quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Me perdoa ? - José Henrique da Silva

Me perdoa ?


Insônia
Entre um pigarro e outro,
Preciso parar com esse cigarro,
Lembranças, memórias,
Fantasmas a me perseguir
O passado na minha escuridão a reluzir,
Mas brilha você em meu presente
Penso sorrindo que poderia ter desfilado antes pela tua história
Teria poupado tantos lamentos?
Tanto perecer ?
Sutis sofrimentos?
Tanto dar sem receber?
Ah, como o príncipe encantado 
Queria ser
Para cuidados, flores e carinhos te ofertar
Vivências dolorosas reduzir, minimizar
Queria novamente na chama do sentimento 
Me arder, me consumir, me queimar
Sou apenas carinho e  desejo 
Mas penso que você merece,
Pela trajetória caminhada,
Alguém que te oferte mais, muito mais
Do que carinho e desejar
Merece sutilezas e sacrifícios
Alguém que faça do amor um ofício
Para a uma princesa se entregar.
Me debato questionando 
Se faço certo, correto
Estar pela sua vida percorrendo
Assim tão latejando, sofrido, doendo 
E dolorido
Sinto que já não quero te perder
Egoísta que sou.
Porém tenho medo de me decepcionar
E novamente - Ah! - novamente vir a sofrer
Pânico de na piscina mergulhar
Por completo me doar
E no fim de tudo me estraçalhar
Coração sussurando - Vai, é preciso se arriscar!
Alma gritando: Se proteja para não se machucar!
Sangra incessantemente
Quando a gente inultimente se doa,
Portanto,
Se ainda não sou o que gostaria que fosse,
Me perdoa ? 


José Henrique da Silva
30 de dezembro de 2005, 05 horas da madruga

Da feijoada à mineira - Carlos Drummond de Andrade

Uma velha e perfeita cozinheira a quem pedi a fórmula sagrada

Da feijoada à mineira,

Mandou-ma. Ei-la: "Receita de feijoada -

Tome coisa de um litro de feijão

Preto, novo, sem bicho,

E, depois de catado com capricho,

Jogue no caldeirão.

(Com feijão que não seja preto é à toa

tentar fazer feijoada.

E se teimar, não cuide que sai boa;

Sai não valendo nada.)

Quando estiver o caldeirão fervendo

Ou antes, deite o sal,

As mãos de porco, orelhas e, querendo

Focinhos e rabo; isto (está claro) tendo,



Porque não tendo é o mesmo, não faz mal.

Se, além desses preparos, deitar nela

Linguiça e mais um osso de presunto,

Só o cheiro da panela

Faz crescer água à boca de um defunto.

Eu já ia me esquecendo (que memória)

Da carne seca e da couve.

Feijoadas sem elas, qual! É a história...

Não há nem nunca houve.

Depois de tudo bem cozido, a ponto,

Machuque bem um pouco do feijão

E pronto.

Mas machuque só a parte que senão,

Em vez de feijoada sai pirão.

Eis, aí está o prato preparado...

Minto: falta ainda o molho

Que embora simples é o segredo o escolho De muito bom guisado.

O molho faz-se com vinagre, ou então,

(Para sair a coisa mais completa)

com suco de limão

e bastante pimenta malagueta.

Sal, ponha quantum satis.

Não vai ao fogo nem ligeiramente,

Exceto se levar também tomates,

Cebola, ou outro que tal ingrediente.

Co/a feijoada, a clássica, a mineira É compulsório o uso da farinha.

Como bebida, um trago de caninha.

Há quem regue o vinho; mas é asneira.

Quanto à caninha fala-se

Ou não se fale, a mim é indiferente.

Eu tenho a firme opinião que um cálice

Nenhum mal faz à gente."

Eis aí a receita.

Publico-a sem responsabilidade.

Experimentem, se sair bem feita

E eu, no dia, estiver nessa cidade...

Não insinuo nada:

Apenas lembro que ninguém rejeita

Convite para almoço de feijoada.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Artigo de Opinião - Hércules Cotidianos - Luiz Antonio Simas

Rio - Um dos 12 trabalhos de Hércules, certamente o mais fedido, foi fazer em um dia a limpeza dos estábulos do rei de Élida, Áugias. Com um rebanho de três mil bois, os estábulos não eram limpos havia 30 anos. Para realizar a proeza, Hércules desviou no muque o curso dos rios Alfeu e Peneu, para que eles passassem pelos estábulos. Fez, portanto, o inverso da Samarco, que encheu o rio de bostas tóxicas e anda dando um migué para que o tempo apague da memória coletiva o crime cometido.

Você é racista só não sabe ainda disso - Tulio Custodio

Uma mulher branca e uma negra dividem um banco de metrô. A negra tem o cabelo crespo solto, estilo black power. A branca repara, acha curioso e pede para tocar nas madeixas. A alguns metros dali, um negro vestindo uma blusa com capuz caminha pela avenida ao som do rapper Emicida. Um homem de negócios, de terno e ao celular, atravessa a rua quando o vê. Um idoso internado num hospital do outro lado da cidade reclama com uma negra vestida de branco sobre a demora da médica, sem saber que está falando com a própria. Na televisão, um programa humorístico tem um personagem chamado Africano que emite sons guturais e se comporta como uma besta. O que todas essas situações têm em comum? São casos cotidianos de racismo que passam despercebidos pelas pessoas por causa de um fenômeno que a psicologia social chama de unconscious bias, ou, em português, “viés inconsciente”.

O viés inconsciente é um conjunto de estereótipos sociais, sutis e acidentais que todas as pessoas mantêm sobre diferentes grupos de pessoas. É o olhar automático para responder a situações e contextos para os quais você é treinado culturalmente, como uma programação do cérebro. O ser humano tem a capacidade de pensar rápido ou devagar. Quando decidimos sobre a compra de uma casa, pesamos todos os lados para tomar a decisão. Ou seja, pensamos devagar. Mas, em outras situações do dia a dia, nos baseamos em julgamentos intuitivos que são processados rapidamente pelo cérebro, sem nos darmos conta. São como atalhos que a mente usa porque é mais fácil. O problema é que ele também nos prega peças. Toma decisões com base em associações com memórias antigas, noticiário, novelas, aulas, conversas com familiares e amigos. Nelas, há milhares de estereótipos. Não adianta se ofender e dizer que não é preconceituoso. Se você tem um cérebro, tem viés inconsciente. Sem que perceba, processos neurais e cognitivos tiram conclusões por você, e é aí que entra a discriminação disfarçada.

Claro, ninguém quer assumir que é preconceituoso. A expressão racismo parece remeter a algo de tanto tempo atrás que já não faz parte do nosso cotidiano. Tem relação com conflito: é a divisão das pessoas com base no ódio, o enfrentamento de brancos e negros, aquilo que a história contou sobre o sul dos Estados Unidos ou o apartheid na África do Sul. Obsoleto, démodé. Será? O racismo existe. Só porque não o vemos se manifestar o tempo todo não se pode dizer que ele não esteja aí. Na verdade, essa é parte do problema: o racismo que imaginamos não é simplesmente o que vemos. Ele se reproduz também no invisível e no cotidiano, no que se faz e não se percebe. No viés inconsciente.

No Brasil, essa questão atinge níveis mais drásticos por duas razões: o racismo é velado e vivemos numa sociedade hierarquizada com base em privilégios. Ter privilégios significa usufruir de oportunidades e escolhas sem ter que pensar sobre isso, como ligar a torneira de casa para ter água. Decisões que parecem banais, mas não são, por causa da existência de um conjunto de indivíduos da mesma sociedade que não têm as mesmas oportunidades. É justamente por possuir privilégios que é difícil entender que, apesar da liberdade para se esforçar e lutar pelo que se deseja, não são todos que atingem a linha de chegada com o mesmo sucesso.


Artigo de Opinião - A atualidade da negritude

Gustavo de Andrade Durão

 O encontro dos intelectuais negros fora de seus espaços geográficos gerou uma importante reunião de pensadores engajados na “questão negra”. Léopold Senghor, do Senegal, era o mais antigo do grupo, Aimé Césaire, da Martinica, o criador da palavra négritude, e Léon Gontram Damas, o divulgador das caracterizações desse conceito no ambiente cultural das Antilhas. Em meados de 1930, a négritude foi considerada como uma espécie de “patrimônio cultural dos negros”, levando Senghor e seus companheiros à busca de bases para uma contestação do domínio político-administrativo das populações negras.
O conceito de négritude deve ser diferenciado do Movimento da Négritude, pois, enquanto o primeiro ainda hoje encontra diversas definições, o segundo tem um lugar específico no tempo e no espaço. Esse movimento aconteceu uma única vez e, apesar das críticas, teve amplas repercussões no campo literário.

Artigo de Opinião - Por uma crítica das razões mestiças - Rafael Haddock Lobo

A recente publicação em 2013 do livro Crítica da razão negra, de Achille Mbembe, possui, entre tantos outros méritos, uma significativa importância para o pensamento ético-político contemporâneo por denunciar a vinculação estreita entre a racionalidade neutra e universal e um modo específico de se fazer filosofia, o europeu. Nesse sentido, a referência à célebre Crítica da razão pura, de Imannuel Kant, possivelmente um dos mais importantes livros da tradição ocidental, denuncia essa busca pela “pureza” em sua inevitável relação com a “brancura”, ou seja, como imperativo de uma certa cultura.

Crônicas do Dia - Saúde - Ruth de Aquino

Quando brindamos, o primeiro voto é “saúde!” – e não por acaso. Só depois vem “paz, amor”. Sem saúde, o resto não é possível. Por que, então, o Brasil é tão cruel com seus doentes? Crises na Saúde não são produzidas de um dia para o outro. O caos nos hospitais do Estado do Rio de Janeiro é apenas a vitrine de um sistema falido e desumano, e o governador Pezão é um dos culpados, não o único.