só em maio foram vendidos mais de 2 mil cartuchos por hora. “Eu quero todo mundo armado”, exigiu Bolsonaro em 22 de abril. No ano passado, ensinou aos caminhoneiros que “se tiver arma de fogo, é para usar”. Ao Exército, determinou a revogação de portarias sobre rastreamento e identificação de armas e munições. No início de junho, prometeu isentar policiais e membros das Forças Armadas do imposto de importação de armas. Graças ao presidente (e também ao ex-ministro da Justiça Sergio Moro), hoje somos versados em conceitos jurídicos como “excludente de ilicitude”.
Bolsonaro sempre sorri quando transforma as mãos em arma. Aquelas pistolas imaginárias, símbolo de sua campanha, estão ali para mostrar o que lhe dá prazer. A violência é o componente essencial. O que provoca regozijo é o corpo baleado no chão, o traficante executado, o homossexual espancado, a moça trans agredida, o esquerdista desacordado, o indígena ferido. Já as vítimas da pandemia morrem sem espetáculo, numa agonia que não é pública. Sendo invisíveis, suscitam no presidente apenas desinteresse, enfado, “o puro tédio da morte”, como escreveu Nelson Rodrigues sobre a reação de alguns ao horror da gripe espanhola.

N
ão existe bolsonarismo, apenas bolsonaristas.

Bolsonarismo implicaria um conjunto coerente de ideias e uma visão de mundo articulada, elementos que faltam à pregação política de Bolsonaro. Chega a ser desconcertante, mas conceitualmente o presidente é uma degradação do regime militar que ele gostaria de reimpor aos brasileiros. Os generais que tomaram o poder em 1964 tinham uma proposta para o país. À sua maneira, queriam modernizá-lo para superar o subdesenvolvimento e sabiam o que pôr no lugar do que estavam destruindo.
Bolsonaro investe mais em atos de destruição, não em visões de futuro. No campo propositivo, todas as suas ideias são tomadas de empréstimo. O liberalismo econômico foi o cavalo que passou selado num momento em que as elites econômicas desembarcavam da sociedade com o petismo. O lavajatismo serviu para fisgar o velho udenismo das classes médias locais. Os pobres estavam com os evangélicos, e Bolsonaro logo se fez batizar no Rio Jordão. Esse é o liberalismo de um nostálgico do intervencionismo da ditadura; o moralismo de quem declara afinidade com milicianos que vivem de extorsão e arreglos com o crime; o conservadorismo cristão do homem de 52 anos que no terceiro casamento esposa a moça de 25.
O cientista político Marcos Nobre alerta para o risco de tomar Bolsonaro por um político limitado; negar ao presidente a capacidade de levar a cabo seu projeto de poder é uma reconfortante e perigosa ilusão. A preocupação é compreensível, e não creio que seja incompatível com esta afirmação: projetar uma visão de mundo acabada exige recursos intelectuais e de imaginação dos quais Bolsonaro dá provas sucessivas de não dispor. Contudo, se a construção não está ao seu alcance, a destruição, sim. É o seu talento luminoso. Em menos de dois anos, Bolsonaro degradou a cultura, a educação, a política ambiental, a Polícia Federal, o Ibama, o Itamaraty, a Funai, a Procuradoria-Geral da República, o Iphan, a Funarte, a Ancine, a Casa de Rui Barbosa, a Fundação Cultural Palmares, a Biblioteca Nacional, a Cinemateca Brasileira, o Ministério da Saúde, as Forças Armadas. Não é obra de engenharia. É demolição. “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo”, afirmou ele em Washington, na presença de representantes do conservadorismo e da extrema direita norte-americana. “Nós temos é que desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa. Depois, podemos começar a fazer.” A parte do refazimento não será com ele. Os capatazes virão depois. Os militares supõem tê-los em seus quadros.
A saúde da nossa vida cívica, sempre frágil, agora se esvai: “A audácia irracional é considerada lealdade corajosa […]; a moderação passa a ser uma máscara para a fraqueza covarde […]. O homem irascível sempre merece confiança, e seu oposto se torna suspeito. O conspirador bem-sucedido é inteligente, e ainda mais aquele que o descobre, mas quem não aprova esses procedimentos é tido como traidor do partido e um covarde diante dos adversários. […] Vingar-se de uma ofensa é mais apreciado que não haver sido ofendido […] e aqueles capazes de levar a bom termo um plano odioso sob o manto de palavras enganosas são considerados os melhores.” A última frase poderia ser um comentário a Ricardo Salles e sua boiada, mas não. O texto é mais antigo. É de autoria do historiador grego Tucídides, nascido no século V a.C., e descreve uma guerra civil. É assim que uma sociedade se entredevora.

E
m A Ordem do Dia, um breve romance de época lançado em 2017, o francês Éric Vuillard narra como um país capitula ante a violência e a demagogia. “O sol é um astro frio”, diz a primeira frase do livro, uma afirmação meteorológica – é fevereiro em Berlim – e política – o ano é 1933. Dali a alguns parágrafos, 24 industriais da Alemanha se alinharão ao regime, embora considerem seus líderes vulgares e medíocres. Cinco anos depois, a Áustria se encolherá e, de concessão em concessão, perderá sua alma – morre de vez ao ser anexada ao Reich. O narrador escreve: “[Mas nada aqui tem] a magnificência do terror. Só o aspecto pegajoso dos conchavos e da impostura. Nenhuma exaltação violenta, nada de falas terríveis e desumanas. Apenas a ameaça brutal, a propaganda, repetitiva e vulgar.”

Se o paralelo histórico não procede, a descrição do rebaixamento geral nos fala de perto. Também aqui é tudo rasteiro: o presidente, seus filhos, os ministros, os seguidores, o que dizem, o que propõem. Existe apenas entropia.
A pura negatividade não chega a ser uma ideologia. É sobretudo um modo de existir. Dos muitos canteiros de obra onde trabalham as turmas bolsonaristas de demolição, nenhum é mais espetacular do que a Amazônia. Ali se destrói sem pôr nada no lugar, em troca de nada – é o verdadeiro manifesto político do movimento. Que ninguém se engane: é falsa a ideia de que o desmatamento dá lugar à produção. Hoje, quem destrói a Amazônia é essencialmente um especulador imobiliário. Rouba terra pública à espera de que valorize. Na lógica do ladrão, ele será anistiado pelo governo e ficará rico. O país, não.
Do ponto de vista econômico, ecológico, geopolítico, moral, não se justifica. Na lógica bolsonarista, é missão cumprida. Claro, há interesses em jogo e gente que se beneficia do desmatamento, mas não são inimigos poderosos. O Estado não teria dificuldade em reprimi-los se quisesse, como, aliás, já fez no passado. Que não queira – e mais: que esteja efetivamente incentivando o desmate ao demonizar quem tenta coibi-lo – representa um contrassenso em relação aos interesses não só do país, mas também do agronegócio, base sólida de apoio a Bolsonaro. O setor hoje se vê ameaçado pela perspectiva de um boicote internacional a seus produtos. Se nem a necessidade de zelar pelos negócios refreia o ímpeto governamental de facilitar a derrubada metódica da floresta, pode-se inferir, então, o que de fato move o governo. Mais do que interesses, são paixões. A destruição não é efeito colateral. É propósito.
O cartão-postal da visão de mundo bolsonarista é o garimpo, no qual todas as dimensões da existência estão aviltadas: saúde, meio ambiente, relações de trabalho, norma jurídica. Não por acaso, nas raras vezes em que esboçou uma perspectiva de futuro para a Amazônia, Bolsonaro lhe atribuiu um papel central. Ao Globo, declarou que pretendia criar “pequenas Serras Peladas” Brasil afora. Em abril, o governo afastou dois chefes de fiscalização do Ibama que comandaram uma operação no Pará contra garimpeiros que tinham invadido terras indígenas.
A terra devastada que o garimpo deixa para trás é a materialização da estética bolsonarista e do que seus adeptos apreciam: destruição, ruína, bruteza. Os garimpeiros que escalavram a ribanceira dos rios seguram as mangueiras de pressão da mesma forma que Bolsonaro empunha sua metralhadora, a meia altura e com as duas mãos, produzindo os mesmos arrancos e recuos. A violência é semelhante. Não duvido de que para o presidente ambos os gestos estejam encharcados de erotismo.
Na capa da piauí de maio deste ano, Bolsonaro beijava a Morte. Era uma alegoria e um diagnóstico.

A
força negativa característica de toda ação bolsonarista faria pensar numa variante tropical do niilismo, mas a hipótese ofende a filosofia e uma venerável tradição da história das ideias. Bolsonaristas estão para o niilismo assim como o bispo Edir Macedo está para São Tomás de Aquino, Olavo de Carvalho para Hegel ou, me permitam mais essa, Ernesto Araújo para Bismarck. No campo bolsonarista não se trata nunca de esgrima, é sempre porrada. Tudo se põe à altura do ralo porque a baixeza é parte da agenda. Todos nós somos diminuídos.

Num ensaio de 2019, a pensadora húngara Agnes Heller fez uma distinção interessante a propósito da deriva autoritária em seu país: “As ideologias podem ser positivas. Com esse adjetivo, não faço juízo de valor […]. Ideologias positivas são simplesmente as que prometem algo para o futuro: mudanças radicais, sociedade sem classes, planeta despoluído, domínio do mundo, Estado de bem-estar social, a felicidade de todos. As ideologias positivas – as benignas como as perigosas – têm seus próprios intelectuais ideólogos; podem ser apoiadas por cientistas, poetas, filósofos, por uma espécie de elite cultural. Já as ideologias das tiranias modernas são negativas – operam contra ou em oposição a algo, não trabalham para alcançar nada; não contam com o apoio da cultura intelectual.”
Curiosamente, a observação vale mais para o Brasil do que para a Hungria. Sim, Viktor Orbán consolidou seu poder manipulando habilmente o ódio a inimigos compartilhados – imigrantes, cabalas judaicas fantasiosas, social-democracia liberal, União Europeia. Contudo, onde o exemplo de Heller parece tropeçar é no fato de que a ideologia orbanista não se contenta em subtrair. Ao país, Orbán oferece o projeto de uma nação definida por sua etnicidade específica e fundada nos princípios do Sangue e do Solo. Essa utopia reacionária de matriz biologista, antiliberal e nacionalista é um constructo poderoso, de longa tradição naquela parte do mundo. Orbán é seu ideólogo mais talentoso e competente, dois adjetivos que, no terreno das ideias, ficariam tão à vontade na companhia de Jair Bolsonaro quanto Ricardo Salles numa convenção do Greenpeace.
A atual crise da democracia é liderada por autocratas capazes de projetar sonhos alternativos de nação. É Xi Jinping na China, à frente de um bem-sucedido capitalismo de Estado sem direitos políticos. Ou Jarosław Kaczyński e Andrzej Duda na Polônia, atualizando um nacionalismo católico que nem o comunismo pôde extinguir. Ou Recep Tayyip Erdoğan, minando o secularismo republicano da Turquia moderna com sua nostalgia do Império Otomano. Na Índia, Narendra Modi põe sua eficiência administrativa a serviço do nacionalismo hindu. E, por fim, o pioneiro Vladimir Putin, primus inter pares, projetando para os russos o espetáculo da força, narcótico para a humilhação de um país que perdeu o posto de superpotência global.
Esses são os autocratas que inspiram teses acadêmicas e livros sobre como as democracias morrem. Só eles têm relevância geopolítica. São homens de ferro que exercem uma liderança imperial e costumam ser competentes na administração do Estado. Não por acaso, muitos se destacaram no enfrentamento da crise sanitária. Bolsonaro raramente é visto em companhia deles nos parágrafos da imprensa internacional. Ele é a versão degradada que abre o parágrafo seguinte, o autoritário exótico, papel que no passado foi do ugandês Idi Amin Dada e que mais recentemente se tornou apanágio de ditadores da Coreia do Norte e de tiranos centro-asiáticos que renomeiam o calendário para dar o nome da própria mãe ao mês de abril.
A única figura a que Bolsonaro geralmente é comparado – Donald Trump – marca presença como o membro mais caricato da coorte de líderes autoritários em cena. Há quem chame o capitão reformado de “Trump tropical”, epíteto que certamente o envaidece. Que seja cego à profunda indiferença do norte-americano por ele e pelo Brasil, que tenha a ilusão de ocupar um lugar especial no coração de seu modelo, isso é apenas mais um indicador da inclinação servil de seu temperamento diante de poderes maiores que o seu.
Toda vez que Trump esteve nas cordas por causa do modo desastroso como combateu (ele também) a pandemia, não perdeu a oportunidade de se reerguer à custa da desdita do Brasil. Da primeira vez, sem dar uma pista ao amigo, anunciou que decidira proibir brasileiros de entrar nos Estados Unidos. Da segunda, antecipou a data da proibição. Da terceira, afirmou que se tivesse adotado estratégia semelhante à brasileira talvez 2 milhões de norte-americanos estivessem mortos. A incompetência de Bolsonaro tem serventia para Trump. Serve ao menos para que ele tenha alguém com quem se comparar favoravelmente.
Ser atirado assim na fogueira não afrouxa o entusiasmo pelego de Bolsonaro: “É meu amigo, é meu irmão. Falei com ele essa semana. Tivemos uma conversa maravilhosa. Um abraço, Trump” – foi essa a sua resposta quando lhe pediram um comentário sobre os 2 milhões de pessoas que Trump livrou da morte ao ter o bom senso de não nos imitar.
Tudo isso pode parecer uma queixa estranha: nosso autocrata é pior que o deles. Não seria motivo de comemoração? De fato, como bem mostraram Daniela Campello e Cesar Zucco na edição anterior desta revista, Bolsonaro tem errado sistematicamente. Seu mais grave equívoco político foi não ter lido corretamente a pandemia. No fim das contas, sorte nossa, talvez, que ele tenha sido testado em condições tão desfavoráveis. Suas carências, agora expostas a toda a nação, podem ser um obstáculo à construção de um projeto duradouro de poder. Em todo caso – noves fora a ferida narcísica provocada pela sensação (perversa) de não conseguirmos produzir nem déspotas com alguma dimensão histórica –, o verdadeiro temor é outro. Embora um Reich de Mil Anos não esteja ao alcance de Bolsonaro, o caos de uma semana, um mês, um ano, está. Refiro-me a uma anarquia miliciana e policial, a um espetáculo estarrecedor de violência e fúria: “Eu quero um de vocês só.” Ou dois. Ou dez. Ou mil.
Obtusidade não significa falta de estratégia. Bolsonaro sabe o que quer. Ou melhor, sabe do que gosta. Seus seguidores também. Querem aquilo de que gostam.

U
m velho general da aristocracia prussiana, um homem direito que, no século passado, resistiu a colaborar com regimes de força, classificava os militares em quatro tipos: “Há oficiais inteligentes, aplicados, burros e preguiçosos. Em geral, essas qualidades vêm aos pares. Há os inteligentes e aplicados, que devem ir para o Estado-Maior. Depois vêm os burros e preguiçosos; esses são 90% de qualquer Exército e são próprios para tarefas de rotina. Os inteligentes preguiçosos dispõem do que é preciso para tarefas mais altas de liderança, pois têm clareza mental e firmeza dos nervos na hora de decisões difíceis. Mas é preciso tomar cuidado com os burros e aplicados; não podem receber nenhuma responsabilidade, pois só sabem causar desgraça.”

Temo que a desgraça já esteja contratada. Será motivada por aquela forma específica de desinteligência descrita por Tucídides, caracterizada por insensatez, irreflexão e inclemência. Pelo estado de aviltamento em que pequenos se tornam grandes e grandes perdem força. Temo o momento em que, nas próximas semanas, daqui a uns meses, no ano que vem ou pouco antes da eleição de 2022, ao lermos o alerta que terá surgido em uma das nossas telas, sussurraremos: “Começou.”
Em 1981 o escritor italiano Claudio Magris visitou a Polônia. As greves do Solidariedade punham em xeque o regime tutelado pelos soviéticos. Em meio a “viventes mais ameaçados de morte” do que ele, Magris refletiu: “Na Polônia se sente a tragédia, não o pesadelo; e a tragédia implica uma dimensão humana de grandeza e de força, um senso íntegro e pleno da vida que foi agredida ou destruída, a intuição de um destino e de um significado. A queda trágica não apequena o indivíduo; ela o derruba do carro de combate como a um guerreiro homérico golpeado na batalha, não o dilacera e não o dissolve no nada, como acontece a quem foi tragado pelos meandros irreais do pesadelo.”
É isso. Em 1964, o poder foi tomado à força. Em 2018, 57,7 milhões de brasileiros sufragaram a versão piorada de um regime odioso. Outros 11 milhões anularam ou votaram em branco. No fim das contas, talvez fosse inevitável chegarmos a isso. Bolsonaro não é diferente do país que o elegeu. Não todo o Brasil, nem mesmo a maioria do Brasil (uma esperança), mas um pedaço significativo do Brasil é como Bolsonaro. Violento, racista, misógino, homofóbico, inculto, indiferente. Perverso.
E foi assim que terminamos não na tragédia, mas no pesadelo.
Revista Piauí - 29 de junho de 2020 
Postado por Blog Quem não gosta de Literatura às 12:42 Nenhum comentário:
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