sábado, 11 de junho de 2016

Conto - Pai contra mãe , uma análise

Por Ana Célia Coelho


Neste trabalho faz-se uma abordagem sobre alguns aspectos encontrados no conto 
Pai contra Mãe de Machado de Assis (1839-1908), publicado no volume “Relíquias de Casa Velha” em 1906. Sabe-se que tanto os romances quanto os contos machadianos faz-nos refletir sobre o espírito humano e suas fraquezas (a crueldade, a ingratidão, a deslealdade, o adultério, a soberba, a mesquinharia, a corrupção, a sensualidade e outros demônios da alma), com o intuito de mostrar que “a mais eficaz consolação em toda desgraça é descobrir que sempre há mais desgraçados do que nós”.

No conto Pai contra Mãe focaremos a ironia e a crueldade presentes nas atitudes do núcleo protagonista da trama: Cândido, Clara e Tia Mônica. Entende-se por ironia, segundo o dicionário Houaiss (2009), como figura caracterizada pelo emprego inteligente de contrastes, usado literariamente para criar ou ressaltar certos efeitos humorísticos; uso de palavra ou expressão sarcástica; qualquer comentário ou afirmação irônica ou sarcástica; crueldade, entende-se por característica ou condição do que é cruel; prazer em fazer o mal; impiedade, maldade, ato, procedimento cruel; crueza.

Sabe-se que uma obra literária que resiste ao tempo é um clássico e, é certamente o caso da prosa de Machado de Assis, sobretudo depois de 1880, quando ele publicou Memórias póstumas de Brás Cubas. Pois, poucos autores brasileiros foram e são tão estudados, analisados e lidos como Machado de Assis. A extraordinária produção analítica sobre os romances, contos, crônicas e teatro de Machado, além dos livros sobre a vida e a obra do autor, é uma prova de que a leitura crítica da obra machadiana está longe de ser esgotada. Segundo o escritor Hatoum (2008), como ocorre com todos os clássicos, a obra de Machado é um emplastro poderoso para desintoxicar o leitor viciado em palavras fáceis e fúteis, em receitas de bem viver, em fórmulas de sucesso, em relatos sobre um cachorro amado, ou essa ou aquela celebridade. Bem-aventurados os que ainda não conhecem o Machado contista, pois nas narrativas breves do Bruxo vão encontrar os temas dos grandes romances: a loucura, o adultério, o jogo de sedução e poder, os carreiristas e alpinistas sociais, e a combinação de falta de escrúpulos e crueldade nas atitudes de determinada elite brasileira do século XIX. Um século depois da morte de Machado, alguns desses temas perduram, porque fazem parte constitutiva da natureza humana. Quanto à crueldade de uma elite que cultiva privilégios [...]. Até nisso Machado acertou em cheio, e com um pessimismo e uma ironia que nos deixam sem fôlego1 .

Todavia, como estamos conhecendo bem o Machado contista, através da

Disciplina Literatura Brasileira I, analisaremos, modestamente, um de seus contos que expressa bem, com muita ironia, a falta de escrúpulos e a crueldade nas atitudes humanas. De modo sintético, o conto “Pai contra mãe” de Machado de Assis, aborda o século XIX, trazendo a história de um capitão-do-mato (Cândido Neves) que captura uma escrava fugitiva (Arminda), que está grávida e, após entregá-la ao seu dono, a escrava aborta o filho que espera. Desse modo, o capiturador de escravos obtém dinheiro para sobreviver e salvar seu filho da Roda dos Enjeitados. O conto termina com a frase: “Nem todas as crianças vingam”, expressando, assim, o pessimismo machadiano.

Logo no começo do conto, temos a narração sobre os maus tratos que os escravos negros recebiam no século XIX, os quais eram métodos correcionais aplicados para se garantir a honestidade e sobriedade, pois perdiam o vício de beber e consequentemente o instinto para roubar, ou como método preventivo contra as fugas dando para os reincidentes uma estimulação a humildade e a subserviência. Era como se fosse natural torturar um seres humanos, como se houvesse uma justificativa aceitável para aquilo. Se tivéssemos a informação correta, moral e ética, diríamos que o escravismo foi um regime criminoso contra a humanidade, de leis e fatos, imorais, antiéticos, condenáveis em qualquer sociedade que fizesse bom juízo dos fatos.

Como os escravos não aceitavam sua condição desumana, fugiam com frequência, sedo caçados por um capitão-do-mato e devolvidos aos seus respectivos donos, que recebia por seu trabalho uma gratificação, “algum dinheiro” pela caça. É aí que entra a história de Cândido Neves ou Candinho que segundo a narrativa, “cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos” e tinha um grave defeito “não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade”.

Candinho casa-se com Clara, uma órfã que morava com uma tia, Mônica, e ambas costuravam para sobreviver. Clara fica grávida, piorando, assim, a situação de pobreza em que viviam. Segundo a narrativa, tudo era motivo de graça para o casal, “não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço”. Tia Mônica, por sua

1 HATOUM, Milton. Machado de Assis: um século depois. São Paulo, 2008 (ONLINE). Disponível em:


vez, era pessimista e alertava-os “vocês verão a triste vida” que terão quando essa criança nascer. Tia Mônica, visando seu próprio benefício, pois ela era agregada do casal e não queria ceder seu espaço para a criança que estava para nascer, aconselha o casal a entregar o filho à Roda dos Enjeitados para não morrer de fome. Mas o casal rejeita piamente seu conselho.

Candinho vê-se desesperado com a situação e sai em busca de algum “preto fujão”. No entanto, os “escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves”. Mas, por ironia do destino, ele se depara com Arminda, a “mulata fujona” e logo a reconhece e a captura. Vale à pena transcrever este trecho:

Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus. — Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!2

Aí está a grande ironia do conto que culmina em crueldade: o fato da escrava fugitiva reforçar em Candinho a vontade de capturá-la. Arminda, ao implorá-lo por sua liberdade porque estava grávida e não queria ter um filho escravo, faz com que Candinho se lembre de seu filho recém nascido que se ele não ganhar dinheiro urgentemente terá que perdê-lo, deixá-lo à Roda dos Enjeitados para não morrer de fome. Portanto, Candinho obstinamente agarra a escrava e entrega ao seu dono, sem se importar com sua gravidez. A crueldade resulta da morte de uma criança (do filho da escrava), para sobrevivência de outra (do filho de Candinho).

Por isso, Candinho, afirma no final do conto: “Nem todas as crianças vingam”, tentando justificar sua ação tirana, sua crueldade. Com isso, o autor mostra a miséria humana, através dos dramas paralelos de um pai contra mãe, lutando por duas vidas, onde o indivíduo é capaz de aplacar sua consciência, mesmo tendo cometido o maior dos crimes, justificando a troca de uma vida pela outra.

Esta frase assemelha-se a de Brás Cubas em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881): “Não passei para ninguém o julgo da minha miséria”. Ambas refletem o pensamento da época, o pensamento pessimista do século XIX, de que “nada de grandioso se pode esperar do homem”. É notório que o sistema sócio-econômico de cada época, obriga as pessoas a se “engafiarem” pela sobrevivência, pela comida, pelo

2ASSIS, Machado de. “Pai contra mãe”. In: _ Relíquias de Casa Velha. Rio de Janeiro: Ed. Garnier, 1990, p. 17-27.

pão de cada dia. E, isto é retratado excelentemente neste conto. Pois, a narrativa analisa a capacidade que alguns homens têm de persuadir (como a Tia Mônica) o próximo, humilhar e matar (como o fez Candinho com Arminda) para se dar bem na vida, para sobreviver numa sociedade desigual e excludente. Afinal, “ao vendedor as batatas”.

Esta narrativa reforça também o lado grotesco ligado à escravidão que segundo o narrador, no momento da escrita, já passara. Além do mais, um dos principais ofícios que a escravidão levou foi o de capturar escravos. Segundo o autor, este ofício está ligado à reprodução da pobreza gerada pela escravidão, por não ser nobre, nem exigir estudos e muito menos oferecer glórias futuras, a submissão a essa atividade era própria do seu tempo e das necessidades de permanência da escravidão através do grotesco, do chocante, do violento e por meio da submissão de pessoas que precisavam preservar a própria existência. Segundo Moraes (2009):

Machado de Assis ao retratar a luta do pai, branco, com uma mãe, negra e escrava, traçou um paralelo nas condições de miséria e pobreza existentes durante a escravidão e que permaneceriam após o seu fim. Ao escrever 50 anos depois, o autor discutiu a situação do trabalho no Brasil após o fim da escravidão, assim como as situações precárias da vida de uma parte da sociedade que não se inseria nem no quadro dos proprietários e nem no de escravos. Cândido, Clara e Tia Mônica compõem esse quadro. Mais que isso, ao iniciar o seu texto mostrando os ofícios e os aparelhos que a escravidão levara, o autor também mostra o quê a abolição não deu cabo: da miséria e das diferenças sociais. Apenas encerrou o uso de alguns aparelhos tão fortemente retratados no início do conto3 .

Segundo a autora, a vida de Cândido e sua luta pela sobrevivência é também uma história do trabalho livre no Brasil durante a vigência da escravidão. Ao mostrar as dificuldades de Cândido em conseguir o sustento para a sua família através do trabalho dando a entender, muito por causa das interpretações de tia Mônica, que eram provocadas pelo próprio Cândido que escolhia seus trabalhos, Machado de certa forma indica as reais dificuldades desses homens em trabalhar nessa sociedade escravista.

Percebe-se que essa dificuldade dos homens livres e as relações de dependência que eles vão traçar para a sua sobrevivência foram temas dos romances de Machado de Assis. Porém, no conto “Pai contra mãe”, Machado liga os três universos dessa sociedade brasileira esquematizada por Schwarz4 . Cândido, homem livre e pobre, serve

3 MORAES, Renata Figueiredo. Pai contra mãe: a permanência da escravidão nos contos de

Machado de Assis. In: 4º. Encontro de Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, 2009. (ONLINE) Disponível em: <http://w.labhstc.ufsc.br/ivencontro/pdfs/comunicacoes/RenataMoraes.pdf>. Acesso

4 Roberto Schwarz é um crítico literário e professor aposentado de Teoria Literária. Um dos principais continuadores do trabalho crítico de Antonio Candido, redigiu estudos sobreMachado de Assis elencados entre os mais representativos na fortuna crítica sobre o autor das Memórias Póstumas de Brás Cubas. O a classe de proprietários à medida que captura os escravos. Esse trabalho só poderia ser mesmo feito por homens livres que cedessem à pobreza, segundo diz o próprio Machado, de capturar homens e mulheres em condições piores que as deles. No entanto, o autor, através da fala da tia Mônica, dá a entender que Cândido era o responsável pela sua condição ao querer ser livre para escolher a qualquer momento o seu trabalho quando na verdade ocorre o contrário. Cândido irá escolher aquele que oferecer maiores rendimentos. E capturar escravos fugidos se mostra o auge do trabalho livre naquela história principalmente na passagem que Machado cita os desempregados que recorreram a esse ofício.

Machado vive os momentos republicanos olhando para o passado escravista do país e expondo as diferentes liberdades. Ao tratar de um tempo da escravidão ocorrido há meio século, Machado expôs as permanências dessa sociedade nos tempos republicanos através do problema do trabalho e a sua transição do escravo para o livre, das condições de miséria existentes não apenas no período republicano mas que nasceram dessa sociedade escravista, representado no conto pela família de Cândido e dos sonhos de futuro representado pelas crianças. Tanto Arminda quando Cândido vê nos seus filhos a possibilidade de mudança, de retomada de alguns valores afetivos que antes não haviam gozado. Ter o filho em segurança era projetar um futuro distinto do que eles tinham até então. (MORAES, 2009)

Assim é Machado de Assis: irônico, pessimista, melancólico. Sua grandeza está em sua capacidade de ir ao ponto nevrálgico, reservando sempre desenlaces enigmáticos, jamais suspeitados por quem o lê. É por isso que para conhecê-lo não basta uma leitura, mas várias, pois são muitos os disfarces e armadilhas que espalha pelo caminho. Talvez venha daí à sedução que exerce ainda nos leitores de hoje. E, não é sem merecimento que Machado de Assis é hoje reconhecido como o maior romancista brasileiro de todos os tempos.

pensamento de Schwarz sobre literatura é inseparável da reflexão mais ampla sobre política e sociedade, e, nessa linha, podem-se mencionar os ensaios “Cultura e política, 1964-1969” (originalmente publicado em Les Temps Modernes, 1970, recolhido em O Pai de Família).

ASSIS, Machado de. “Pai contra mãe”. In: _ Relíquias de Casa Velha. Rio de Janeiro: Ed. Garnier, 1990, p. 17-27.

ASSIS, Machado de. 100 anos de uma cartografia inacabada. Rio de Janeiro, RJ: Ministerio da Cultura, 2008.

MORAES, Renata Figueiredo. Pai contra mãe: a permanência da escravidão nos contos de Machado de Assis. In: 4. Encontro de Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, 2009. (ONLINE) Acesso em: 02/05/2010. Disponível em:

<http://w.labhstc.ufsc.br/ivencontro/pdfs/comunicacoes/RenataMoraes.pdf>

HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

HATOUM, Milton. Machado de Assis: um século depois. São Paulo, 2008 (ONLINE). Disponível em: <http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3198423- EI6619,0 Machado+de+Assis+um+seculo+depois.html>. Acesso em: 08/05/2010.

LISBOA, Marcia. O Negro no Brasil: a dura luta pela inserção social. In: revista Rumos: economia e desenvolvimento. Ano 25, nº 183, p. 24-32, abr. 2001.

Conto - Pai contra mãe , uma leitura

Já de início o autor/narrador se justifica no conto como sendo a escravidão e a vida uma forma grotesca e cruel.  “Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e alguma vez o cruel”. E continua contando que “pegar escravos fugidios era um ofício do tempo”. Lembra também que “ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem”.

Quem conta um conto - Pai contra mãe

PAI CONTRA MÃE

A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres.  A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Você sabia disso ? - Ritalina


14 de janeiro de 2013


Soa como uma horrível estória de um filme de terror: um psiquiatra norte-americano, internacionalmente famoso, testa em seus pacientes, nos anos 60, diferentes remédios psicotrópicos com a intenção de acalmar as crianças. Quando encontra a pílula adequada com a qual consegue acalmá-las, ele levanta em nome da Organização Mundial da Saúde a agitação das crianças como uma nova doença. Uma nova fonte de renda da rede mundial da indústria médica e farmacêutica. Milhões de jovens em todo o mundo tomam a ritalina há décadas, porque eles teriam a suposta TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade).

Fábula - Parábola - Apólogo

Fábula, Parábola e Apólogo                                          
      
Como foi visto nas unidades anteriores, os textos, em sua grande maioria, surgem na oralidade, pois a fala é anterior à escrita, e esta é essencialmente a materialização daquela, sendo ambas expressões do pensamento.

Entre os povos que não se utilizam da escrita, a figura do mais velho como portador de sabedoria é bastante comum e, curiosamente, este sábio não costuma discorrer sobre assuntos filosóficos ao ser consultado, pelo contrário, o respeito que adquire entre os seus reside justamente no fato de ser capaz de transmitir um ensinamento profundo por meio de histórias simples, fáceis de memorizar e de serem compreendidas. É por esse motivo que muitas delas servem para educar crianças nas mais diferentes culturas, transmitindo os valores de cada sociedade e apresentando maneiras de se comportar e de entender a vida nas mais diversas situações e adversidades próprias à existência humana.
Personalidades como o grego Esopo (VI a.C.) e o francês La Fontaine (XVII d.C.) destacaram-se por suas fábulas e apólogos, utilizados, inclusive, para educar futuros reis. No universo das religiões, destaca-se outro tipo de história, simples no que concerne às personagens e enredo, porém algumas vezes complexas quanto ao entendimento, demandando reflexão ou explicação: trata-se das parábolas. Há famosas parábolas cristãs, muçulmanas, hinduístas, budistas e taoístas.
Quando textos como esses são propostos em vestibulares, prioriza-se a capacidade do canditato de expressar-se por escrito de modo a demonstrar que é capaz de interpretar o conteúdo de uma fábula, apólogo ou parábola, ou produzir uma fábula, por exemplo, evidenciando sua compreensão não somente acerca da função desse tipo de texto, bem como de sua estrutura.
Tanto na fábula e no apólogo como na parábola, utiliza-se o recurso da alegoria, palavra de étimo grego que poderia ser traduzida como “dizer de outra forma”; ou seja, as personagens, situações e objetos, nessas histórias, representam tipos de personalidade, sentimentos e ideias. Por meio delas, pode-se afirmar que as abstrações do pensamento ganham cor e forma.
Para entendê-las melhor, deve-se atentar às características que as individualizam.


FÁBULA

Na fábula expressa-se uma lição moral. Nela geralmente não estão presentes mais de duas ou três personagens, principalmente animais personificados, cujas características associam-se a tipos de personalidade. O enredo é bastante curto e desenvolve-se em torno de um conflito. Não costuma haver descrições além do essencial para contextualizar o leitor, tampouco preocupação em se precisar tempo e espaço. O principal conteúdo costuma ser expresso nas falas das personagens, escritas geralmente por meio de discurso direto (ver unidade XXIV). Há, no entanto, fábulas em que não são apresentadas falas, concentrando-se o conteúdo no mero comportamento das personagens diante da situação de conflito. É comum, porém não obrigatório, destacar-se uma “moral” após o desfecho. Em fábulas modernas, escritas em prosa (em parágrafos), existe uma certa tendência à exploração do humor. Antigamente as fábulas eram escritas em versos.

                        Leia os exemplos a seguir.

                        O ASNO E O CAVALO

Um asno dizia a um cavalo:
- Tu que és feliz! Cuidam de ti direitinho, te dão alimento em abundância. Quanto a mim, nem mesmo capim eu tenho e inúmeros são meus sofrimentos.
No entanto, quando veio a guerra, um cavaleiro pegou o cavalo, montou e partiu. Corria de um lado para outro, lançava-se nos combates mais encarniçados. O cavalo, exausto, terminou morrendo. Incontinenti, o asno mudou de opinião, lamentando o destino do cavalo.
MORAL: não invejes nem os ricos nem os poderosos. Pensa nos invejosos que os ameaçam e aprende a gostar de tua modesta fortuna.

-          Esopo

http://www.fabulas2000.kit.net/pesquisa/pag_1073161_013.html

                        A VIÚVA


Quando a amiga lhe apresentou o garotinho lindo dizendo que era seu filho mais novo, ela não pôde resistir e exclamou: " Mas como, seu marido não morreu há cinco anos?" "Sim, é verdade" — respondeu então a outra, cheia daquela compreensão, sabedoria e calor que fazem os seres humanos — "mas eu não".
MORAL: Não morre a passarada quando morre um pássaro.


A seguir propõem-se alguns ensinamentos morais ilustrados por fábulas de Esopo e Millôr Fernandes. Sugere-se que, para praticar, procure-se criar uma nova fábula para exemplificar essas afirmações.

"Nenhum gesto de amizade, por muito insignificante que seja, é desperdiçado."

"Os hábeis oradores, com astúcia e prudência, sabem converter em elogios os insultos recebidos dos amigos."

“Viver é desenhar sem borracha”

“Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem”


APÓLOGO

Apólogo, via de regra, consiste em uma fábula em que as personagens são seres inanimados, objetos ou até partes do corpo humano. Do apólogo também depreende-se uma moral.

                     O PREGO E O MARTELO

Um prego e um martelo jaziam lado a lado, acerca de uns cem metros de uma hidrelétrica em construção.
Quase ao mesmo tempo, perceberam uma inscrição nítida e tosca numa parede, que dizia: “Quando Você for martelo, não se esqueça de que já foi prego!...”
O Martelo leu, não disse nada e continuou em sua inércia. O prego, no entanto, deu a maior importância à mensagem e principiou a refletir na dura missão dele, prego, que implantado a duras marteladas bem aplicadas em sua cabeça, penetraria lenta e sofridamente no madeiramento até desaparecer quase por completo, quando então ficaria sustentando toda uma armação pesadíssima de caibros e tábuas, no mais completo anonimato.
E ai dele se apresentasse qualquer folga, por mínima que fosse, porque prontamente alguém perceberia e novas e contundentes marteladas o recolocariam no seu humilde e devido lugar.
- Ah! Martelo - disse o Prego, depois de relatar seu pensamento - não queira nunca ser prego.
O Martelo refletiu por dois segundos e respondeu:
- Meu amigo, não pense que eu já nasci martelo. Não meu caro, eu já fui minério como você foi, passei por uma fundição, fui um valoroso prego na construção da usina de Tucuruí, sustentei orgulhosamente as tábuas que escoraram trechos das barragens de cimento e aço, depois fui rejeito, quase lixo, fui colhido e levado para Brasília onde fixei tábuas de barracos de úteis candangos (pregos humanos); tempos depois, virei lixo mesmo e fui catado por catadores de lixo, selecionado e remetido a uma fundição de reciclagem, quando então, junto com outros pregos, virei uma massa amorfa e posteriormente tomei a forma atual de martelo.
Sou martelo, mas sei que formamos um par na lida; par sumamente importante e indissolúvel, pois todo trabalho é digno, toda função é importante, ninguém entre nós atua ou é útil sem o outro.
De que vale o prego sem o martelo? Qual é a utilidade do martelo sem o prego?
Assim também, nós, seres humanos, deveríamos sempre refletir na interdependência que existe entre nós e no quão importante é que saibamos ver a importância de nosso próximo e a nossa própria, sem a exagerarmos ou desmerecermos uma ou outra sem razão.
A escada por onde se sobe é a mesma por onde se desce.

Read more: Diálogos Possíveis: o Prego e o Martelo | Blog Brasil Acadêmico http://blog.brasilacademico.com/2009/06/dialogos-possiveis-o-prego-e-o-martelo.html#ixzz1S5m5LrYl

PARÁBOLA

Na parábola, as personagens são seres humanos ou ideias apresentadas como pessoas. É uma alegoria escrita em forma de narração. Sua finalidade seria a de ilustrar verdades e sintetizar ensinamentos. Não raramente, além das personagens, alguns objetos e mesmo elementos da paisagem representam outras ideias e seres. As parábolas costumam ser mais elaboradas do que as fábulas e apólogos, uma vez que sua alegoria é mais ricamente trabalhada. As parábolas bíblicas, como a mostrada a seguir, estão escritas originalmente em versos (versículos) e são sucintas, entretanto nada impede que haja parábolas escritas em prosa, muito mais extensas e enriquecidas com detalhes e descrições.

A Parábola do Semeador

Eis que o semeador saiu a semear.
E quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na;
E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda;
Mas vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz.
E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, e sufocaram-na.
E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
(Mateus, XIII, 3 a 9).


Nessa parábola, propõem-se os seguintes significados:

Semente: a palavra de Deus (ensinamentos de Suas leis).
Semeador: aquele que ensina as leis de Deus.
Semear: pregar a palavra de Deus.
Beira da estrada (pé do caminho): “corações” preocupados com a saciedade dos instintos e paixões.
Aves: instintos e paixões.
Pedras (pedregais): “corações” endurecidos, impiedosos.
Espinhos: as situações do cotidiano, da rotina, dos afazeres destinados à manutenção da vida material.
Boa terra: “corações simples” abertos ao entendimento dos ensinamentos de Deus.
Frutos: obras resultantes das pessoas que entenderam os ensinamentos e passaram a agir segundo eles.
Cem, sessenta, trinta: alusão ao que cada “convertido” passou a produzir segundo as próprias possibilidades.


Postado por Leonardo Cassanho Forster

A Introdução no Texto Dissertativo - Argumentativo

Um dos tipos de texto mais utilizados para avaliação em diversos processos seletivos (concursos, vestibulares, testes em empresas) é o texto dissertativo-argumentativo. Tendo em vista que iremos encará-lo em muitas situações, faz-se necessário aprimorarmos nossas habilidades de produção.

Conto - A Cartomante de Machado de Assis, uma análise crítica

O presente trabalho trata se de uma análise do perfil psicológico dos personagens principais do Conto “A Cartomante” de Machado de Assis, a luz das Teorias Fenomenológica Existencial utilizando-se para tanto uma analise subjetiva das situações ocorridas e atitudes de cada personagem durante sua trajetória na trama.
            No conto ”A Cartomante”, Machado de Assis, mostra a visão objetiva e pessimista da vida, do mundo e das pessoas (não existe final feliz). O autor faz uma análise psicológica das contradições humanas na criação de personagens imprevisíveis, jogando com insinuações em que se misturam a ingenuidade e malícia, sinceridade e hipocrisia.
            Crítica humorada e irônica das situações humanas, das relações entre os personagens e seus padrões de comportamento. Utiliza-se de uma Linguagem sóbria que, entretanto, não despreza os detalhes necessários a uma análise profunda da psicologia humana.