sábado, 15 de setembro de 2018

Crônica do Dia - Memórias da Ditadura

- Artur Xexéo
O Globo 02/04/2014

Talvez tenha sido um dia depois do golpe. É difícil
precisar. Afinal, até hoje ninguém sabe direito em que dia aconteceu o golpe. Sempre soube que foi no dia primeiro de abril, mas que, ao contar a história, os militares o anteciparam para o dia 31 de março, para que não coincidisse com o Dia da Mentira. Leio agora, entre as muitas reportagens que marcam o 50º aniversário do fato, que foi na madrugada de 2 de abril. Então deve ter sido no dia 3 de abril de 1964, uma sexta - feira, primeiro dia de aula depois do golpe. Quando entrei na sala do colégio em que estudava em São Paulo, estava lá, com letra bonita, toda redondinha, escrito no quadro-negro: “Para uma fortaleza vermelha, só mesmo um Castelo Branco”.

domingo, 9 de setembro de 2018

Os dividendos eleitorais do ataque a Bolsonaro POR BERNARDO MELLO FRANCO

Madrugada de sexta-feira, entrada da Santa Casa de Juiz de Fora. Cercado de câmeras e microfones, o deputado Flávio Bolsonaro é questionado sobre o estado de saúde do pai. Ele responde em cinco segundos e emenda uma mensagem política: “Vocês acabaram de eleger o presidente. Vai ser no primeiro turno”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Artigo de Opinião - Museu Nacional, um projeto civilizatório que fracassou

Relatos sobre o abandono do Museu Nacional deixaram atônitos muitos brasileiros que assistiram pela televisão às labaredas consumirem 200 anos de pesquisa. É impossível não sentir uma certa resignação com a tragédia. Afinal, o Museu Nacional não é o primeiro a ter este destino, e não há indícios de mudanças para que seja o último. A sensação é que naturalizamos a ideia que a cultura não faz parte do projeto de Brasil e, por isso, é normal vê-la destruída. É só acompanhar os comentários de internautas satisfeitos com o incêndio nas redes sociais: "Segue o baile! Se não há vítimas, deixa queimar essa história comunista que criaram", afirmou um entusiasta da tragédia. "Um gasto a menos nos cofres públicos", disse outro.

Crônicas do Dia - O Brasil queimou = e não tinha água para apagar o fogo


ELIANE BRUM

Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã. Então descobri que não tinha mais passado
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã.

Artigo de Opinião - Catástrofe cultural


O incêndio do Museu Nacional revela que o Brasil renunciou a zelar pelo saber

O fogo roubou muitas vezes o patrimônio da humanidade. As imagens da Biblioteca de Sarajevo destruída pelas chamas durante o cerco sérvio ou da Biblioteca Nacional incendiada durante a queda de Bagdá em 2003 serviram para resumir a dimensão dos conflitos que não só destruíram o presente dos povos que os sofrem, mas também seu passado e, portanto, parte de seu futuro. O Nome da Rosa, o célebre romance de Umberto Eco, termina com o incêndio de uma gigantesca biblioteca queimada pelo fanatismo que prefere as chamas ao conhecimento. Mas o que aconteceu no Museu Nacional não é resultado de uma guerra ou de um ataque intencional: é fruto da incompetência e da incapacidade do Estado brasileiro de proteger seu patrimônio científico e cultural. Os cortes de gastos em tempos de crise nunca deveriam servir de pretexto para negligenciar uma instituição dessas dimensões.

Artigo de Opinião - Incêndio do Museu Nacional foi um crime


Políticos prometem reconstruir o prédio para que as gerações futuras não os incriminem
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*JOSÉ NÊUMANNE, O Estado de S.Paulo

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Artigo de Opinião - Sobre essa mania chata que as pessoas negras tem de se vitimizar




Texto de  Jhow Carvalho. 

Nós pessoas negras nos vitimizamos mesmo! Gostamos tanto de nos vitimizar que quando entramos em um estabelecimento comercial somos nós que pedimos para os seguranças nos seguirem, eles não desconfiam de nós apenas pela cor de nossa pele, afinal não existe um velho estereótipo de que todo preto é ladrão. […]

Texto de nosso colaborador Jhow Carvalho.

Nós pessoas negras nos vitimizamos mesmo! Gostamos tanto de nos vitimizar que quando entramos em um estabelecimento comercial somos nós que pedimos para os seguranças nos seguirem, eles não desconfiam de nós apenas pela cor de nossa pele, afinal não existe um velho estereótipo de que todo preto é ladrão.

Quem nunca ouviu: “Vocês negras/negros se vitimizam sim. Nós somos todos iguais!”? Se para a sociedade essa igualdade é verdade, alguém avisa isso para a polícia, que eu acho que ela não entendeu, afinal 73,83% da população carcerária é negra. O que gera uma proporção de 11 presos negros, para um 1 branco. E porque será que há tantos pretos presos? Racismo!? Claro que não! É vitimismo! Nós, pessoas negras, temos uma compulsão por sermos vítimas, por isso até pedimos para que os policiais nos prendam, nos deem enquadros e nos batam.

Cláudia da Silva, por exemplo, é um caso preto de vitimismo, faz um ano e pouco mais de uma semana, que ela foi arrastada 900 metros por um carro de polícia. Cláudia, com absoluta certeza, pediu para os policiais fazerem isso, já que são muito amigos das pessoas pretas, (pode perguntar pra todas/todos suas/seus amigas/amigos pretas/pretos, que irão confirmar o que acabei de escrever). Isso porque ela queria ter seus 15 minutos de fama, sair na imprensa nacional e internacional. Vimos que isso efetivou-se visto que hoje, todo brasileiro conhece a história de Cláudia da Silva.

Talvez o silêncio da mídia “oficial” em relação a esse caso se dê pelo simples fato de que é comum, ou melhor é desejada a morte de pessoas negras. O racismo é estrutural, mas mesmo assim vivemos em um país tropical de democracia racial, né?!

E se eu for falar de educação então? Como nós pessoas negras nos vitimizamos! Tanto que 45,2% de nós conclui o ensino médio e desses apenas 35,8% de nós conclui o ensino superior.
 Quando não terminamos o ensino médio é porque não queremos, nenhuma pessoa negra jamais precisou parar de estudar para complementar a renda de sua casa.

Sem contar que na escola aprendemos muito sobre nós, quer dizer, sobre como o nosso foi povo foi escravizado. Aliás, quando aprendemos que fomos escravos, nossos colegas de classe – tão divertidos – tiram sarro de nossa cara preta por isso, achando tudo muito engraçado. Porque, com certeza, pulamos de alegria quando ficamos sabendo do sofrimento de nossas/nossos ancestrais, como se não bastasse vivenciarmos a estreita relação desse passado com os lugares que ocupamos atualmente na sociedade.

Também na escola, aprendemos tudo sobre nossa cultura e nossa história. Não porque foram necessárias duas leis para isso, a 10.639/03 e 11.645/08 para isso. Aliás, duas leis que ainda não são cumpridas, mesmo a primeira já estando há mais de uma década em vigor.

O ensino superior, então… nos é muito receptivo! A universidade está de portas abertas pra nós – quase uma mãe. Nunca nos sentimos sozinhas/sozinhos, porque vemos pretas/pretos para todos os lados, nossas/nossos colegas, professoras/professores. A gente se sente praticamente na África quando entramos na universidade. Isso pra não mencionar que é muito fácil para uma pessoa negra entrar na universidade, a maioria paga um colégio particular e um cursinho ao mesmo tempo só pra entrar, afinal que família negra não tem condições de fazer isso? Só a sua, obviamente.

Para pessoas negras universitárias fica a pergunta: quantas pessoas negras existem na sua sala e na sua faculdade? No circuito acadêmico parece esquizofrenia acreditar que 51% da população é negra. E professoras/professores negros? Existem na sua universidade? Quantas/quantos são?

E no mercado de trabalho, onde ganhamos 57,4% do que ganha uma pessoa branca?! Uma diferença que fica ainda maior, se colocarmos em questão o gênero, pois as mulheres negras ganham apenas 67% do que ganham os homens negros, e 34% do que ganham os homens branco, desta forma são elas a base da pirâmide social. Claro que isso não acontece porque também há um forte racismo institucional. É vitimismo. Só pode! É tudo culpa nossa. Sempre. E o pior é que o nosso “vitimismo” incomoda. Ouvir gente preta falar de racismo incomoda. Que pena, porque continuaremos falando, gritando e incomodando, com todo esse nosso “vitimismo”.

P.S.: Quando falamos de racismo não queremos o paternalismo babaca que muitos brancos nos dão, quando falamos de racismo não pedimos abraços ou caridade, pedimos justiça!